sábado, 31 de outubro de 2026
Esportes

Futebol feminino ganha espaço nos clubes catarinenses, mas ainda enfrenta desafios

O futebol feminino vem ocupando mais espaço nos clubes catarinenses, com competições estaduais, participação de equipes tradicionais e presença crescente em diferentes regiões de Santa Catarina. Apesar dos avanços, a modalidade ainda enfrenta limitações de estrutura, financiamento e continuidade dos projetos.

O futebol feminino em Santa Catarina vem ampliando sua presença nos clubes e nas competições oficiais. A modalidade reúne equipes de diferentes regiões do Estado, movimenta categorias adultas e de base e passou a ocupar espaço mais regular no calendário esportivo catarinense.

O movimento ainda está longe de representar uma estrutura consolidada. A quantidade de clubes participantes varia de uma temporada para outra, e problemas relacionados a orçamento, infraestrutura, remuneração e continuidade dos projetos continuam presentes. Mesmo assim, a realização do Campeonato Catarinense Feminino e a atuação de equipes tradicionais indicam que o futebol praticado por mulheres deixou de ser uma iniciativa isolada em Santa Catarina.

Em 2026, o estadual reúne seis equipes: AJAP, de Pinhalzinho; Avaí, de Florianópolis; Criciúma; Marcílio Dias, de Itajaí; Meninas de Jaraguá, de Jaraguá do Sul; e Paysandú, de Brusque. A primeira fase é disputada em grupo único, com jogos entre todos os participantes. Os quatro melhores avançam às semifinais, e a decisão está prevista para novembro. (fcf.com.br)

Campeonato estadual amplia a presença regional

A composição do Campeonato Catarinense Feminino mostra que a modalidade não está concentrada em apenas uma cidade. As equipes representam municípios do Litoral, do Vale do Itajaí, do Norte, do Oeste e do Sul catarinense, criando uma rede de competições que ajuda a dar visibilidade às atletas e aos projetos locais.

Essa distribuição regional é importante porque permite que jogadoras tenham acesso a partidas oficiais sem depender exclusivamente dos grandes centros. Também abre espaço para a formação de novas equipes, para a aproximação com escolinhas e para a criação de referências esportivas em cidades onde o futebol feminino ainda busca maior organização.

Na edição de 2025, o campeonato contou com oito participantes, divididos em dois grupos. Além de Avaí/Kindermann, Criciúma, Marcílio Dias, Meninas de Jaraguá e Paysandú, participaram Cometa, de Itapiranga; Guarani, de São Miguel do Oeste; e Tunense, de Tunápolis. (fcf.com.br)

A redução para seis equipes em 2026 mostra, ao mesmo tempo, o crescimento da atenção sobre a modalidade e a dificuldade de manter projetos ativos por longos períodos. O número de participantes, por si só, não é suficiente para medir a evolução do futebol feminino. Também é necessário observar a qualidade do calendário, a estrutura oferecida e a capacidade dos clubes de manter suas equipes durante toda a temporada.

Avaí Kindermann mantém protagonismo histórico

Entre os clubes catarinenses, o Avaí Kindermann ocupa posição de destaque pela trajetória construída no futebol feminino. O projeto, sediado em Caçador e representado atualmente pelo Avaí nas competições, conquistou o Campeonato Catarinense de 2025 e chegou ao 16º título estadual consecutivo, segundo a Federação Catarinense de Futebol.

A conquista de 2025 ocorreu diante do Criciúma. Depois de empates nos dois jogos da decisão, o título foi definido nos pênaltis. A campanha manteve a equipe de Caçador como principal referência histórica da competição e reforçou a rivalidade esportiva com o clube do Sul do Estado. (fcf.com.br)

A presença do Avaí Kindermann também contribui para conectar o futebol catarinense às competições nacionais. No ranking nacional de clubes do futebol feminino divulgado para 2025, o time apareceu como a equipe de Santa Catarina mais bem colocada. A lista também registrou Criciúma, Napoli, Fluminense de Joinville e Chapecoense entre os clubes catarinenses relacionados pela Confederação Brasileira de Futebol. (ge.globo.com)

O histórico, porém, não elimina as dificuldades de gestão. Em outubro de 2025, antes da final estadual, atletas do Avaí/Kindermann anunciaram uma paralisação e relataram atrasos salariais e problemas de estrutura. O clube apresentou sua posição e afirmou que trabalhava para resolver as questões internas. O episódio expôs a distância entre a visibilidade esportiva alcançada pelo projeto e as condições oferecidas no cotidiano das jogadoras. (ge.globo.com)

Criciúma amplia a disputa pelo título

O Criciúma aparece como um dos principais concorrentes ao domínio do Avaí Kindermann. A equipe chegou à final do estadual em 2025 e iniciou a edição de 2026 com vitória sobre a AJAP. O clube também figura entre os catarinenses presentes no ranking nacional do futebol feminino, o que demonstra uma participação que ultrapassa o calendário estadual.

A consolidação do Criciúma ajuda a tornar a competição mais equilibrada e amplia a visibilidade da modalidade no Sul de Santa Catarina. Para as jogadoras, a existência de mais de um projeto competitivo significa maior possibilidade de permanência no esporte, além de oferecer referências distintas de treinamento e desenvolvimento profissional.

Outros clubes também exercem papel importante nesse processo. Marcílio Dias, Meninas de Jaraguá, Paysandú e AJAP representam iniciativas que ajudam a manter o campeonato distribuído pelo Estado. Mesmo quando não disputam as primeiras posições, essas equipes contribuem para aumentar o número de atletas em atividade e fortalecer o vínculo entre futebol feminino e comunidades locais.

Calendário é fundamental para a continuidade

Um dos principais desafios do futebol feminino catarinense é garantir um calendário capaz de sustentar as equipes durante todo o ano. O estadual concentra parte importante das atividades, mas a preparação das atletas, a manutenção das comissões técnicas e a formação de elencos dependem de competições regulares e de planejamento antecipado.

Em 2026, o Catarinense Feminino começou em setembro e tem decisão prevista para novembro. O formato prevê cinco rodadas na primeira fase, seguidas por semifinais e final em jogos de ida e volta. A estrutura oferece partidas oficiais, mas ainda representa uma janela relativamente curta para clubes que precisam manter projetos esportivos ativos por mais tempo. (fcf.com.br)

A continuidade também é importante para as categorias de base. Sem competições frequentes para adolescentes, o caminho entre a iniciação esportiva e o futebol adulto fica mais estreito. A formação de jogadoras exige treinamento, acompanhamento médico, orientação física e oportunidades de competição. Quando esses elementos não estão disponíveis, muitas atletas abandonam a modalidade antes de chegar às equipes principais.

Por isso, o avanço do futebol feminino não depende apenas da criação de times adultos. É necessário desenvolver uma estrutura que inclua escolinhas, categorias sub-15 e sub-17, profissionais especializados e mecanismos de transição para o elenco principal. A existência de competições de base organizadas pela federação é um passo importante, mas os clubes precisam garantir que esses projetos tenham continuidade.

Estrutura e profissionalização ainda são pontos sensíveis

O crescimento da modalidade também pode ser medido pelas condições de trabalho oferecidas às atletas. Treinos regulares, campos adequados, transporte, alimentação, atendimento médico e contratos claros são elementos básicos para a formação de uma equipe competitiva.

Quando esses itens não estão assegurados, o desempenho esportivo fica comprometido e a carreira das jogadoras se torna mais vulnerável. O caso envolvendo o Avaí/Kindermann em 2025 mostrou que resultados em campo e tradição não substituem uma gestão profissional. A manutenção de um projeto depende de planejamento financeiro, definição de responsabilidades e transparência na relação com atletas e comissão técnica.

A profissionalização também exige que os clubes tratem o futebol feminino como parte permanente de sua estrutura, e não apenas como uma obrigação temporária ou uma ação de imagem. Isso significa estabelecer metas esportivas, prever recursos no orçamento, investir em categorias de base e criar canais de acompanhamento para avaliar resultados.

Mais visibilidade, mais cobrança

A realização de partidas em diferentes cidades ajuda a aproximar o futebol feminino do público. Jogos em estádios e centros de treinamento podem estimular a presença de torcedores, ampliar a cobertura da imprensa local e criar oportunidades para patrocinadores interessados em associar suas marcas à modalidade.

O aumento da visibilidade, no entanto, também eleva a cobrança sobre clubes e entidades. O público passa a exigir informações sobre horários, locais, transmissão, ingressos e condições oferecidas às atletas. A divulgação dos jogos precisa ser tratada como parte da organização da competição, e não como uma etapa secundária.

Para o torcedor, acompanhar o estadual é uma forma direta de fortalecer o futebol feminino catarinense. A presença nas arquibancadas, o consumo de produtos oficiais e a participação nas redes sociais ajudam a demonstrar que existe interesse comercial e esportivo. Para os clubes, essa resposta pode contribuir para a busca de patrocínios e para a ampliação dos investimentos.

O que pode sustentar o avanço

O futebol feminino em Santa Catarina tem uma base construída por clubes tradicionais, equipes independentes e projetos regionais. O desafio agora é transformar essa presença em uma política esportiva permanente, com calendário previsível, melhor estrutura e maior integração entre futebol adulto e categorias de base.

A Federação Catarinense de Futebol tem papel central na organização das competições, na definição dos regulamentos e na ampliação do número de participantes. Os clubes, por sua vez, precisam assumir compromissos de longo prazo com as equipes femininas, garantindo condições mínimas de trabalho e planejamento financeiro.

Também cabe ao poder público, às empresas e às comunidades apoiar iniciativas que ofereçam acesso ao esporte para meninas e mulheres. Escolas, projetos sociais e associações podem funcionar como portas de entrada para novas atletas, desde que tenham orientação adequada e ambientes seguros.

O cenário catarinense, portanto, combina avanços e limitações. A modalidade ganhou espaço nos clubes, tem uma competição estadual regular e conta com equipes capazes de disputar torneios nacionais. Ao mesmo tempo, a oscilação no número de participantes e os problemas de estrutura revelam que o crescimento ainda é frágil.

O próximo passo será consolidar o que já foi construído. Mais do que aumentar a quantidade de times, Santa Catarina precisa garantir que os projetos tenham continuidade, que as atletas sejam respeitadas e que o futebol feminino faça parte do planejamento esportivo dos clubes durante todo o ano.