domingo, 1 de novembro de 2026
Esportes

Escalada em Santa Catarina ganha novos praticantes entre ginásios e áreas de montanha

A escalada em Santa Catarina vem ampliando sua presença por meio de ginásios, projetos de iniciação esportiva, competições e áreas naturais conhecidas entre montanhistas. O avanço da modalidade, porém, exige formação técnica, respeito às regras de acesso e cuidados com a preservação ambiental.

A escalada em Santa Catarina vem atraindo novos praticantes em diferentes faixas etárias e por caminhos variados. Alguns chegam ao esporte por meio de ginásios e paredes artificiais; outros são motivados pelo contato com a natureza, pelas trilhas e pelas formações rochosas espalhadas pelo Estado.

O movimento ocorre em paralelo à expansão da escalada esportiva no país. O Censo da Escalada 2023, organizado pela Associação Brasileira de Escalada Esportiva (ABEE), registrou que 76,3% dos participantes da pesquisa praticavam em rocha ou montanha, enquanto 67,5% também utilizavam ginásios comerciais. Os percentuais mostram a coexistência entre os ambientes indoor e outdoor, que cumprem funções diferentes na formação dos escaladores. (abee.com.br)

Em Santa Catarina, federações, associações, ginásios, escolas e projetos sociais ajudam a criar uma porta de entrada para quem deseja experimentar a modalidade. O crescimento, no entanto, não elimina a necessidade de orientação. Escalar em uma parede artificial pode ser o primeiro passo, mas a transição para a rocha exige conhecimentos específicos de segurança, leitura de vias, uso de equipamentos e avaliação das condições do local.

Ginásios aproximam o esporte de quem vive nas cidades

A escalada indoor tem papel importante na popularização da modalidade. Em vez de depender de uma viagem até uma área de montanha, o interessado pode conhecer o esporte em estruturas instaladas em centros urbanos. Nesses espaços, é possível desenvolver força, equilíbrio, mobilidade, coordenação motora e capacidade de planejar movimentos.

As paredes artificiais também permitem que a atividade seja praticada em diferentes condições climáticas e com acompanhamento de instrutores. No boulder, modalidade realizada em paredes mais baixas e protegida por colchões, o praticante não utiliza corda durante a ascensão. Já em vias mais altas, são empregados sistemas de cordas, cadeirinha, mosquetões e outros equipamentos, sempre de acordo com o tipo de atividade e com a orientação técnica.

Em Blumenau, a prefeitura mantém registro de um projeto de iniciação esportiva que ofereceu escalada indoor boulder gratuitamente para crianças e adolescentes. A iniciativa foi criada como polo de formação e funcionava no contraturno escolar, com atendimento a participantes de 6 a 17 anos. O município também informou que a modalidade passou a integrar programas de iniciação e desenvolvimento esportivo na cidade. (blumenau.sc.gov.br)

O Sesc Santa Catarina também ampliou a presença da escalada em suas unidades. Em 2025, a instituição informou a instalação de uma parede de escalada no Sesc Rio do Sul, após experiência semelhante em Canoinhas. A proposta inclui a capacitação de instrutores e a oferta de atividades voltadas a crianças e adolescentes. (sesc-sc.com.br)

Essas iniciativas não significam apenas a criação de novos espaços de lazer. Elas ampliam o acesso a uma modalidade que, durante muito tempo, esteve mais associada a grupos especializados e a deslocamentos para regiões de montanha. Ao entrar em escolas, centros esportivos e unidades de atendimento ao público, a escalada passa a ser apresentada como atividade física, prática recreativa e possibilidade de competição.

Da parede artificial para a rocha

O início em um ginásio pode ajudar o praticante a entender os movimentos básicos e a reconhecer os próprios limites. A experiência, porém, não substitui a formação necessária para escalar em ambientes naturais. Na rocha, o terreno é irregular, o acesso pode envolver trilhas e a segurança depende de fatores como ancoragens, qualidade dos equipamentos, exposição da via, previsão do tempo e experiência da equipe.

Por isso, a recomendação para iniciantes é procurar um curso, instrutor ou grupo experiente antes de participar de uma saída outdoor. Também é importante não usar equipamentos sem conhecer sua função, não improvisar sistemas de proteção e não tentar vias acima do nível de preparo do grupo.

A Associação Catarinense de Escalada e Montanhismo (ACEM) informa que atua na formação técnica, na manutenção de vias, na organização de eventos e na preservação das áreas de escalada, especialmente na Grande Florianópolis. A entidade também disponibiliza croquis e orientações sobre setores e regras de acesso. (acem.org.br)

Os croquis são ferramentas importantes para o planejamento. Eles apresentam informações sobre localização, dificuldade, extensão, estilo das vias e equipamentos necessários. Ainda assim, o material não substitui a avaliação presencial. Uma via pode ter alterações, interdições ou problemas nas proteções fixas, e as condições de uma parede podem mudar com chuva, erosão ou queda de pedras.

Áreas naturais ampliam as possibilidades no Estado

Santa Catarina reúne setores de escalada em diferentes paisagens, desde costões próximos ao litoral até paredes rochosas nos contrafortes da Serra do Mar e na Serra Geral. A diversidade de terrenos permite a prática de modalidades e níveis distintos, mas também exige que o visitante conheça as particularidades de cada área.

Na região de Corupá e São Bento do Sul, o Parque Natural Braço Esquerdo é descrito pela ACEM como uma área com quase 100 opções de vias, incluindo linhas para escaladores iniciantes e intermediários, além de setores de maior dificuldade. O local fica em uma área particular situada nos contrafortes da Serra do Mar e possui estrutura de recepção, conforme as informações divulgadas pela associação. (acem.org.br)

Na Serra Geral catarinense, um catálogo organizado por montanhistas reúne setores localizados nos municípios de Siderópolis, Treviso e Lauro Müller. O material apresenta áreas como Serrinha, Galeria, Morro da Mina, Cirenaica, Dedos, Godah, Salto Branco e Pedra do Camelo, com vias de diferentes extensões e sistemas de proteção. (acem.org.br)

Na Grande Florianópolis, a Pedreira do Abraão é um dos pontos tradicionais da atividade. O local integra o Parque Aventuras Maria Inês Tournier Rodrigues e possui regras específicas de acesso relacionadas ao convênio com a Polícia Militar Ambiental. Entre as exigências divulgadas pela ACEM estão o acompanhamento por associado autorizado, o registro de entrada e saída e o uso obrigatório de capacete.

A associação também informa que algumas vias da pedreira permanecem interditadas para manutenção. O acesso deve ocorrer nos horários definidos e a escalada solo não é permitida. As regras são parte do acordo que mantém a área disponível para a comunidade e, por isso, o descumprimento pode comprometer o acesso coletivo. (acem.org.br)

Competições ajudam a formar uma nova geração

A escalada esportiva também ganhou visibilidade com a presença em competições nacionais e internacionais. A modalidade estreou nos Jogos Olímpicos de Tóquio, realizados em 2021, em razão do adiamento dos Jogos de 2020. A exposição ampliou o interesse pelo esporte e contribuiu para aproximá-lo de públicos que antes não tinham contato com a prática.

Em Santa Catarina, a Federação de Montanhismo e Escalada do Estado de Santa Catarina (FEMESC) organiza atividades e rankings em parceria com ginásios e entidades locais. O regulamento do Ranking Catarinense de Escalada Esportiva de 2025 previa etapas em cidades como Joinville, Blumenau, Florianópolis e Balneário Camboriú, mostrando a distribuição da modalidade por diferentes regiões do Estado. (femesc.org.br)

As competições cumprem uma função que vai além da disputa. Elas ajudam a padronizar regras, estimular o treinamento e criar uma rede de convivência entre atletas, famílias, técnicos e organizadores. Para os iniciantes, também podem representar uma forma de acompanhar a evolução de outros praticantes e estabelecer metas progressivas.

Segurança e preservação são parte da prática

O aumento do número de praticantes traz responsabilidades para quem frequenta ginásios e áreas naturais. Na escalada, a prevenção depende de comportamento individual e de acordos coletivos. Conferir o equipamento antes da atividade, respeitar a graduação das vias, manter atenção durante a segurança do parceiro e interromper a prática diante de condições inseguras são procedimentos básicos.

Em unidades de conservação, áreas particulares ou locais administrados por associações, podem existir regras específicas para entrada, horários, uso de equipamentos, circulação e manutenção das vias. O Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina prevê procedimentos para autorizar atividades como montanhismo e escalada em unidades de conservação estaduais, incluindo a atuação de condutores de visitantes capacitados. (consultas.ima.sc.gov.br)

A preservação também envolve não abrir novas vias sem autorização, não alterar proteções instaladas por outros escaladores, não deixar lixo e evitar danos à vegetação. Em ambientes de Mata Atlântica, pequenas mudanças na trilha ou na base das paredes podem produzir impactos duradouros. O acesso responsável ajuda a manter as áreas abertas e reduz conflitos com proprietários, órgãos públicos e comunidades locais.

Um esporte em expansão, mas ainda em construção

A escalada em Santa Catarina vive um momento de maior visibilidade, impulsionado pela combinação entre ginásios, projetos de iniciação, competições e áreas naturais já consolidadas. O avanço é perceptível na quantidade de iniciativas e na diversificação do público, mas ainda não há, nas fontes consultadas, um levantamento estadual consolidado que permita medir com precisão quantos praticantes existem ou qual foi a taxa de crescimento no período.

O cenário indica, portanto, uma expansão da oferta e das oportunidades de entrada, não necessariamente um número oficial de novos escaladores. A consolidação desse movimento dependerá de formação qualificada, manutenção das vias, regras claras de acesso e políticas que aproximem o esporte de escolas e comunidades.

Para quem pretende começar, o caminho mais seguro é procurar uma estrutura indoor ou uma atividade orientada, aprender os fundamentos e avançar gradualmente. Na montanha, a experiência não se resume a alcançar o topo: inclui planejamento, parceria, respeito ao ambiente e responsabilidade sobre o espaço compartilhado.