segunda-feira, 28 de setembro de 2026
CIDADES

Morro da Fumaça: indústria, cultura e desenvolvimento regional em Santa Catarina

Morro da Fumaça, no Sul de Santa Catarina, combina tradição ceramista, herança cultural da imigração e integração regional. A indústria permanece no centro da economia, enquanto iniciativas culturais e de qualificação buscam ampliar as oportunidades de desenvolvimento.

Morro da Fumaça ocupa uma posição singular no Sul de Santa Catarina. Com uma economia marcada pela indústria cerâmica, o município também preserva referências culturais ligadas à imigração, à religiosidade, à agricultura e aos antigos caminhos que conectavam diferentes comunidades da região.

O resultado é uma cidade cuja identidade se formou pela combinação entre trabalho industrial, memória comunitária e integração regional. Em 2022, o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou 18.537 habitantes no município. A área territorial é de 82,878 quilômetros quadrados, e o PIB per capita alcançou R$ 55.005,74 em 2023, segundo dados disponíveis na página municipal do instituto. (ibge.gov.br)

Uma história formada por imigração e deslocamentos

As origens de Morro da Fumaça estão relacionadas à ocupação do Sul catarinense por diferentes grupos populacionais. Conforme registros históricos do município e do IBGE, as primeiras famílias chegaram à região por volta de 1900. O material da prefeitura menciona a presença inicial de imigrantes vindos da Bielo-Rússia, que posteriormente deixaram a área, enquanto famílias de origem italiana passaram a ocupar as terras no início do século 20. (servicos.morrodafumaca.sc.gov.br)

A influência italiana tornou-se predominante na formação social e econômica local. As famílias que chegaram de comunidades próximas, como Rio Cocal, Rio América, Rio Carvão e Rio Galo, contribuíram para a organização da agricultura, das relações comunitárias e das manifestações religiosas que ainda fazem parte da memória do município.

O próprio nome Morro da Fumaça tem mais de uma explicação registrada. Uma das versões relaciona a denominação à neblina que cobria uma elevação próxima a áreas alagadiças. Outra associa o nome às fogueiras acesas por tropeiros que percorriam antigos caminhos e utilizavam o morro como ponto de parada. As duas narrativas fazem parte do patrimônio histórico local, embora não haja uma única explicação consensual para a origem do topônimo. (servicos.morrodafumaca.sc.gov.br)

O território foi transformado em distrito de Urussanga em 1931. A emancipação política ocorreu em 1962, por meio da Lei Estadual nº 816, e a instalação do município foi realizada em 20 de maio daquele ano. A data passou a ser lembrada como o aniversário de emancipação de Morro da Fumaça. (servicos.morrodafumaca.sc.gov.br)

A cerâmica como base da economia

A indústria cerâmica é o principal elemento da trajetória econômica de Morro da Fumaça. A atividade começou de forma artesanal, com a produção de telhas e tijolos em fornos rudimentares e o uso de argila retirada de áreas próximas a rios e várzeas. O processo acompanhou a expansão urbana e industrial do Sul catarinense, especialmente com o crescimento da mineração de carvão e das cidades da região.

Estudo técnico sobre a indústria de cerâmica vermelha em Santa Catarina aponta que Morro da Fumaça iniciou suas atividades oleiras entre o fim da década de 1920 e o começo da década de 1930. As primeiras unidades eram manuais e tinham baixa produtividade. A partir dos anos 1950, o setor passou por processos de mecanização que ampliaram a produção e consolidaram o município como um polo regional. (gov.br)

A proximidade com Criciúma, Urussanga, Cocal do Sul, Içara e outros municípios do Sul do Estado favoreceu a formação de uma cadeia produtiva integrada. A cerâmica passou a movimentar não apenas as fábricas, mas também atividades de transporte, extração e beneficiamento de argila, manutenção de máquinas, comércio, serviços especializados e fornecimento de insumos.

Dados reunidos pelo Observatório da Universidade do Extremo Sul Catarinense indicaram que, em 2018, a indústria concentrava 59,93% dos empregos formais de Morro da Fumaça. O setor de serviços respondia por 24,68%, enquanto o comércio representava 14,65%. Construção civil e agropecuária tinham participação menor naquele levantamento. Como os números se referem a 2018, eles ajudam a compreender a estrutura histórica da economia, mas não devem ser interpretados como um retrato atualizado do mercado de trabalho. (pdseamrec.unesc.net)

Transformações e desafios do setor industrial

A importância da cerâmica não elimina os desafios enfrentados pela indústria. O setor depende da disponibilidade de matéria-prima, do custo da energia, da modernização dos equipamentos, da demanda da construção civil e das exigências ambientais relacionadas à extração de argila e ao processo produtivo.

Pesquisas acadêmicas sobre a paisagem oleira de Morro da Fumaça registram a relevância socioeconômica da cerâmica vermelha e também apontam impactos ambientais associados à atividade industrial e à retirada de argila. Esse histórico ajuda a explicar por que a discussão sobre competitividade passou a ser acompanhada pela necessidade de planejamento, recuperação de áreas e adoção de práticas mais eficientes. (repositorio.ufsc.br)

Nos últimos anos, representantes do setor passaram a discutir estratégias de longo prazo para enfrentar mudanças tecnológicas, pressões de custo e exigências de sustentabilidade. A busca por processos mais eficientes, redução de desperdícios, qualificação profissional e diversificação de produtos aparece como parte da tentativa de manter a atividade competitiva sem romper com as responsabilidades ambientais.

A indústria também deixou de ser vista apenas como produtora de materiais básicos para construção. A experiência acumulada na fabricação de peças cerâmicas abriu espaço para iniciativas voltadas à cerâmica artística e ao design, aproximando a produção industrial de ações culturais e educativas.

Cultura, religiosidade e memória comunitária

A cultura de Morro da Fumaça está associada às tradições trazidas pelos imigrantes, à organização das comunidades rurais e à forte presença da religiosidade. O município tem São Roque como padroeiro, e a festa em homenagem ao santo é celebrada em 16 de agosto, segundo o histórico divulgado pelo IBGE. (ibge.gov.br)

As manifestações religiosas, as festas comunitárias, a culinária de origem italiana e as relações de vizinhança ajudam a preservar uma memória construída ao longo de gerações. Esses elementos não estão separados da economia: festas, encontros e espaços culturais também fortalecem a circulação de pessoas, a produção local e o sentimento de pertencimento.

A memória dos antigos caminhos é outro componente importante. A chamada Rota dos Tropeiros é apresentada pelo município como um percurso ligado à circulação de pessoas e mercadorias entre o início do século 18 e as primeiras décadas do século 20. A rota é associada a experiências de história, cultura, aventura e contato com a paisagem rural. (servicos.morrodafumaca.sc.gov.br)

O distrito de Estação Cocal também integra essa trajetória. A localidade se desenvolveu em torno da antiga estrada de ferro e representa uma das marcas da infraestrutura que conectou comunidades, facilitou o transporte e contribuiu para a formação econômica do município. (servicos.morrodafumaca.sc.gov.br)

Da cerâmica industrial à produção artística

Uma das iniciativas que aproximam cultura e economia é a Olaria das Artes, núcleo de cerâmica artística criado pelo Sindicato da Indústria da Cerâmica Vermelha em parceria com o Sebrae. A proposta é utilizar o conhecimento acumulado pelo setor para incentivar a produção artística e ampliar o reconhecimento de Morro da Fumaça como referência também nesse segmento. (servicos.morrodafumaca.sc.gov.br)

Essa aproximação tem potencial para gerar novas frentes de trabalho e valorizar saberes locais. A produção artística pode funcionar como instrumento de educação patrimonial, estímulo ao empreendedorismo e diversificação econômica. Também contribui para apresentar a visitantes e moradores uma dimensão menos conhecida da indústria cerâmica.

Projetos de formação voltados a crianças e jovens reforçam esse movimento. A proposta de aproximar novas gerações da tradição ceramista procura preservar técnicas, histórias e referências que fazem parte da identidade municipal. Ao mesmo tempo, iniciativas desse tipo podem estimular a criatividade e ampliar a percepção sobre as possibilidades profissionais ligadas à cerâmica, ao design e à economia criativa.

Integração regional e novas oportunidades

Morro da Fumaça não se desenvolveu de forma isolada. Sua economia depende da relação com municípios vizinhos e com os principais centros urbanos do Sul catarinense. A circulação de trabalhadores, mercadorias, serviços e investimentos cria uma rede regional que ultrapassa os limites administrativos do município.

A proximidade com Criciúma e a conexão com outros municípios produtores de cerâmica favorecem a especialização industrial. Ao mesmo tempo, a integração amplia o acesso a instituições de ensino, serviços de saúde, comércio, logística e oportunidades de qualificação profissional.

O poder público municipal já apresentou programas voltados à atração de investimentos, à criação de áreas industriais, à oferta de cursos profissionalizantes e à desburocratização de processos. Um desses programas projetava atrair R$ 300 milhões em investimentos privados ao longo de cinco anos. Como se trata de uma meta anunciada pelo governo municipal, e não de um resultado consolidado, o valor deve ser entendido como expectativa de planejamento. (servicos.morrodafumaca.sc.gov.br)

O desafio é transformar vantagens históricas em desenvolvimento equilibrado. Isso envolve manter a força da indústria, ampliar a qualificação da mão de obra, apoiar pequenos negócios, fortalecer a cultura e garantir que o crescimento econômico seja acompanhado por planejamento urbano e responsabilidade ambiental.

Um município entre a tradição e a renovação

A trajetória de Morro da Fumaça mostra como uma atividade produtiva pode moldar a identidade de uma cidade. A cerâmica está presente na economia, na paisagem, na memória das famílias e na formação de trabalhadores. Mas o futuro do município não depende apenas da continuidade dos modelos tradicionais.

A diversificação de produtos, a inovação tecnológica, a valorização da cerâmica artística, o turismo cultural e a qualificação profissional podem ampliar as alternativas de desenvolvimento. A preservação da história, por sua vez, oferece referências para que essas mudanças ocorram sem apagar as origens da comunidade.

Com população de 18.537 habitantes no Censo 2022 e PIB per capita de R$ 55.005,74 em 2023, Morro da Fumaça reúne características de um município industrial integrado a uma região dinâmica. Seus próximos passos dependerão da capacidade de conciliar produtividade, inovação, preservação ambiental e valorização cultural. (ibge.gov.br)

Mais do que um polo de cerâmica, Morro da Fumaça se consolidou como território de encontros: entre a indústria e o artesanato, entre a memória dos imigrantes e as novas gerações, entre os caminhos antigos e as atuais conexões regionais. É nessa combinação que a cidade encontra as bases para continuar se desenvolvendo.