quarta-feira, 30 de setembro de 2026
MANCHETES

Diversidade cultural transforma Santa Catarina em um mosaico de tradições

A diversidade cultural de Santa Catarina resulta da convivência entre povos indígenas, comunidades tradicionais, descendentes de imigrantes europeus, populações afro-brasileiras e grupos migrantes que chegaram mais recentemente. Essa combinação aparece na arquitetura, na culinária, nas festas populares, na música, na religiosidade e nos modos de fazer preservados em diferentes regiões do estado.

A diversidade cultural de Santa Catarina é resultado da presença de diferentes povos, comunidades e trajetórias históricas. Ao longo dos séculos, indígenas, açorianos, africanos e seus descendentes, imigrantes europeus e grupos migrantes mais recentes contribuíram para formar um estado marcado por sotaques, festas, crenças, receitas, técnicas de trabalho e formas variadas de ocupação do território.

Esse conjunto de referências aparece tanto nas cidades quanto nas áreas rurais e litorâneas. Está presente em construções, celebrações religiosas, grupos folclóricos, sociedades comunitárias, engenhos de farinha, vinícolas, bandas, danças, artesanato e na transmissão de conhecimentos entre gerações.

Por isso, a cultura catarinense não pode ser explicada por uma única origem. Ela é formada por encontros, adaptações e permanências, mas também por conflitos, desigualdades e processos históricos que afetaram de maneira diferente os povos que vivem no estado.

Povos indígenas estão na base da história catarinense

Antes da chegada dos colonizadores europeus, o território que hoje corresponde a Santa Catarina era ocupado por diferentes povos indígenas, entre eles Guarani, Kaingang e Xokleng, também identificados em estudos históricos como Laklãnõ-Xokleng. Esses povos desenvolveram formas próprias de organização social, relação com o território, produção de alimentos e transmissão de conhecimentos.

A presença indígena permanece na toponímia, em nomes de rios, cidades e acidentes geográficos, além de influências na alimentação, nos usos de plantas e em práticas relacionadas ao ambiente. No entanto, a história desses povos também é marcada pela perda de territórios, pela violência e por políticas de ocupação que reduziram sua autonomia.

Reconhecer a diversidade cultural catarinense exige, portanto, incluir os povos indígenas como parte constitutiva da história do estado, e não apenas como referência do passado. A valorização de suas línguas, memórias, produções artísticas e direitos territoriais continua sendo um desafio para as políticas públicas e para a sociedade.

A herança açoriana se concentra especialmente no litoral

A presença açoriana ganhou força em Santa Catarina a partir do século 18, sobretudo em comunidades do litoral. A ocupação deixou marcas na arquitetura, na religiosidade, nas festas, na pesca artesanal e no modo de organizar a vida comunitária.

Em localidades litorâneas, costumes associados às comunidades açorianas aparecem em celebrações do Divino Espírito Santo, na renda de bilro, nas cantorias, nos engenhos de farinha e em receitas baseadas em mandioca, peixe e frutos do mar. Essas tradições foram preservadas por famílias e associações, mas também se transformaram com o crescimento urbano, o turismo e as mudanças no trabalho.

Os engenhos de farinha são um exemplo dessa permanência. Os saberes e práticas tradicionais ligados à produção artesanal da farinha de mandioca em Santa Catarina foram objeto de pedido de registro como patrimônio cultural brasileiro, apresentado por entidades e comunidades envolvidas com a preservação dessa atividade. O processo demonstra que o patrimônio cultural não se resume a prédios antigos: inclui conhecimentos, técnicas e formas coletivas de fazer.

Imigração europeia deixou marcas em várias regiões

A partir do século 19, diferentes correntes migratórias europeias passaram a ocupar áreas do interior e do litoral catarinense. Alemães, italianos, poloneses, ucranianos, austríacos e outros grupos contribuíram para a formação de comunidades com características próprias.

A imigração alemã teve presença importante no Vale do Itajaí, no Norte e em áreas próximas ao litoral. Em municípios como Blumenau, Pomerode, Brusque e Joinville, elementos dessa herança aparecem na arquitetura, nas sociedades recreativas, nas bandas, na culinária e em festas que se tornaram conhecidas em todo o país.

As tradições germânicas também incluem clubes de caça e tiro, práticas comunitárias e celebrações relacionadas à música e à gastronomia. O Tiro dos Reis, ou Königschießen, uma tradição associada a sociedades de atiradores, foi reconhecido em 2026 como patrimônio cultural de Santa Catarina, segundo a Assembleia Legislativa do estado. A medida mostra como manifestações trazidas por imigrantes continuam sendo incorporadas à memória cultural catarinense. (alesc.sc.gov.br)

A imigração italiana, por sua vez, teve forte presença no Sul catarinense e em áreas do Vale do Itajaí. Cidades como Criciúma, Urussanga e Nova Veneza preservam referências ligadas à produção de uva e vinho, à religiosidade, à culinária, às festas comunitárias e ao uso de dialetos. Em 2025, a Assembleia Legislativa promoveu atividades relacionadas aos 150 anos da imigração italiana em Santa Catarina, destacando a transmissão dessas tradições entre gerações. (alesc.sc.gov.br)

Também existem comunidades de origem polonesa e ucraniana, especialmente no Planalto Norte e em outras áreas de colonização. Suas contribuições aparecem em celebrações religiosas, grupos folclóricos, culinária, música e formas de organização comunitária. Em 2026, legislação estadual reconheceu mudanças na denominação cultural de um município para destacar conjuntamente as heranças polonesa e ucraniana. (alesc.sc.gov.br)

Patrimônio material e imaterial preserva memórias

O patrimônio cultural de Santa Catarina reúne bens materiais, como igrejas, casas, centros históricos, antigas áreas coloniais e paisagens rurais, além de bens imateriais, como festas, músicas, danças, receitas, técnicas agrícolas, ofícios e celebrações religiosas.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional destaca que o patrimônio dos imigrantes em Santa Catarina inclui dialetos, festas, culinárias, folclore, tradições agrícolas, paisagens, arquitetura, hábitos e saberes. Esses elementos formam um conjunto vivo, transmitido no cotidiano e constantemente adaptado pelas comunidades. (portal.iphan.gov.br)

A preservação, nesse contexto, não significa congelar as tradições. Uma receita pode incorporar novos ingredientes, uma festa pode mudar de formato e uma construção pode receber outra função. O que permanece é a capacidade de a comunidade reconhecer naquele bem ou prática um vínculo com sua história e sua identidade.

Festas populares revelam a mistura de influências

O calendário cultural catarinense reúne festas de diferentes origens. No litoral, celebrações religiosas e manifestações ligadas à cultura açoriana convivem com eventos de pesca, música e gastronomia. No Vale do Itajaí e no Norte, festas associadas à imigração alemã ganharam grande projeção. No Sul, eventos ligados à cultura italiana valorizam a culinária, a música e a religiosidade.

Há ainda manifestações que atravessam fronteiras culturais, como o boi de mamão, grupos de dança, festas do Divino, celebrações do Rosário, encontros tradicionalistas e atividades promovidas por comunidades quilombolas e grupos afro-brasileiros.

Essas festas exercem funções que vão além do entretenimento. Elas reúnem moradores, movimentam a economia local, estimulam o turismo e ajudam crianças e jovens a conhecerem práticas de seus antepassados. Ao mesmo tempo, a transformação de tradições em atrações turísticas exige cuidado para evitar simplificações e garantir que as comunidades mantenham participação e reconhecimento.

A cultura afro-brasileira também faz parte do mosaico

A formação cultural de Santa Catarina não se limita às heranças europeias. A população negra participou da construção econômica e social do estado em diferentes períodos, inclusive em atividades portuárias, rurais, domésticas, comerciais e urbanas.

As comunidades afro-brasileiras preservam memórias, práticas religiosas, expressões musicais, danças, formas de solidariedade e manifestações associadas à resistência contra o racismo. A presença de comunidades quilombolas reforça a importância de compreender o território catarinense a partir de diferentes experiências históricas.

O ensino da história e da cultura afro-brasileira, africana e indígena está previsto em diretrizes educacionais do estado. A Secretaria de Estado da Educação destaca que a diversidade cultural faz parte da identidade catarinense e que a abordagem escolar deve considerar também os grupos que enfrentaram preconceito e discriminação. (www2.sed.sc.gov.br)

Novos fluxos migratórios ampliam a diversidade

A diversidade cultural de Santa Catarina continua em transformação. Nas últimas décadas, o estado recebeu pessoas de diferentes regiões do Brasil e de outros países, incluindo migrantes venezuelanos e haitianos. Essas comunidades passaram a participar da vida escolar, do mercado de trabalho, das atividades religiosas e dos espaços culturais de várias cidades.

Dados divulgados pela Secretaria de Estado da Educação indicavam, em 2022, a presença de milhares de estudantes estrangeiros na rede estadual, com concentração em diferentes etapas da educação básica. O cenário mostra que as escolas se tornaram espaços importantes de convivência entre línguas, costumes e trajetórias diversas. (sed.sc.gov.br)

A chegada de novos migrantes acrescenta pratos, músicas, festas, idiomas e formas de sociabilidade ao cotidiano catarinense. Também cria demandas por políticas de acolhimento, acesso a serviços públicos, combate à xenofobia e reconhecimento da contribuição dessas populações.

Políticas públicas buscam proteger a diversidade

O Plano Estadual de Cultura de Santa Catarina estabelece entre suas diretrizes o reconhecimento, a promoção e a proteção da diversidade cultural. A legislação também prevê a valorização de patrimônios materiais e imateriais, de línguas maternas, de sítios históricos e das memórias de diferentes grupos formadores da sociedade catarinense. (leis.alesc.sc.gov.br)

Na prática, a preservação depende da atuação conjunta do poder público, das escolas, das universidades, das instituições culturais e das próprias comunidades. Inventários, registros, editais, museus, arquivos, atividades educativas e apoio a mestres da cultura são instrumentos que ajudam a manter vivas as tradições.

O principal desafio é garantir que a valorização cultural não produza uma imagem reduzida de Santa Catarina, baseada apenas em determinados grupos ou festas. O estado é resultado de muitas histórias, e algumas delas foram por muito tempo pouco reconhecidas.

Um mosaico em permanente transformação

A diversidade cultural de Santa Catarina está presente na relação entre litoral e interior, nas diferenças regionais, nos modos de falar, nas receitas, nos rituais religiosos, nos saberes do campo, nas expressões artísticas e nas novas formas de convivência criadas pelas migrações contemporâneas.

Mais do que reunir tradições distintas, o estado produz novas combinações todos os dias. A cultura catarinense é, ao mesmo tempo, memória e mudança. Preservar esse mosaico significa reconhecer seus diferentes povos, enfrentar apagamentos históricos e garantir que as comunidades possam participar da definição de como suas histórias serão contadas.