terça-feira, 29 de setembro de 2026
MANCHETES

Turismo rural em Santa Catarina aproxima visitantes das tradições do interior

O turismo rural em Santa Catarina transforma propriedades familiares e comunidades do interior em espaços de convivência, gastronomia e valorização cultural. A atividade aproxima visitantes da produção de alimentos, dos costumes locais e da história de diferentes regiões catarinenses.

O turismo rural em Santa Catarina tem transformado propriedades familiares, agroindústrias e comunidades do interior em espaços de convivência, aprendizado e valorização cultural. Em vez de apenas observar a paisagem, o visitante é convidado a conhecer a origem dos alimentos, acompanhar atividades do campo, experimentar receitas tradicionais e ouvir histórias preservadas pelas famílias.

A proposta combina hospedagem, alimentação, lazer, contato com a natureza e experiências ligadas ao modo de vida rural. Em diferentes regiões do Estado, os roteiros podem incluir cafés coloniais, trilhas, cavalgadas, visitas a plantações, produção artesanal de alimentos, engenhos, alambiques, pesqueiros, feiras e manifestações culturais.

Mais do que uma alternativa de passeio, a atividade passou a ser utilizada por agricultores como forma de diversificar a renda e agregar valor à produção. Para o visitante, a experiência oferece uma aproximação com práticas que normalmente ficam distantes da rotina urbana.

Uma atividade ligada à agricultura familiar

Santa Catarina possui forte presença da agricultura familiar e uma estrutura de pequenas propriedades distribuídas por diferentes regiões. Nesse cenário, o turismo rural aparece como uma possibilidade de complementar as atividades agropecuárias sem abandonar a identidade produtiva e cultural de cada comunidade.

A legislação estadual define o Turismo Rural na Agricultura Familiar como um conjunto de atividades realizadas em unidades de produção familiar ou em localidades rurais, com valorização do modo de vida, do patrimônio natural e da cultura local. A norma também prevê a organização de circuitos, roteiros, rotas e caminhos integrados às políticas oficiais de turismo. (legislacao.sef.sc.gov.br)

Esse conceito permite reunir atividades bastante diferentes. Uma propriedade pode receber visitantes para oferecer uma refeição preparada com ingredientes próprios, enquanto outra pode apresentar um processo de fabricação de queijos, doces, embutidos, melado ou bebidas artesanais. Também há empreendimentos voltados à hospedagem, ao lazer e à educação ambiental.

Da paisagem à experiência

O principal diferencial dos roteiros rurais está na participação do visitante. A viagem deixa de ser apenas contemplativa e passa a envolver ações ligadas ao cotidiano das famílias. Dependendo da propriedade e da época do ano, é possível acompanhar a colheita de frutas, conhecer a criação de animais, caminhar por áreas de cultivo, observar técnicas de produção e participar de oficinas.

Em experiências apoiadas pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, a programação inclui atividades como colher frutas, recolher ovos, passear de trator, andar a cavalo, fazer piqueniques e tomar café em espaços rurais. A proposta também estimula a comercialização de produtos diretamente nas propriedades. (epagri.sc.gov.br)

Esse formato aproxima o consumidor da origem dos alimentos e evidencia o trabalho necessário para produzir itens que chegam às mesas diariamente. A visita também pode ajudar a preservar técnicas de preparo, receitas familiares e formas de manejo transmitidas entre gerações.

Gastronomia como patrimônio

A culinária é um dos principais elementos de atração do turismo rural catarinense. Em muitas propriedades, o visitante encontra refeições preparadas com ingredientes produzidos no próprio local ou adquiridos de agricultores da região. O cardápio pode incluir pães, cucas, geleias, queijos, embutidos, massas, doces, melado, sucos, cafés e pratos associados às tradições de cada comunidade.

A gastronomia também revela a diversidade cultural de Santa Catarina. Nas áreas de colonização europeia, aparecem receitas e métodos de produção associados às famílias de origem alemã, italiana, polonesa e austríaca, entre outras. No litoral e no Sul do Estado, práticas de origem açoriana, indígena, africana e portuguesa se relacionam com a pesca artesanal, a agricultura e o preparo de alimentos.

O Território Costa Catarina, formado por municípios como Garopaba, Imbituba e Paulo Lopes, reúne experiências associadas à agricultura familiar, à pesca artesanal e à diversidade cultural da região. Segundo a Epagri, a área apresenta influências açorianas, portuguesas, africanas e indígenas, expressas em modos de produzir, manifestações culturais e formas de ocupação do território. (blog.epagri.sc.gov.br)

Nesses roteiros, a comida não é apresentada apenas como produto. Ela funciona como parte da história local, conectando o visitante ao clima, ao relevo, às atividades econômicas e às memórias das famílias que vivem no território.

Roteiros espalhados pelo Estado

O turismo rural está presente em diferentes áreas de Santa Catarina, com características próprias em cada região. Na Serra, a atividade costuma ser associada às paisagens de campos, às baixas temperaturas, às hospedagens rurais, às trilhas, às cavalgadas e à produção de alimentos típicos.

No Oeste, propriedades e agroindústrias familiares apresentam produtos como açúcar mascavo, melado, rapadura, licores, cachaças, embutidos e itens coloniais. Em Guaraciaba, no Extremo Oeste, o roteiro Caminhos da Fronteira reúne municípios e iniciativas voltadas à produção artesanal, à gastronomia e às experiências no campo. (blog.epagri.sc.gov.br)

Na região Sul, circuitos de turismo rural combinam propriedades agrícolas, pousadas, cafés, agroindústrias e empreendimentos ligados à cultura local. A Rota Caminhos e Sabores, por exemplo, foi estruturada com participação de municípios como Treze de Maio, Tubarão, Pedras Grandes, São Ludgero e Gravatal, reunindo propriedades preparadas para oferecer produtos, serviços e vivências aos turistas. (blog.epagri.sc.gov.br)

Em Lages, a Rota Turística do Lambedor foi apresentada como uma iniciativa de valorização do patrimônio natural e cultural e de fortalecimento da economia local por meio do turismo comunitário. O projeto envolve famílias rurais e busca integrar agricultura familiar, empreendedorismo e visitação. (lages.sc.gov.br)

Os exemplos mostram que não existe um único modelo de turismo rural. Cada roteiro é construído a partir das condições da propriedade, dos recursos naturais, das tradições e da capacidade de atendimento das famílias.

Renda e permanência no campo

Para os agricultores, receber visitantes pode representar uma nova fonte de receita e uma maneira de ampliar o valor dos produtos. Em vez de vender apenas a matéria-prima, a família pode oferecer uma experiência completa, com alimentação, visita guiada, hospedagem, atividades recreativas e venda direta.

O trabalho de assistência técnica busca apoiar esse processo com orientações sobre planejamento, organização do atendimento, formação de preços, segurança dos alimentos, divulgação e adequação das estruturas. Em 2022, o projeto Vale Agregar, apoiado pela Epagri, atendeu famílias e elaborou projetos de crédito para empreendimentos ligados ao turismo rural na agricultura familiar. (epagri.sc.gov.br)

A diversificação pode contribuir para reduzir a dependência de uma única atividade produtiva. Também cria oportunidades de trabalho para jovens e mulheres, que podem atuar na recepção, na cozinha, na produção artesanal, na condução de visitantes e na administração do empreendimento.

O efeito econômico, porém, não se limita à propriedade visitada. Roteiros organizados movimentam restaurantes, transportadores, guias, pequenos comércios, artesãos e fornecedores de insumos. Quando há cooperação entre empreendedores, o visitante permanece mais tempo na região e conhece um número maior de atrativos.

Preservação de saberes e cuidados necessários

Ao transformar costumes em experiências turísticas, as comunidades também enfrentam o desafio de preservar a autenticidade das práticas. A atividade precisa respeitar o ritmo do campo, a privacidade das famílias, a capacidade de atendimento e as características ambientais de cada lugar.

O turismo rural não deve reduzir tradições a apresentações folclóricas desconectadas de sua origem. A valorização cultural depende da participação dos moradores e da capacidade de explicar o significado dos alimentos, das festas, dos objetos, das técnicas e das paisagens apresentadas aos visitantes.

Também são necessários cuidados com segurança, acessibilidade, higiene, sinalização e conservação ambiental. Estradas rurais, áreas de circulação, trilhas e espaços de alimentação precisam estar preparados para receber o público de acordo com as condições de cada empreendimento.

Para quem visita, é recomendável confirmar previamente os dias e horários de atendimento, verificar a necessidade de agendamento e perguntar quais atividades estão disponíveis na data escolhida. Muitos empreendimentos funcionam com grupos pequenos ou apenas sob reserva, especialmente quando a programação depende da produção agrícola ou das condições climáticas.

Uma nova forma de conhecer Santa Catarina

O turismo rural em Santa Catarina amplia a imagem do Estado para além dos destinos de praia, das cidades serranas e dos grandes eventos. Ele apresenta um território formado por pequenas propriedades, comunidades, histórias de migração, práticas agrícolas e paisagens que fazem parte da identidade catarinense.

Ao abrir as porteiras, as famílias rurais mostram que o campo também é espaço de cultura, inovação e geração de oportunidades. O visitante, por sua vez, leva consigo mais do que fotografias: conhece processos, sabores e memórias que ajudam a compreender a formação do interior do Estado.

Com planejamento e participação comunitária, os roteiros podem fortalecer a agricultura familiar, preservar saberes tradicionais e estimular uma relação mais próxima entre cidade e campo. Em Santa Catarina, essa aproximação transforma atividades do cotidiano rural em experiências de viagem e dá visibilidade a quem mantém vivas as tradições de diferentes regiões.