A diversidade cultural de Santa Catarina é resultado da presença de diferentes povos, trajetórias históricas e formas de viver. Muito além de uma imagem associada apenas às heranças germânicas ou italianas, a identidade catarinense também foi construída por povos indígenas, comunidades quilombolas, descendentes de portugueses, africanos, poloneses, ucranianos e outros grupos que participaram da formação social do estado.
Essa multiplicidade pode ser percebida em manifestações religiosas, festas populares, modos de preparar alimentos, sotaques, músicas, danças, técnicas de construção, atividades econômicas e relações com o território. Em cada região, a combinação desses elementos assumiu características próprias, criando um patrimônio cultural marcado pela diversidade.
Os povos indígenas e as raízes mais antigas
Antes da chegada dos colonizadores europeus, o território que hoje corresponde a Santa Catarina já era ocupado por diferentes povos indígenas. Atualmente, o estado reconhece a presença principalmente dos povos Guarani, Kaingang e Xokleng, também identificados como Laklãnõ em processos de afirmação étnica e política.
Esses povos possuem histórias, línguas, formas de organização social e referências culturais próprias. Sua presença não pertence apenas ao passado: comunidades indígenas continuam vivendo em Santa Catarina, preservando conhecimentos, práticas tradicionais, vínculos territoriais e formas particulares de interpretar a relação entre sociedade e natureza.
A contribuição indígena aparece em conhecimentos sobre plantas, rios, florestas, agricultura, pesca, artesanato e alimentação. Também está presente em nomes de lugares e em referências que atravessam a história regional. O reconhecimento dessa participação é essencial para evitar uma narrativa limitada à colonização europeia.
Documentos do governo estadual apontam que os povos Kaingang, Xokleng e Guarani compõem a população indígena catarinense. Registros históricos e arqueológicos também indicam a antiguidade da ocupação indígena em áreas do Sul do Brasil, incluindo o oeste e outras regiões de Santa Catarina. (sas.sc.gov.br)
A presença portuguesa no litoral
A influência portuguesa é especialmente visível no litoral catarinense. A ocupação de áreas costeiras por colonos portugueses e por famílias vindas dos arquipélagos dos Açores e da Madeira deixou marcas na arquitetura, na religiosidade, nas festas e nas atividades ligadas ao mar.
Em comunidades litorâneas, a pesca artesanal, a construção de embarcações, o cultivo de alimentos e as celebrações religiosas foram transmitidos entre gerações. A chamada cultura açoriana também se expressa em casas, igrejas, engenhos, técnicas de trabalho e formas de sociabilidade que ainda fazem parte da paisagem de municípios do litoral.
Essa herança não permaneceu isolada. Ao longo do tempo, ela se misturou às tradições indígenas, africanas e de outros grupos de imigrantes. Por isso, a cultura do litoral catarinense não pode ser compreendida como uma reprodução intacta de costumes europeus, mas como resultado de adaptações e encontros ocorridos no território.
Imigração europeia e formação de novas comunidades
A partir do século 19, Santa Catarina recebeu fluxos de imigrantes europeus que se estabeleceram em diferentes regiões. Alemães, italianos, poloneses e ucranianos estão entre os grupos que deixaram marcas importantes na ocupação do estado, na produção agrícola, na arquitetura e na organização comunitária.
As colônias de imigração desenvolveram práticas de trabalho, associações, igrejas, clubes, escolas e festas que ajudaram a formar identidades locais. Em muitas comunidades, a língua de origem foi preservada por famílias e grupos culturais, ainda que tenha convivido com o português e sofrido transformações ao longo das gerações.
O patrimônio cultural associado à imigração inclui casas, igrejas, moinhos, galpões, jardins, objetos, documentos, receitas, músicas e celebrações. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional destaca que grupos de origem alemã, italiana, polonesa e ucraniana mantêm corais, conjuntos musicais e grupos de dança, além de festas e práticas comunitárias específicas. (bibliotecadigital.iphan.gov.br)
Em algumas áreas de colonização alemã, clubes de caça e tiro, salões de baile e jogos tradicionais se tornaram espaços de convivência. Entre descendentes de italianos, poloneses e ucranianos, festas religiosas e encontros familiares também assumiram papel relevante na transmissão de costumes. Essas manifestações, porém, não são uniformes: mudam de acordo com a região, a história das famílias e os contatos com outros grupos.
A contribuição africana e quilombola
A presença negra é outra parte fundamental da identidade de Santa Catarina. Pessoas africanas escravizadas e seus descendentes participaram da formação econômica, social e cultural do estado, embora essa contribuição tenha sido frequentemente reduzida ou omitida em narrativas tradicionais.
As comunidades quilombolas preservam memórias, modos de organização, práticas religiosas, relações de parentesco, conhecimentos sobre o território e formas coletivas de trabalho. Seus territórios estão distribuídos por diferentes regiões, do litoral ao interior, e constituem espaços de continuidade histórica e cultural.
Dados divulgados pelo governo de Santa Catarina identificam comunidades quilombolas em municípios como Florianópolis, Garopaba, Joinville, Porto Belo, Praia Grande, Santo Amaro da Imperatriz, Campos Novos, Abdon Batista e Capivari de Baixo, entre outros. O levantamento estadual consultado registra 21 comunidades identificadas em 16 municípios, com informações baseadas em dados do Cadastro Único de 2020 e em consultas a lideranças e organizações quilombolas. (sas.sc.gov.br)
As comunidades também enfrentam desafios relacionados ao reconhecimento, à regularização fundiária e à preservação de seus modos de vida. Em 2025, o Incra e a Universidade Federal de Santa Catarina iniciaram estudos antropológicos em comunidades de Tabuleiro, Caldas do Cubatão e Ilhotinha, com o objetivo de reunir informações históricas, econômicas, socioculturais e ambientais para os processos de regularização. (gov.br)
Festas, culinária e patrimônio imaterial
A diversidade cultural de Santa Catarina se torna especialmente visível nas festas e celebrações. Eventos comunitários, religiosos, agrícolas e gastronômicos reúnem moradores, grupos culturais e visitantes em diferentes épocas do ano. Embora algumas festas tenham origem em tradições específicas, muitas foram transformadas pelo contato entre comunidades e pela dinâmica das cidades.
A culinária também revela essa combinação de referências. Preparos à base de milho, mandioca, peixe, frutos do mar, carnes, massas, polenta, embutidos, pães e doces aparecem em diferentes regiões, com receitas que receberam influências indígenas, portuguesas, africanas e europeias.
O alimento, nesse contexto, não é apenas um produto turístico ou uma receita familiar. Ele também representa memória, trabalho, religiosidade e pertencimento. O modo de plantar, pescar, conservar, preparar e compartilhar os alimentos ajuda a contar a história de comunidades inteiras.
O patrimônio imaterial inclui ainda cantos, danças, lendas, artesanato, técnicas de construção, brincadeiras, ofícios e conhecimentos transmitidos oralmente. A Fundação Catarinense de Cultura prevê mecanismos de registro e proteção de bens culturais imateriais relacionados à memória, à identidade e à formação das comunidades catarinenses. (cultura.sc.gov.br)
Uma identidade regional, mas não homogênea
Santa Catarina apresenta diferenças marcantes entre litoral, Vale do Itajaí, Norte, Planalto, Meio-Oeste, Oeste e Sul. Cada área reúne combinações particulares de povos, atividades econômicas, paisagens e processos históricos.
No litoral, a pesca artesanal, as tradições açorianas, os modos de vida ligados às águas e a presença de comunidades tradicionais são referências importantes. No Vale do Itajaí e no Norte, elementos da imigração alemã e de outras correntes europeias convivem com manifestações urbanas contemporâneas. No Oeste e no Meio-Oeste, as heranças indígenas, caboclas, italianas, alemãs e de outros grupos se relacionam com a agricultura e com a formação de núcleos coloniais.
Na Serra e no Planalto, práticas associadas à criação de animais, ao tropeirismo, à produção rural e às festas locais também compõem a identidade regional. No Sul, comunidades de origem italiana, portuguesa e africana participam de uma paisagem cultural marcada pela mineração, pela agricultura, pela pesca e pela vida urbana.
Essas divisões não são rígidas. Pessoas, famílias e grupos circulam entre regiões, e as cidades passaram a receber novos moradores de várias partes do Brasil e do mundo. A identidade catarinense, portanto, está em constante transformação.
Preservar a diversidade é reconhecer diferenças
Valorizar a diversidade cultural não significa transformar tradições em peças estáticas ou limitar grupos a imagens folclóricas. A preservação depende do reconhecimento das comunidades como protagonistas de suas próprias histórias e da garantia de espaço para que possam manter, adaptar e transmitir seus conhecimentos.
Também é necessário enfrentar o apagamento de contribuições indígenas, africanas e populares na educação, nos meios de comunicação, nos museus e nas políticas públicas. A proteção do patrimônio cultural envolve memória, território, direitos, acesso a recursos e participação social.
Quando uma comunidade mantém uma festa, uma língua, uma receita, um canto, uma técnica de trabalho ou uma forma de organização, ela não está apenas conservando o passado. Está reafirmando uma presença no presente e produzindo referências para o futuro.
A diversidade cultural de Santa Catarina é, assim, parte central da identidade do estado. Ela não se resume a um conjunto de festas ou símbolos turísticos. É formada por histórias de resistência, deslocamentos, encontros, conflitos, adaptações e continuidades. Reconhecer essa pluralidade permite compreender Santa Catarina de maneira mais completa e fiel à experiência de seus habitantes.