terça-feira, 29 de setembro de 2026
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Anita Garibaldi em Santa Catarina: história, memória e identidade cultural

A trajetória de Anita Garibaldi ultrapassa os episódios de combate ao lado de Giuseppe Garibaldi. Em Santa Catarina, sua memória é preservada por museus, exposições, monumentos e espaços públicos que associam a personagem à história de Laguna e à participação das mulheres nas disputas políticas do século XIX.

Anita Garibaldi em Santa Catarina ocupa um lugar singular na memória cultural do estado. Nascida Ana Maria de Jesus Ribeiro, em Laguna, em 30 de agosto de 1821, ela participou de conflitos políticos e militares no sul do Brasil e, mais tarde, das campanhas ligadas à unificação italiana. Sua trajetória, encerrada em 1849, transformou-se em referência histórica, símbolo regional e personagem de narrativas que atravessam gerações.

A lembrança de Anita não se limita à relação com Giuseppe Garibaldi ou aos episódios de batalha. Em Santa Catarina, sua imagem está associada à Revolução Farroupilha, à República Juliana, à cidade de Laguna, à participação feminina em conflitos armados e à construção de uma identidade catarinense ligada à coragem e à resistência. Museus, exposições, monumentos, nomes de ruas e até um município ajudam a manter essa presença no espaço público. (cultura.sc.gov.br)

Quem foi Anita Garibaldi

Ana Maria de Jesus Ribeiro viveu na primeira metade do século XIX, período marcado pela consolidação da Independência do Brasil, por disputas entre projetos políticos e por revoltas em diferentes regiões do país. Entre esses movimentos estava a Revolução Farroupilha, iniciada em 1835 no Rio Grande do Sul e relacionada a conflitos sobre autonomia provincial, organização do poder e modelo de governo.

Em 1839, os revoltosos avançaram sobre Laguna e proclamaram a República Juliana. Foi nesse contexto que Ana Maria conheceu Giuseppe Garibaldi, militar e revolucionário italiano que atuava ao lado dos farroupilhas. A partir desse encontro, ela passou a acompanhar o combatente em deslocamentos e conflitos que envolveram Santa Catarina, o Rio Grande do Sul, o Uruguai e a Itália.

Registros históricos e acervos museológicos descrevem Anita como participante de combates e de operações de deslocamento e apoio logístico. A atuação em diferentes frentes, em uma época na qual se esperava das mulheres uma vida restrita ao ambiente doméstico, contribuiu para a construção posterior de sua imagem como mulher combatente. (cultura.sc.gov.br)

Depois da experiência no sul do Brasil, Anita viveu no Uruguai e seguiu para a Itália com Giuseppe Garibaldi. Morreu em 4 de agosto de 1849, em Ravena, durante a retirada das forças republicanas. A curta duração de sua vida contrastou com a dimensão alcançada por sua memória em países como Brasil, Itália, Uruguai e San Marino.

Laguna como centro da memória de Anita

Laguna é o principal espaço catarinense associado à trajetória de Anita Garibaldi. A cidade preserva referências materiais e simbólicas relacionadas à sua vida, ao encontro com Giuseppe Garibaldi e aos acontecimentos da República Juliana. O centro histórico funciona, nesse sentido, como cenário de uma narrativa que combina documentos, edifícios, tradições locais e interpretações construídas ao longo do tempo.

Um dos espaços mais conhecidos é a Casa de Anita, edificação construída por volta de 1711 e localizada junto à Igreja de Santo Antônio dos Anjos. Segundo a Prefeitura de Laguna, foi nesse imóvel que Anita se vestiu para o primeiro casamento, em 1835, com Manoel Duarte de Aguiar. A casa não teria sido sua residência, mas passou a ser associada à personagem por causa desse episódio. (laguna.sc.gov.br)

A diferença entre a casa onde Anita teria se preparado para o casamento e a residência em que viveu é um exemplo de como a memória cultural se organiza. O patrimônio não é formado apenas por locais de moradia ou por objetos diretamente pertencentes à personagem. Ele também inclui lugares relacionados a acontecimentos significativos, capazes de produzir identificação e transmitir uma narrativa histórica ao público.

A Casa de Anita foi restaurada e adaptada para funcionar como espaço de memória. O imóvel recebeu recursos para acessibilidade, climatização, iluminação e equipamentos de comunicação visual em uma obra entregue em 2019. O edifício é reconhecido como patrimônio cultural brasileiro e integra o conjunto de referências históricas do centro de Laguna. (mds.gov.br)

Museus, objetos e documentos

A preservação da memória de Anita depende também de acervos e instituições que apresentam sua trajetória ao público. Na Casa de Anita, painéis, móveis, utensílios e objetos relacionados à narrativa da personagem ajudam a aproximar a história dos visitantes. Entre os itens mencionados pela administração municipal estão uma urna com terra da sepultura de Anita na Itália e o mastro de uma embarcação ligada às operações de Giuseppe Garibaldi.

Esses objetos não devem ser vistos apenas como relíquias. Eles funcionam como instrumentos de interpretação histórica. Ao lado de textos, imagens e explicações curatoriais, ajudam a apresentar a trajetória de Anita, sua relação com Garibaldi, a experiência familiar e os deslocamentos provocados pelas guerras e revoluções do período. (laguna.sc.gov.br)

Outro cuidado importante está na distinção entre documentação histórica e representação posterior. Não há fotografias conhecidas de Anita, e retratos atribuídos a ela foram produzidos a partir de referências e interpretações posteriores. A própria ausência de uma imagem fotográfica original favoreceu a circulação de representações idealizadas, que contribuíram para a formação de uma figura pública reconhecível, mas nem sempre capaz de mostrar a complexidade da pessoa histórica.

O Repositório Digital do Museu de História Julio de Castilhos, no Rio Grande do Sul, identifica Anita como uma revolucionária brasileira com atuação no sul do Brasil e na Europa. O acervo também destaca que ela passou a representar a participação feminina em conflitos armados e se tornou uma figura simbólica da memória política brasileira e italiana. (acervos.museujulio.rs.gov.br)

Da combatente à “heroína de dois mundos”

A expressão “heroína de dois mundos” resume a dimensão transnacional atribuída à personagem. No Brasil, Anita é lembrada pela participação na Revolução Farroupilha e na República Juliana. Na Itália, sua imagem está ligada às campanhas de Giuseppe Garibaldi pela unificação do país. A denominação, porém, é resultado de um processo de construção da memória e não apenas de uma descrição dos acontecimentos.

As memórias de Giuseppe Garibaldi, publicadas e divulgadas ao longo do século XIX, contribuíram para consolidar a imagem de Anita como mulher corajosa e combatente. Posteriormente, escritores, instituições políticas, grupos militares e movimentos sociais reinterpretaram sua trajetória de acordo com diferentes contextos históricos.

A Fundação Catarinense de Cultura afirma que a personagem foi celebrada de formas diversas ao longo dos 200 anos posteriores ao nascimento. A exposição organizada pelo Museu Histórico de Santa Catarina para o bicentenário destacou não apenas a biografia, mas também as apropriações e os usos feitos da memória de Anita por diferentes grupos e períodos. (cultura.sc.gov.br)

Essa perspectiva é importante porque impede que a memória seja tratada como algo fixo. A imagem de Anita mudou conforme as necessidades de cada época. Em alguns momentos, ela foi apresentada principalmente como companheira de Garibaldi. Em outros, ganhou destaque como combatente, mãe, republicana, personagem popular ou símbolo da participação das mulheres na vida pública.

O papel das mulheres na narrativa histórica

A presença de Anita em Santa Catarina também contribui para ampliar a discussão sobre o papel das mulheres na história. Durante muito tempo, relatos sobre revoltas e guerras privilegiaram comandantes, autoridades e líderes masculinos. A trajetória de Anita rompe parcialmente esse padrão porque a personagem aparece associada a deslocamentos, decisões, confrontos e experiências de sobrevivência em zonas de conflito.

Isso não significa ignorar a dimensão familiar de sua vida. Anita foi mãe e viveu em diferentes países em meio às instabilidades provocadas pelas guerras. A memória cultural contemporânea tende a reunir essas dimensões, evitando reduzir sua identidade ao romance com Giuseppe Garibaldi ou a uma imagem abstrata de heroísmo.

Exposições e ações educativas realizadas em Santa Catarina têm procurado apresentar Anita de forma mais humana e contextualizada. A proposta é mostrar a personagem dentro das condições sociais e políticas do século XIX, além de explicar como sua imagem foi transformada em símbolo ao longo do tempo. (cultura.sc.gov.br)

Monumentos, nomes e presença no território

A memória de Anita Garibaldi ultrapassa os museus. Seu nome aparece em ruas, avenidas, praças, escolas, instituições e equipamentos públicos. Santa Catarina também abriga o município de Anita Garibaldi, uma homenagem que demonstra a força alcançada por sua imagem no território estadual.

Monumentos e denominações oficiais transformam uma personagem histórica em referência cotidiana. Mesmo quando as pessoas não visitam um museu ou leem uma biografia, encontram o nome de Anita em placas, endereços e espaços públicos. Essa repetição contribui para manter sua trajetória no repertório coletivo.

A Assembleia Legislativa de Santa Catarina também realizou, em 2021, uma exposição dedicada ao bicentenário de nascimento de Anita. A mostra reuniu painéis sobre sua personalidade, sua trajetória e seus feitos históricos, em uma iniciativa que relacionou preservação da memória, educação e divulgação cultural. (gerenciacultural.alesc.sc.gov.br)

O processo de nomeação e homenagem, contudo, também revela escolhas sociais e políticas. Ao transformar Anita em símbolo, diferentes instituições selecionam determinados aspectos de sua trajetória e deixam outros em segundo plano. A memória pública, portanto, não é uma reprodução integral do passado, mas uma interpretação construída no presente.

O mito e os limites da representação

A história de Anita reúne acontecimentos documentados, relatos de época, memórias de participantes e interpretações produzidas posteriormente. Como ocorre com outras figuras históricas, a passagem do tempo favoreceu a formação de episódios romantizados e imagens heroicas.

Um exemplo da circulação de versões sobre Anita aparece em um documento publicado em 1840 pelo Correio Oficial, analisado por pesquisadores da Fundação Catarinense de Cultura. O texto informava que a companheira de Garibaldi teria morrido em combate, embora ela tivesse sido capturada e posteriormente conseguido escapar. O episódio mostra como sua presença já causava impacto nas narrativas produzidas durante a Revolução Farroupilha. (alesc.sc.gov.br)

A existência de versões divergentes não diminui a importância histórica de Anita. Ao contrário, reforça a necessidade de apresentar ao público o que é comprovado, o que é interpretação e o que pertence ao campo do imaginário. Essa distinção torna a memória mais consistente e evita que a personagem seja reduzida a uma figura decorativa ou lendária.

Uma memória que continua em construção

A presença de Anita Garibaldi na memória cultural de Santa Catarina resulta da combinação entre história regional, patrimônio material, narrativas familiares, pesquisa acadêmica, turismo cultural e políticas de preservação. Laguna ocupa posição central nesse processo, mas a personagem também é lembrada em diferentes cidades e instituições do estado.

Mais do que celebrar uma heroína, preservar a memória de Anita significa discutir os conflitos políticos do século XIX, a formação das identidades regionais e as formas pelas quais as mulheres foram incorporadas — ou excluídas — das narrativas históricas. Sua trajetória permite observar como uma pessoa nascida em uma comunidade do litoral catarinense alcançou projeção internacional.

Em Santa Catarina, Anita permanece presente porque sua história oferece múltiplas possibilidades de leitura. Ela pode ser vista como personagem da Revolução Farroupilha, símbolo de Laguna, combatente republicana, mãe, migrante, figura da unificação italiana ou referência para o debate sobre a participação feminina na história. A força de sua memória está justamente nessa capacidade de conectar passado e presente sem deixar de exigir pesquisa, contextualização e senso crítico.