terça-feira, 29 de setembro de 2026
MANCHETES

Cidades catarinenses investem na valorização de tradições e do patrimônio cultural

Municípios de Santa Catarina ampliam ações para preservar tradições culturais, fortalecer identidades regionais e transformar festas, saberes e produtos típicos em instrumentos de educação, turismo e desenvolvimento econômico.

A valorização das tradições em Santa Catarina vem sendo fortalecida por ações que envolvem prefeituras, órgãos estaduais, entidades culturais, comunidades e setores ligados ao turismo. Em diferentes regiões, festas populares, práticas religiosas, saberes transmitidos entre gerações, culinária típica e atividades produtivas passaram a ser tratados como elementos importantes da identidade dos municípios.

Esse movimento não se limita à realização de eventos. Também inclui o reconhecimento oficial de manifestações culturais, a documentação de costumes, a organização de oficinas, a preservação de espaços históricos e a criação de roteiros turísticos relacionados à memória das comunidades. A estratégia aproxima cultura e desenvolvimento local, mas também amplia a responsabilidade dos municípios na proteção de tradições que podem perder força com o tempo.

Patrimônio cultural vai além de prédios históricos

O patrimônio cultural de uma cidade não é formado apenas por igrejas, casarões, museus ou monumentos. Ele também inclui práticas e conhecimentos que fazem parte da vida cotidiana, como receitas, técnicas artesanais, festas, músicas, danças, celebrações religiosas, formas de trabalho e modos de organização comunitária.

Em Santa Catarina, o registro de bens culturais imateriais é regulamentado pelo Estado. A Fundação Catarinense de Cultura prevê categorias relacionadas a saberes, celebrações, formas de expressão e lugares associados à memória coletiva. O objetivo é produzir conhecimento sobre essas práticas e criar referências para sua preservação.

O reconhecimento oficial, porém, não garante sozinho a continuidade de uma tradição. Para que uma manifestação permaneça viva, é necessário que os grupos envolvidos continuem participando dela, que os conhecimentos sejam transmitidos às novas gerações e que existam condições para a realização das atividades.

Festas tradicionais aproximam cultura e turismo

As festas municipais estão entre as formas mais visíveis de valorização das tradições catarinenses. Elas reúnem gastronomia, música, vestuário, religiosidade, atividades agrícolas e referências históricas que ajudam a contar a formação de cada região.

Em Blumenau, a Oktoberfest se consolidou como uma das principais expressões da herança germânica no Estado. A festa preserva elementos como desfiles, danças, trajes típicos, gastronomia e a participação de clubes de caça e tiro. Em 2024, a celebração foi reconhecida como patrimônio cultural de Santa Catarina por meio da Lei 18.919. A programação também movimenta cadeias ligadas à alimentação, ao comércio, à hospedagem e aos serviços.

A experiência de Blumenau mostra como um evento cultural pode alcançar uma dimensão turística sem perder a ligação com a história local. Ao mesmo tempo, o crescimento do público exige planejamento, estrutura, acessibilidade, segurança e mecanismos que mantenham a participação das comunidades no processo de organização.

Em Lages, a Festa Nacional do Pinhão utiliza um produto associado à Serra Catarinense para promover música, gastronomia e manifestações campeiras. A programação inclui o Recanto do Pinhão e a Sapecada da Canção, iniciativas que destacam a produção cultural regional e aproximam moradores e visitantes das tradições serranas.

Heranças culturais de diferentes grupos

A diversidade cultural de Santa Catarina está relacionada à presença de comunidades com origens e trajetórias distintas. A herança açoriana é marcante em municípios do litoral, enquanto tradições alemãs, italianas, polonesas, ucranianas, caboclas e campeiras aparecem em diferentes áreas do Estado.

Em Biguaçu, ações de preservação destacam elementos da cultura açoriana, como a produção de farinha de engenho, o artesanato, a Festa do Divino Espírito Santo e a construção tradicional de baleeiras. O município também promove oficinas, rodas de conversa e iniciativas de registro audiovisual para documentar saberes e histórias locais.

Esse tipo de ação tem importância porque muitos conhecimentos dependem da transmissão direta entre mestres, familiares e aprendizes. Quando uma técnica deixa de ser praticada ou quando os responsáveis por ela envelhecem sem novos aprendizes, parte da memória coletiva pode desaparecer.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional mantém, em Santa Catarina, inventários relacionados à cultura luso-açoriana, às comunidades negras, aos mestres artífices da construção tradicional e ao queijo Kochkäse, entre outros temas. Esses levantamentos ajudam a identificar referências culturais e a compreender como elas se relacionam com os territórios.

Pomerode transforma tradição em atividade econômica

Pomerode é um dos exemplos mais conhecidos de município que associa identidade cultural e turismo. A cidade preserva referências da imigração alemã na arquitetura, na gastronomia, nas festas, no artesanato e em iniciativas de educação cultural.

O município é apresentado como a Cidade Mais Alemã do Brasil e utiliza essa característica na organização de roteiros, eventos e experiências voltadas aos visitantes. A estratégia envolve a participação do poder público e da iniciativa privada, além de ações que procuram manter técnicas artesanais e costumes relacionados à formação da comunidade.

O caso mostra que a valorização cultural pode criar oportunidades para pequenos produtores, restaurantes, artesãos, guias, hotéis e empreendedores locais. No entanto, para que o turismo não reduza a tradição a um produto de consumo, é necessário preservar a autenticidade das manifestações e garantir que os moradores tenham protagonismo na definição de como sua cultura será apresentada.

Produtos regionais também representam identidade

Na Serra Catarinense, produtos ligados à agricultura e à pecuária passaram a ser tratados como parte da história e da identidade regional. Vinhos de altitude, queijo serrano, carne de frescal, maçã e goiaba-serrana estão associados ao clima, ao território, às técnicas de produção e à experiência de famílias que trabalham nesses setores.

Em março de 2026, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina aprovou projetos voltados ao reconhecimento desses produtos como referências do patrimônio cultural imaterial do Estado. As propostas abrangem os vinhos de altitude, a carne de frescal de São Joaquim, o queijo serrano, a produção e colheita da maçã catarinense e a goiaba-serrana, também conhecida como feijoa.

O reconhecimento pode contribuir para ampliar a visibilidade desses produtos e fortalecer circuitos de turismo rural e gastronômico. Também pode estimular a preservação de técnicas de produção e a valorização dos agricultores, produtores e trabalhadores responsáveis pela continuidade dessas atividades.

Em junho de 2026, novas normas estaduais passaram a reconhecer outras referências culturais, entre elas o Tiro dos Reis, tradição de origem germânica praticada em sociedades e clubes de caça e tiro. A manifestação é associada a municípios como Jaraguá do Sul e integra a programação da Schützenfest.

Reconhecimento oficial amplia a responsabilidade pública

Leis e títulos ajudam a dar visibilidade às tradições, mas a preservação depende de políticas permanentes. O reconhecimento pode ser acompanhado por inventários, editais, apoio a grupos culturais, formação de novos praticantes, manutenção de espaços e inclusão das comunidades nas decisões.

Também é necessário diferenciar uma festa organizada para o calendário turístico de uma prática cultural que possui significado para os moradores. Eventos podem divulgar uma tradição, mas não substituem o trabalho cotidiano de quem mantém um idioma, uma receita, uma técnica, uma celebração ou uma forma de expressão.

Por isso, ações de educação patrimonial são consideradas importantes. Escolas, museus, centros culturais e associações comunitárias podem aproximar crianças e adolescentes das histórias de seus municípios. A transmissão de conhecimentos deixa de depender apenas da memória familiar e passa a contar com registros, oficinas e atividades pedagógicas.

Desafios para manter as tradições vivas

Entre os principais desafios está a continuidade das iniciativas. Festas e projetos culturais muitas vezes dependem de recursos públicos, patrocínios e da mobilização voluntária de moradores. Sem planejamento financeiro e institucional, a programação pode sofrer interrupções e os grupos responsáveis podem perder capacidade de organização.

Outro desafio é evitar a padronização das manifestações. A busca por um formato mais atrativo para turistas pode alterar características originais de uma festa, de uma receita ou de uma prática cultural. A adaptação faz parte da história de qualquer tradição, mas precisa ocorrer com participação das comunidades diretamente envolvidas.

A acessibilidade também deve fazer parte das políticas culturais. Espaços de eventos, museus, roteiros e atividades precisam considerar pessoas com deficiência, idosos, crianças e visitantes que não conhecem os costumes locais. A ampliação do acesso fortalece o caráter público do patrimônio.

Cultura como parte do desenvolvimento local

As experiências de municípios catarinenses mostram que preservar tradições pode gerar efeitos culturais, sociais e econômicos. Festas atraem visitantes, produtos regionais ganham mercado, artesãos encontram novos públicos e comunidades passam a reconhecer o valor de conhecimentos antes tratados apenas como atividades familiares.

O resultado mais importante, porém, é a continuidade da memória coletiva. Quando uma cidade registra sua história, apoia seus grupos culturais e cria espaços para a transmissão de saberes, ela fortalece a própria identidade e oferece às novas gerações condições para compreender como o território foi formado.

Em Santa Catarina, a valorização das tradições se manifesta de maneiras diferentes conforme a região. No litoral, aparecem referências açorianas e pesqueiras; no Vale do Itajaí, heranças germânicas; no Sul, costumes ligados à imigração italiana; e, na Serra, práticas campeiras e produtos associados ao campo. O conjunto dessas expressões forma um patrimônio diverso, cuja preservação depende de políticas públicas, participação comunitária e respeito à história de cada lugar.