domingo, 11 de outubro de 2026
CIDADES

Os 557 focos registrados em Manaus ampliam a investigação sobre a fumaça na capital

Manaus teve aumento de focos de calor entre agosto e setembro de 2026, segundo levantamento da NEX. A alta ocorre em um cenário de queda estadual, mas mapas meteorológicos e registros de satélite ainda não permitem confirmar quais áreas contribuíram para episódios de fumaça na capital.
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Manaus registrou 557 focos de calor entre agosto e setembro de 2026, contra 490 no mesmo período de 2023. O aumento de 13,7% inclui a própria capital no conjunto de áreas que precisam ser consideradas na investigação sobre episódios de fumaça, ao lado de municípios do entorno e do setor leste do Amazonas.

O dado faz parte de um levantamento da NEX Hub de Análises Estratégicas, produzido com informações do Painel do Fogo do Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM) e dados territoriais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A análise identificou 65.610 focos no Amazonas em 2026, contra 89.758 em 2023, uma redução de 24.148 detecções, ou 26,9%.

A queda estadual, porém, não ocorreu de forma uniforme. Dezesseis dos 62 municípios amazonenses tiveram crescimento no número de registros, incluindo Manaus, Manacapuru, Iranduba, Itacoatiara, Rio Preto da Eva, Careiro e Manaquiri. A distribuição territorial dos focos, combinada com a circulação atmosférica, é o ponto central para avaliar possíveis contribuições para a fumaça na capital.

O registro na capital não identifica a origem da fumaça

A existência de focos em Manaus amplia o conjunto de hipóteses, mas não permite concluir que eles sejam responsáveis pelos episódios de fumaça observados na cidade. O mesmo vale para os municípios localizados no entorno ou em outras áreas do estado.

A concentração de partículas sobre uma cidade depende da localização das queimadas, da quantidade de material queimado, da duração das ocorrências e das condições atmosféricas no momento dos eventos. A direção e a velocidade dos ventos, além da dispersão em diferentes alturas, também interferem no deslocamento e na permanência da fumaça.

Por isso, o total de focos do Amazonas não funciona, isoladamente, como medida da poluição em Manaus. Uma redução expressiva em municípios distantes pode diminuir a soma estadual sem impedir episódios na capital. Da mesma forma, aumentos em áreas próximas podem elevar o potencial de contribuição quando a circulação do ar favorece o transporte das partículas.

O levantamento aponta que a região intermediária de Manaus, divisão territorial do IBGE mais ampla que o entorno imediato da capital, passou de 18.231 para 18.980 focos no período comparado. O crescimento foi de 4,1%. Na região intermediária de Parintins, o número subiu de 10.290 para 10.686, alta de 3,8%.

Manacapuru e Iranduba tiveram as maiores altas

Entre os municípios próximos de Manaus, Manacapuru apresentou o maior aumento absoluto de todo o levantamento. Foram 2.730 focos entre agosto e setembro de 2026, ante 1.230 no mesmo intervalo de 2023. A diferença foi de 1.500 detecções, ou 122%.

Iranduba teve a maior variação percentual. O município passou de 192 para 657 focos, alta de 242,2%. Caapiranga também registrou crescimento significativo, de 946 para 2.248 detecções, aumento de 137,6%.

Outros municípios considerados na avaliação também tiveram alta. Itacoatiara passou de 1.710 para 1.962 focos, crescimento de 14,7%. Careiro subiu de 1.236 para 1.442, alta de 16,7%. Manaquiri avançou de 1.247 para 1.328, enquanto Rio Preto da Eva passou de 241 para 327 registros.

Nova Olinda do Norte teve aumento de 992 para 1.282 focos, ou 29,2%. Borba passou de 1.550 para 1.771, alta de 14,3%. Urucurituba registrou crescimento de 457 para 1.192 detecções, variação de 160,8%.

Os números indicam municípios que devem ser acompanhados na análise territorial, mas não comprovam que a fumaça produzida por essas ocorrências tenha alcançado Manaus. Para estabelecer essa relação, é necessário cruzar a localização e o horário dos focos com a trajetória das plumas e as condições do ar no período correspondente.

Setor leste aparece como possibilidade nos mapas

As imagens do Windy analisadas no levantamento mostram traços de circulação atmosférica com orientação aproximada de leste-nordeste para oeste-sudoeste no corredor entre Parintins, a região de Urucará, Itacoatiara e Manaus.

Esse alinhamento é compatível com uma possível circulação de ar do setor leste em direção à capital. Se as partículas estivessem se deslocando para oeste ou oeste-sudoeste, queimadas localizadas nesse corredor poderiam contribuir para episódios de fumaça em Manaus.

Itacoatiara se destaca nesse cruzamento entre geografia e registros de calor. O município está a leste da capital e teve 252 focos adicionais no bimestre analisado. Outros municípios do setor também apresentaram crescimento, como Urucurituba, cuja alta foi de 160,8%, e Boa Vista do Ramos, que passou de 690 para 1.022 detecções, aumento de 48,1%.

A interpretação, entretanto, é apenas uma hipótese de transporte. As imagens estáticas não mostram com segurança o sentido efetivo de deslocamento das partículas e não permitem estabelecer a origem da fumaça. Também não há, no material analisado, indicação legível de data, horário e configuração completa da previsão meteorológica.

Possível influência do sudeste depende de outra configuração

O setor entre Borba e Itacoatiara também aparece na avaliação. Os mapas apresentam traços em orientação diagonal que, caso indiquem deslocamento do sudeste para o noroeste, poderiam favorecer a aproximação de ar vindo de áreas situadas a sudeste de Manaus.

Borba teve aumento de 1.550 para 1.771 focos, enquanto Nova Olinda do Norte passou de 992 para 1.282. Os dados tornam esses municípios relevantes para o acompanhamento da possibilidade, sem confirmar que as ocorrências tenham contribuído para a fumaça observada na capital.

Autazes e Careiro da Várzea tiveram redução nos registros. Autazes caiu de 4.372 para 2.829 focos, recuo de 35,3%. Careiro da Várzea passou de 1.603 para 1.428, baixa de 10,9%.

A queda nesses municípios não elimina a possibilidade de contribuição em episódios específicos, porque o transporte depende das condições atmosféricas no momento de cada ocorrência. Careiro da Várzea, inclusive, apresentou a maior densidade de focos por área municipal no levantamento de 2026: 543,5 detecções por 1.000 quilômetros quadrados.

Áreas a oeste exigem vento em sentido diferente

Os aumentos registrados em Manacapuru, Iranduba e Caapiranga precisam ser interpretados de acordo com a posição desses municípios em relação a Manaus. Eles estão situados a oeste e sudoeste da capital.

Para que a fumaça dessas áreas alcance Manaus, seria necessário que o fluxo de ar viesse desses setores ou que as trajetórias atmosféricas levassem as partículas até a cidade. O alinhamento observado no corredor leste não explica, por si só, uma eventual contribuição de Manacapuru ou Iranduba.

Essa distinção separa duas informações do levantamento. Os dados de satélite mostram onde os focos cresceram ou diminuíram. Os mapas meteorológicos ajudam a avaliar em quais condições o ar e as partículas poderiam se deslocar até Manaus. A combinação dos dois conjuntos de dados não substitui a confirmação da trajetória das plumas.

Histórico indica predominância de ventos de leste e nordeste

Um estudo apresentado no Congresso Técnico Científico da Engenharia e da Agronomia, com dados da estação automática do Instituto Nacional de Meteorologia em Manaus entre 2012 e 2019, identificou predominância de ventos de leste e nordeste nos períodos seco e chuvoso.

Na meteorologia, a direção do vento indica de onde ele vem. Assim, um vento de leste sopra do leste para o oeste. Esse padrão histórico torna plausível o acompanhamento de municípios localizados a leste e nordeste da capital, mas não determina o comportamento da atmosfera em cada episódio.

A circulação pode variar com a ocorrência de chuvas, condições regionais e influências locais, como as brisas fluviais. Também podem existir diferenças entre os ventos próximos da superfície e aqueles registrados em níveis mais elevados da atmosfera.

Queda estadual foi influenciada pelo recuo no sul

A redução de 26,9% no total do Amazonas foi influenciada pelo recuo em municípios que apresentavam grande quantidade de detecções em 2023. Lábrea passou de 10.486 para 4.094 focos, queda de 61%. Humaitá caiu de 5.314 para 1.530, baixa de 71,2%.

Canutama teve redução de 3.644 para 1.013 registros, recuo de 72,2%. Boca do Acre passou de 5.080 para 2.107, queda de 58,5%. Também houve diminuição em Novo Aripuanã, Manicoré e Tapauá, com recuos de 23,7%, 46,6% e 68,9%, respectivamente.

Apuí seguiu na direção oposta e apresentou o maior total estadual no bimestre de 2026. O município passou de 10.342 para 11.033 focos, crescimento de 6,7%.

Os resultados mostram que a queda do Amazonas foi formada por situações distintas entre os municípios. Para avaliar possíveis efeitos sobre Manaus, a soma estadual precisa ser complementada por uma leitura territorial e meteorológica.

Comparação não inclui outubro de 2026

O levantamento compara agosto e setembro de 2023 com os mesmos meses de 2026. Os dados de outubro de 2026 não estavam disponíveis no material, portanto não é possível comparar os trimestres completos.

Em 2023, outubro acrescentou 31.782 focos ao total, levando o período de agosto a outubro a 121.540 detecções. O mês representou aproximadamente 26,1% do trimestre daquele ano.

A análise também contextualiza 2023 como um período marcado por El Niño e seca severa. A comparação, porém, mede a variação das detecções e não determina isoladamente a participação de fatores climáticos ou de ações de prevenção e combate.

Focos de calor não correspondem a incêndios individuais

Os dados utilizados são detecções por satélite organizadas por município e exportadas do Painel do Fogo do SIPAM. As informações territoriais do IBGE serviram para calcular a densidade de focos por 1.000 quilômetros quadrados.

Um foco de calor não equivale necessariamente a um incêndio individual. A mesma ocorrência pode gerar mais de uma detecção, e o indicador não mede diretamente a área queimada nem o volume de fumaça produzido.

Assim, o levantamento sustenta a hipótese de que o aumento de focos em parte do entorno e do setor leste do Amazonas pode contribuir para episódios de fumaça em Manaus quando os ventos favorecem o transporte até a capital, mesmo diante da redução do total estadual.

A identificação das áreas que contribuíram para cada episódio depende de uma análise conjunta da localização e do horário das detecções, das imagens das plumas de fumaça e das trajetórias do ar em diferentes altitudes.