A Costa da Lagoa é uma das localidades mais singulares de Florianópolis, em Santa Catarina. Situada às margens da Lagoa da Conceição, a comunidade combina paisagem natural, construções de interesse histórico e práticas culturais associadas à pesca artesanal e ao transporte por água.
O acesso restrito a embarcações e caminhos a pé contribui para preservar uma atmosfera diferente de outras áreas turísticas da capital catarinense. Na Costa da Lagoa, o deslocamento não é apenas uma etapa do passeio: ele faz parte da experiência de conhecer uma comunidade cuja formação e rotina estão ligadas à lagoa, aos morros e às relações de vizinhança.
Uma comunidade entre a lagoa e a mata
A Costa da Lagoa ocupa a vertente voltada para a Lagoa da Conceição, em uma área cercada por vegetação e relevo acidentado. O cenário é formado pela combinação entre água, encostas, pequenas áreas de ocupação e caminhos que conectam diferentes trechos da localidade.
O diagnóstico urbanístico da Prefeitura de Florianópolis descreve a região como uma paisagem cultural formada pela interação entre a ocupação humana secular e o ambiente natural. A pesca e o transporte náutico aparecem como elementos centrais dessa relação, que ainda influencia a identidade da comunidade.
Em 2014, a Costa da Lagoa foi reconhecida como território tradicional pela legislação municipal. O reconhecimento considera a permanência de práticas, relações sociais e formas de ocupação associadas à história da comunidade. O documento também destaca a necessidade de preservar os valores ambientais, paisagísticos e culturais da área. (strapi.redeplanejamento.pmf.sc.gov.br)
O caminho como parte da história
O acesso terrestre à Costa da Lagoa é feito pelo chamado Caminho da Costa, que liga a localidade ao Canto dos Araçás. O percurso atravessa trechos de mata, áreas residenciais, passagens estreitas e pontos de observação da lagoa.
Segundo a Prefeitura de Florianópolis, o caminho tem cerca de nove quilômetros e é tombado como patrimônio histórico municipal. O trajeto também está inserido em área legalmente protegida e integra parcialmente o Refúgio de Vida Silvestre Municipal Meiembipe.
As intervenções realizadas no percurso incluíram medidas como recuperação de pisos, implantação de escadarias, rampas, corrimãos, guarda-corpos e pontilhões. Também foram previstas sinalização, identificação de bens históricos e estruturas destinadas a melhorar a segurança e reduzir os efeitos da erosão e da visitação intensa. (redeplanejamento.pmf.sc.gov.br)
O caminho não deve ser entendido apenas como uma trilha para atividade física. Ele funciona como uma via de circulação utilizada historicamente pelos moradores e como registro da forma pela qual a comunidade se relaciona com o território. Ao caminhar pelo trajeto, o visitante encontra uma paisagem na qual natureza e ocupação humana aparecem lado a lado.
Barco, pesca e rotina comunitária
O transporte náutico é uma das marcas mais visíveis da Costa da Lagoa. As embarcações fazem a ligação entre a comunidade e outros pontos da Lagoa da Conceição, atendendo tanto moradores quanto visitantes.
A travessia permite observar a ocupação da margem, os pequenos trapiches e as encostas cobertas de vegetação. Para quem chega de barco, a paisagem se revela gradualmente, com a comunidade aparecendo entre a água e o relevo. Para os moradores, porém, o transporte representa uma necessidade cotidiana de deslocamento e conexão com outras áreas de Florianópolis.
Essa dupla função — serviço para a comunidade e atração turística — exige equilíbrio. A circulação de visitantes movimenta restaurantes e pequenos negócios, mas também amplia a pressão sobre a infraestrutura, os caminhos, a produção de resíduos e os espaços de uso comum.
A pesca artesanal permanece associada à identidade local, ainda que a economia da região também tenha incorporado atividades ligadas ao turismo e à alimentação. A presença de restaurantes à margem da lagoa ajuda a manter a relação entre o território e a gastronomia baseada em peixes e frutos do mar, sem separar completamente a experiência turística da história dos moradores.
Patrimônio além da paisagem
O patrimônio da Costa da Lagoa não está limitado às vistas da lagoa ou à vegetação das encostas. A área reúne edificações, caminhos, calçamentos e outros vestígios que ajudam a contar a história da ocupação da Ilha de Santa Catarina.
O tombamento municipal alcança a vertente voltada para a lagoa, desde o Canto dos Araçás até a vertente oeste do Morro do Tijuco. A proteção inclui a cobertura vegetal, edificações de interesse histórico e artístico e o próprio Caminho da Costa.
Essa forma de preservação considera o conjunto da paisagem. Em vez de proteger apenas um prédio isolado, o tombamento reconhece o valor da relação entre as construções, o ambiente, os caminhos e os usos tradicionais da comunidade.
Em 2024, a Prefeitura de Florianópolis também classificou imóveis da Costa da Lagoa como integrantes da Área de Preservação Cultural 1. A medida reforça a atenção do planejamento urbano sobre bens e conjuntos de interesse histórico existentes na localidade. (redeplanejamento.pmf.sc.gov.br)
Natureza, caminhada e contemplação
A Costa da Lagoa oferece uma experiência diferente de destinos baseados exclusivamente em praia e banho de mar. O principal atrativo está na combinação entre a travessia, a caminhada, a observação da paisagem e o contato com uma comunidade de características próprias.
Ao longo do percurso, o visitante encontra áreas de mata, trechos próximos à água e pontos em que é possível observar a dimensão da Lagoa da Conceição. A caminhada também permite perceber como as casas, os pequenos caminhos e os espaços de convivência se adaptam ao relevo.
Entre os atrativos naturais mais conhecidos está a cachoeira da Costa da Lagoa, acessível a partir dos caminhos da comunidade. A presença da queda-d’água reforça a diversidade da região, que reúne ambiente lagunar, floresta e cursos d’água em uma mesma área.
O passeio exige atenção às condições do terreno, especialmente em dias de chuva. Como ocorre em outras trilhas de Florianópolis, o visitante deve usar calçado adequado, levar água, respeitar a sinalização e evitar deixar resíduos. Também é importante lembrar que a área é, antes de tudo, um lugar de moradia.
Turismo e preservação
O crescimento do interesse turístico trouxe visibilidade à Costa da Lagoa, mas também tornou mais evidente o desafio de conciliar visitação e preservação. A comunidade precisa lidar com a circulação de pessoas, a manutenção dos caminhos, a proteção ambiental e a valorização das atividades tradicionais.
O turismo pode contribuir para a economia local quando prioriza negócios da própria comunidade, respeita os espaços privados e utiliza os serviços disponíveis de forma responsável. A visita também ganha qualidade quando o público entende que não está diante de um cenário criado apenas para o consumo turístico, mas de um território com moradores, memória e necessidades concretas.
As ações de melhoria no Caminho da Costa refletem parte desse desafio. A Prefeitura informou que as obras foram planejadas para aumentar a segurança e o conforto dos usuários, sem deixar de considerar a preservação ambiental e patrimonial do percurso. O projeto incluiu ainda iniciativas de educação ambiental e sinalização para reduzir impactos da visitação. (redeplanejamento.pmf.sc.gov.br)
Uma paisagem que preserva modos de vida
O charme da Costa da Lagoa não está apenas no silêncio, na água ou na vegetação. Ele nasce da permanência de uma forma de vida que se desenvolveu em torno da lagoa e que ainda pode ser percebida nos caminhos, nos trapiches, nas embarcações, na pesca e nas relações entre os moradores.
Em uma cidade marcada pela expansão urbana e pela valorização imobiliária de áreas próximas à água, a localidade se destaca por conservar uma escala mais lenta e uma identidade comunitária própria. Essa característica não significa ausência de mudanças, mas indica que a transformação do território ocorre sobre uma base histórica que continua presente.
Conhecer a Costa da Lagoa, portanto, é mais do que fazer um passeio por uma paisagem bonita de Santa Catarina. É entrar em contato com uma parte da história de Florianópolis e com uma comunidade reconhecida pelo poder público como território tradicional.
A preservação desse patrimônio depende de políticas públicas, manutenção dos acessos, proteção ambiental e respeito dos visitantes. Depende também da valorização dos moradores, que mantêm viva a relação entre cultura, trabalho e território. É essa combinação que faz da Costa da Lagoa um dos lugares mais expressivos da Ilha de Santa Catarina.