segunda-feira, 28 de setembro de 2026
MANCHETES

Cidades históricas de Santa Catarina preservam memórias de gerações

Cidades históricas de Santa Catarina reúnem vestígios de povos originários, colonização, imigração, atividades portuárias e tradições que continuam presentes no cotidiano das comunidades.

As cidades históricas de Santa Catarina preservam, em ruas, igrejas, casarões, fortalezas, museus e paisagens, vestígios de diferentes períodos da formação do Estado. Esses espaços reúnem referências associadas aos povos originários, à colonização portuguesa, à imigração europeia, às atividades portuárias, às disputas territoriais e às manifestações culturais mantidas por sucessivas gerações.

Mais do que conjuntos de edificações antigas, os centros históricos funcionam como lugares de memória. A configuração das ruas, os materiais usados nas construções, a relação com rios, baías, lagoas e morros e as práticas preservadas pelas comunidades ajudam a explicar como os municípios se desenvolveram e como diferentes grupos participaram da história catarinense.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, reconhece que cidades e núcleos históricos são referências urbanas do país. A preservação desses espaços é uma responsabilidade compartilhada entre União, Estado, municípios e sociedade civil. (gov.br)

Laguna reúne patrimônio urbano e vestígios arqueológicos

Laguna é uma das principais referências quando se trata do patrimônio histórico de Santa Catarina. Seu centro histórico está associado à expansão portuguesa em direção ao sul do território, à presença açoriana e a episódios políticos e militares que marcaram a história regional.

Segundo o Iphan, a ocupação de Laguna ganhou importância a partir do século XVII, em um contexto de disputa entre portugueses e espanhóis pela definição das fronteiras meridionais. A chegada de imigrantes açorianos, a partir do século XVIII, contribuiu para o crescimento da localidade e para a formação de características arquitetônicas e culturais que ainda podem ser observadas na cidade. (gov.br)

A paisagem urbana de Laguna está diretamente relacionada à Lagoa de Santo Antônio e aos morros que cercam a área central. Essa relação entre cidade e ambiente natural é parte do valor histórico do conjunto protegido, formado por ruas, praças, igrejas e edificações que registram diferentes momentos da ocupação.

A memória do município, no entanto, é anterior à colonização. Informações divulgadas pela Prefeitura de Laguna apontam a existência de dezenas de sítios arqueológicos relacionados a povos sambaquieiros e guaranis. Os sambaquis são estruturas formadas ao longo de milhares de anos com conchas, ossos, restos de fogueiras e outros materiais acumulados por comunidades que viveram na região costeira. (laguna.sc.gov.br)

Esse patrimônio amplia a compreensão sobre a história local. A trajetória de Laguna não começa com a chegada dos colonizadores europeus, mas inclui ocupações humanas muito mais antigas, cujos vestígios permanecem como fontes de pesquisa e educação patrimonial.

São Francisco do Sul preserva a memória portuária

No litoral norte, São Francisco do Sul é reconhecida como uma das cidades mais antigas de Santa Catarina. De acordo com o Iphan, a fundação é situada por volta de 1640, enquanto a ocupação mais efetiva ocorreu a partir de 1658, com a chegada de paulistas e portugueses. A localidade foi elevada à condição de cidade em 1847. (gov.br)

O crescimento do município esteve ligado às atividades portuárias, que alcançaram maior importância entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX. A movimentação de pessoas, mercadorias e embarcações deixou marcas na arquitetura, na organização urbana e na identidade da população.

O centro histórico de São Francisco do Sul foi tombado pelo Iphan por sua relevância no processo de expansão das fronteiras portuguesas no período colonial. O conjunto também se destaca pela relação com a Baía Babitonga e com os morros que envolvem a cidade, formando uma paisagem em que patrimônio construído e natureza permanecem conectados. (gov.br)

Casas alinhadas às ruas, fachadas com diferentes períodos construtivos, igrejas e espaços ligados à atividade marítima ajudam a preservar a memória de uma cidade que se desenvolveu entre o interior da baía e as rotas do litoral. Nesse contexto, o patrimônio naval também ocupa lugar relevante, com iniciativas relacionadas à preservação de embarcações, objetos e conhecimentos ligados à navegação.

Florianópolis reúne heranças açorianas e estruturas defensivas

Florianópolis também concentra referências importantes da história catarinense. A antiga Desterro preserva áreas urbanas, edificações religiosas, mercados, fortes e comunidades tradicionais que revelam a presença açoriana e a importância estratégica da Ilha de Santa Catarina.

Entre as manifestações reconhecidas está a Procissão do Senhor dos Passos, registrada pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil. A celebração religiosa é realizada em Florianópolis e integra o conjunto de tradições que ajudam a preservar vínculos comunitários, práticas de fé e formas de sociabilidade transmitidas entre gerações. (gov.br)

A cidade também está ligada ao antigo sistema defensivo da Ilha de Santa Catarina. Fortalezas como Santa Cruz de Anhatomirim e São Antônio de Ratones foram construídas para proteger pontos estratégicos do litoral e hoje fazem parte do patrimônio histórico e paisagístico do Estado. O Iphan informa que cinco fortificações desse sistema integram a lista de candidaturas brasileiras ao título de Patrimônio Mundial da Unesco. (gov.br)

Além dos monumentos mais conhecidos, comunidades como Santo Antônio de Lisboa, Ribeirão da Ilha e Lagoa da Conceição preservam referências relacionadas à ocupação luso-açoriana, à pesca, à religiosidade, à culinária e às formas tradicionais de organização do espaço. Em 2025, o Iphan informou o reconhecimento de freguesias luso-brasileiras em Santa Catarina, incluindo localidades de Florianópolis e a Enseada de Brito, em Palhoça. (gov.br)

A imigração deixou marcas no interior do Estado

A memória histórica catarinense também está presente em municípios do interior e em núcleos formados por comunidades de imigrantes. A partir do século XIX, grupos alemães, italianos, poloneses, ucranianos, austríacos e de outras origens se estabeleceram em diferentes regiões do Estado. Essas populações contribuíram para a formação de paisagens rurais, técnicas construtivas, hábitos alimentares, festas e práticas religiosas.

O patrimônio preservado inclui casas de madeira, edificações em enxaimel, igrejas, salões comunitários, antigas estações ferroviárias, moinhos e propriedades rurais. Esses elementos não devem ser observados apenas como peças isoladas, mas como parte de conjuntos que revelam formas de ocupação, produção e convivência.

Em Itaiópolis, no planalto norte, o núcleo de Alto Paraguaçu está associado à imigração polonesa. O Iphan descreve a localidade como um conjunto formado por edificações de madeira e alvenaria de tijolos, implantadas em uma área elevada, com características próprias da arquitetura da imigração regional. (gov.br)

A preservação desses núcleos contribui para evitar que a história da imigração seja reduzida a datas comemorativas ou referências familiares. As construções, os caminhos e os espaços coletivos mostram como os grupos se adaptaram ao território e estabeleceram redes de trabalho, religião, educação e ajuda mútua.

Patrimônio material e imaterial caminham juntos

A preservação das cidades históricas não se limita a manter fachadas ou impedir alterações em prédios antigos. O patrimônio cultural também inclui festas, ofícios, técnicas, modos de fazer, expressões religiosas, conhecimentos sobre o ambiente e práticas transmitidas oralmente.

Em Santa Catarina, além da Procissão do Senhor dos Passos, o Iphan registra referências relacionadas à capoeira e ao ofício de seus mestres. O órgão também informa a existência de processos e inventários ligados a práticas como a pesca artesanal com auxílio de botos em Laguna, os engenhos de farinha e produções alimentares tradicionais. (gov.br)

Essas manifestações dependem da continuidade das comunidades que as praticam. Uma celebração, uma técnica construtiva ou um modo tradicional de pescar não sobrevive apenas porque foi documentado. É necessário que existam pessoas capazes de transmitir conhecimentos, espaços para a prática e políticas de valorização cultural.

Por isso, a educação patrimonial tem papel central. Em Santa Catarina, o Iphan desenvolve ações com escolas, instituições e comunidades para aproximar moradores dos bens culturais e estimular o reconhecimento da história local. A proposta é fazer com que a preservação seja compreendida como parte da vida cotidiana, e não apenas como uma obrigação ligada a imóveis tombados. (gov.br)

Preservar também significa adaptar as cidades

Os centros históricos permanecem vivos quando continuam sendo usados pela população. Moradias, comércios, repartições públicas, igrejas, museus e espaços de convivência precisam conciliar a preservação de suas características com as necessidades atuais de acessibilidade, segurança, mobilidade e manutenção.

Esse equilíbrio é um dos principais desafios das cidades históricas. A falta de conservação pode comprometer telhados, paredes, esquadrias e elementos ornamentais. Por outro lado, intervenções sem critérios podem descaracterizar imóveis, alterar paisagens e apagar informações importantes sobre o passado.

O tombamento estabelece regras de proteção, mas não substitui o planejamento urbano nem a participação dos moradores. A preservação depende de inventários, fiscalização, orientação técnica, recursos para restauração e definição clara das responsabilidades entre os órgãos públicos e os proprietários.

Também é necessário considerar os impactos do turismo. A visitação pode gerar renda, fortalecer museus, estimular a economia local e ampliar o interesse pela história. Quando não é planejada, porém, pode pressionar áreas frágeis, aumentar o custo de manutenção e transformar referências culturais em cenários desvinculados das comunidades.

Memória preservada por diferentes gerações

As cidades históricas de Santa Catarina revelam que a memória coletiva é formada por camadas. Os vestígios arqueológicos lembram a presença de povos que viveram no território muito antes da colonização. As igrejas, fortificações e ruas antigas registram a expansão colonial e as disputas pelo controle da região. As casas de imigrantes, os portos e as festas tradicionais mostram a continuidade de comunidades que transformaram o Estado ao longo do tempo.

Preservar esse patrimônio significa reconhecer que a história catarinense não é resultado de uma única origem. Ela reúne diferentes povos, experiências e conflitos, além de modos diversos de ocupar e interpretar o território.

Em Laguna, São Francisco do Sul, Florianópolis, Itaiópolis e em outras localidades, o passado permanece integrado ao presente. A conservação dos edifícios, das paisagens e das manifestações culturais permite que novas gerações conheçam não apenas os acontecimentos registrados nos livros, mas também os espaços onde a vida social foi construída.

É nessa combinação entre lugar, comunidade e memória que as cidades históricas mantêm sua relevância. Mais do que preservar pedras, madeira ou documentos, elas ajudam a manter vivo o vínculo entre os catarinenses de hoje e as gerações que participaram da formação do Estado.