As trilhas de longa distância em Santa Catarina vêm ganhando espaço entre caminhantes, ciclistas e viajantes interessados em turismo de natureza. O estado reúne serras, vales, rios, Mata Atlântica, áreas rurais e trechos litorâneos que podem ser percorridos em roteiros de diferentes extensões e níveis de dificuldade.
Mais do que uma atividade esportiva, os percursos de longo curso conectam municípios, unidades de conservação, comunidades e atrativos turísticos. Em muitos casos, o visitante passa por estradas rurais, propriedades familiares, pousadas, restaurantes e pontos de apoio, distribuindo o movimento econômico ao longo do trajeto.
O Ministério do Turismo define a RedeTrilhas como um sistema formado por grandes caminhos nacionais e por trilhas regionais conectadas entre si. A proposta permite que os percursos sejam feitos em períodos variados, de uma semana a várias semanas, conforme o planejamento do visitante. Entre os caminhos reconhecidos pelo sistema está o Caminho das Araucárias, que passa pelo Rio Grande do Sul e por Santa Catarina. (gov.br)
Um território com diferentes paisagens
A diversidade geográfica ajuda a explicar o interesse pelos roteiros catarinenses. No mesmo estado, é possível encontrar caminhos em áreas de serra, regiões de vales, florestas, campos de altitude, zonas rurais e trechos próximos ao mar.
Essa variedade permite que a experiência seja diferente em cada região. Na Serra Catarinense, os percursos estão associados às montanhas, às araucárias e às temperaturas mais baixas. No Vale Europeu, os circuitos passam por cidades de colonização europeia, estradas de terra, rios e áreas agrícolas. Já no litoral, os projetos de integração procuram aproximar trilhas, praias, costões, dunas e unidades de conservação.
O turismo de natureza também se beneficia da existência de parques estaduais e nacionais. O Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina administra dez unidades de conservação de proteção integral, entre parques e reservas biológicas. Nos parques, a visitação é permitida dentro das regras de cada unidade; nas reservas biológicas, o acesso é mais restrito e voltado principalmente à pesquisa. (ima.sc.gov.br)
Caminho das Araucárias integra a RedeTrilhas
O Caminho das Araucárias é um dos principais exemplos de conexão entre áreas naturais do Sul do Brasil. O percurso integra o corredor litorâneo da RedeTrilhas e atravessa territórios do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, com referências à paisagem formada por florestas de araucária, campos e áreas de serra. (gov.br)
A inclusão em uma rede nacional ajuda a dar visibilidade aos caminhos e estimula a adoção de padrões de sinalização, planejamento e gestão. Também favorece a organização de informações para o visitante, como mapas, trechos, pontos de apoio e orientações de segurança.
Em trilhas de longa distância, a possibilidade de dividir o caminho em etapas é um dos principais atrativos. O viajante não precisa percorrer todo o trajeto de uma só vez. Pode escolher trechos compatíveis com o tempo disponível, o preparo físico e a estrutura de hospedagem encontrada no caminho.
Vale Europeu é referência em cicloturismo
O Circuito Vale Europeu de Cicloturismo consolidou-se como uma das experiências mais estruturadas de turismo de aventura em Santa Catarina. O trajeto passa por nove municípios do Médio Vale do Itajaí: Timbó, Pomerode, Indaial, Ascurra, Apiúna, Rodeio, Benedito Novo, Doutor Pedrinho e Rio dos Cedros. (leis.alesc.sc.gov.br)
O circuito completo tem mais de 300 quilômetros e costuma ser planejado para até sete dias. O roteiro é sinalizado e percorre, em grande parte, estradas de terra, com subidas e descidas que exigem preparo dos participantes. Também há uma opção mais curta para quem dispõe de menos tempo ou ainda não tem experiência em percursos extensos. (alesc.sc.gov.br)
Embora seja voltado principalmente ao cicloturismo, o circuito se tornou uma referência para o debate sobre trilhas de longo curso no país. A iniciativa envolve prefeituras, consórcios públicos, empreendedores, moradores e organizações ligadas ao turismo. O modelo mostra como a sinalização e a articulação regional podem transformar caminhos rurais em produtos turísticos organizados.
O reconhecimento nacional veio com o Prêmio Nacional do Turismo de 2025, na categoria relacionada às trilhas de longo curso, segundo informações divulgadas pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina. (alesc.sc.gov.br)
Novo circuito contorna o Parque Nacional da Serra do Itajaí
Em 2026, o Vale Europeu passou a divulgar também o Circuito Serra do Itajaí, roteiro de cicloturismo estruturado no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí. O percurso tem aproximadamente 310 quilômetros e conecta dez municípios: Apiúna, Ascurra, Blumenau, Botuverá, Brusque, Gaspar, Guabiruba, Ibirama, Indaial e Vidal Ramos. (cimvi.sc.gov.br)
A proposta aproveita a experiência acumulada na gestão do Circuito Vale Europeu e busca integrar estradas rurais, áreas montanhosas, comunidades, rios e atrativos naturais. O roteiro também se conecta ao circuito tradicional, ampliando as possibilidades de planejamento para quem pretende viajar de bicicleta por vários dias.
O projeto evidencia uma tendência do turismo de natureza em Santa Catarina: a criação de percursos regionais que não dependem de um único atrativo. Em vez de concentrar o visitante em uma cachoeira, mirante ou parque, o circuito distribui a experiência por diferentes localidades.
Trilhas também avançam no litoral
A expansão dos roteiros de longa distância não se limita às áreas de serra. Um projeto desenvolvido pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e da Economia Verde, em parceria com municípios do litoral, prevê a organização de um aplicativo chamado “Trilhas de Santa Catarina”.
Na etapa divulgada em 2025, Porto Belo, Bombinhas e Itapema discutiam a seleção de trilhas ecológicas para formar um circuito integrado para pedestres e ciclistas. A ideia era conectar os trajetos a praias e outros atrativos, criando uma experiência de maior duração e com diferentes pontos de acesso. (semae.sc.gov.br)
A integração entre trilhas costeiras pode ampliar o período de permanência do visitante e estimular serviços como hospedagem, alimentação, transporte, condução e aluguel de equipamentos. Também exige atenção especial à conservação de áreas sensíveis, principalmente em trechos de restinga, costões e ambientes próximos a unidades de conservação.
Parques estaduais oferecem diferentes níveis de dificuldade
Os parques estaduais catarinenses apresentam trilhas com durações e graus de dificuldade variados. Na plataforma de visitação do Instituto do Meio Ambiente, há atrativos classificados como fáceis, moderados e difíceis, com atividades que vão de aproximadamente uma hora a percursos de várias horas. Entre os exemplos listados estão a Trilha da Serra Furada, o Circuito da Canela Grande e a Trilha do Lajeado Cruzeiro. (visitacao.ima.sc.gov.br)
No Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, o centro de visitantes oferece trilhas interpretativas e atividades educativas. O local está na planície costeira, em ambiente de restinga, e permite conhecer aspectos da fauna, da flora e das diferentes formações vegetais protegidas pelo parque. A visitação ocorre de quarta-feira a domingo, das 9h às 17h, conforme as informações do IMA. (visitacao.ima.sc.gov.br)
O Parque Estadual do Rio Vermelho, em Florianópolis, também possui uma trilha de longo percurso que conecta ambientes como a Lagoa da Conceição e as dunas próximas à Praia do Moçambique. A área protege remanescentes de Mata Atlântica e vegetação de restinga, além de oferecer uma trilha ecológica guiada de menor duração. (setur.sc.gov.br)
Em áreas protegidas, a existência de uma trilha não significa que o acesso seja livre em qualquer horário ou condição. O visitante deve verificar a necessidade de agendamento, acompanhamento de condutor, autorização, limitação de vagas e eventuais interdições causadas por chuva, obras ou condições ambientais.
Planejamento é essencial para percursos extensos
Uma trilha de longa distância exige mais preparação do que uma caminhada de poucas horas. Antes da saída, é necessário conferir a extensão de cada etapa, o ganho de elevação, a disponibilidade de água, os pontos de alimentação, as opções de hospedagem e as formas de transporte até os acessos.
Também é importante avaliar a previsão do tempo. Chuva, neblina, frio intenso e calor podem alterar significativamente a dificuldade de um caminho. Em áreas de montanha, a mudança de condições climáticas pode ser rápida, enquanto trechos de mata fechada exigem atenção redobrada à navegação.
Calçado adequado, roupas para diferentes temperaturas, capa de chuva, proteção solar, repelente, lanterna, alimentação, água, carregador portátil e kit básico de primeiros socorros estão entre os itens que podem fazer diferença. O peso da mochila deve ser compatível com a distância e com a capacidade física do participante.
Informar familiares ou amigos sobre o roteiro, registrar os pontos de entrada e saída e evitar caminhar sozinho em áreas isoladas são medidas recomendáveis. Em trajetos sem sinal de telefone, o planejamento precisa considerar alternativas de comunicação e apoio local.
Conservação acompanha crescimento do turismo
O aumento da visitação traz oportunidades econômicas, mas também amplia a responsabilidade de gestores, moradores e turistas. O uso inadequado das trilhas pode causar erosão, abertura de atalhos, compactação do solo, perturbação da fauna e acúmulo de lixo.
As regras básicas incluem permanecer no caminho sinalizado, não retirar plantas, não alimentar animais, não produzir ruídos excessivos e levar de volta todo o resíduo gerado. Em unidades de conservação, o visitante deve seguir as normas específicas de cada parque e respeitar áreas fechadas ou destinadas à pesquisa.
No Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, o IMA recomenda o uso de roupas confortáveis, calçado fechado, proteção contra sol e insetos, além do transporte de água e lanche. O órgão também informa que não há lanchonete no centro de visitantes e proíbe bebidas alcoólicas, cigarros e animais domésticos no local. (visitacao.ima.sc.gov.br)
Com planejamento, sinalização e participação das comunidades, as trilhas de longa distância podem fortalecer o turismo de natureza sem perder de vista a proteção ambiental. Em Santa Catarina, a expansão de circuitos como o Vale Europeu, o Caminho das Araucárias, o entorno da Serra do Itajaí e os projetos do litoral indica que o estado busca transformar seus diferentes territórios em experiências conectadas para quem prefere viajar em ritmo mais lento e próximo da paisagem.