Municípios de Santa Catarina têm usado eventos culturais, gastronômicos, esportivos, religiosos e de negócios como instrumentos de desenvolvimento econômico. A estratégia combina a valorização das tradições locais com a atração de visitantes, o fortalecimento do comércio e a criação de oportunidades para prestadores de serviço, produtores rurais e empreendedores.
Em um estado com forte atividade turística, a realização de eventos ajuda a distribuir o fluxo de pessoas ao longo do ano e por diferentes regiões. A agenda inclui desde grandes festas, como a Festa Nacional do Pinhão, em Lages, e as celebrações de outubro no Vale do Itajaí, até programações municipais de menor porte, que movimentam restaurantes, hotéis, lojas, feiras e serviços especializados.
A Secretaria de Estado do Turismo mantém um calendário para reunir informações sobre festas e atividades promovidas pelos municípios. A iniciativa permite divulgar datas e atrações e amplia a visibilidade dos eventos para moradores e turistas.
Eventos ampliam o movimento no comércio e nos serviços
O impacto econômico de uma festa municipal não se limita à venda de ingressos ou ao consumo dentro do espaço do evento. A circulação de visitantes costuma alcançar uma cadeia mais ampla, formada por meios de hospedagem, restaurantes, bares, mercados, postos de combustíveis, transporte, comércio varejista, empresas de montagem e trabalhadores temporários.
Também são beneficiados os empreendedores que participam de feiras e exposições. Artesãos, agricultores familiares, produtores de alimentos, pequenas indústrias e empresas de serviços encontram nesses ambientes uma oportunidade para apresentar produtos, conquistar clientes e estabelecer contatos comerciais.
O levantamento da Fecomércio-SC sobre as festas de outubro aponta que os eventos atraem pessoas de outras cidades, estimulam o turismo e produzem efeitos sobre a rede hoteleira e o comércio local. Embora o estudo analisasse uma edição específica, a lógica se aplica a diferentes formatos de programação quando há planejamento, divulgação e participação dos empreendedores da região.
Para os municípios, outro efeito importante é a divulgação da marca local. Uma festa bem estruturada pode associar a cidade a determinados produtos, paisagens, manifestações culturais ou atividades econômicas. Essa exposição contribui para que o visitante retorne em outras épocas ou recomende o destino a familiares e amigos.
Lages registra impacto de grande festa na Serra
Um dos exemplos recentes está em Lages, na Serra catarinense. A 36ª Festa Nacional do Pinhão, realizada de 22 de maio a 7 de junho de 2026, movimentou cerca de R$ 90 milhões, segundo a Fundação Cultural de Lages.
O evento reuniu shows nacionais, apresentações regionais e atividades relacionadas à cultura serrana. A programação também incluiu a Arena Serra Catarinense, espaço que contou com a participação de 18 municípios da Associação dos Municípios da Região Serrana e recebeu aproximadamente 25 mil visitantes ao longo dos dez dias de funcionamento.
O caso mostra como uma festa de alcance regional pode beneficiar não apenas a cidade-sede. A presença de municípios vizinhos em áreas de exposição e divulgação permite apresentar produtos, serviços e atrativos de diferentes localidades, criando uma conexão entre o evento e o desenvolvimento turístico da região.
Além da receita direta, a festa amplia a exposição do município. A Fundação Cultural informou que o monitoramento nas redes sociais apontou mais de 180 milhões de impactos relacionados à edição de 2026. Esse tipo de alcance não representa, por si só, receita imediata, mas ajuda a projetar o destino e pode reforçar ações futuras de promoção turística.
Programações ajudam a ocupar períodos fora da alta temporada
O calendário de eventos também é utilizado para reduzir a concentração do turismo nos meses de verão. No litoral, por exemplo, municípios organizam atividades culturais, esportivas, religiosas e folclóricas durante a temporada e em períodos intermediários.
Em Laguna, a programação da temporada de verão 2026 reuniu eventos públicos e privados em diferentes pontos do município, incluindo o Centro Histórico, Mar Grosso, Farol de Santa Marta, comunidades do interior e outras áreas turísticas. De acordo com a Prefeitura de Laguna, a agenda foi planejada para fortalecer o turismo, valorizar a cultura, incentivar o esporte e movimentar o comércio e os serviços.
A descentralização das atividades é relevante porque distribui o movimento por bairros e comunidades. Quando há programação em mais de uma área, o visitante pode permanecer por mais tempo na cidade e consumir em diferentes estabelecimentos, desde que existam condições adequadas de acesso, segurança, informação e atendimento.
Fora do litoral, a estratégia também aparece em feiras agropecuárias, festas de colheita, encontros de produtores e celebrações ligadas à imigração. Esses eventos podem funcionar como vitrines de cadeias produtivas locais, ao aproximar o público de alimentos, bebidas, artesanato e experiências vinculadas à identidade de cada região.
Esporte e negócios entram na agenda municipal
O turismo de eventos não se resume às festas tradicionais. Competições esportivas, seminários, feiras empresariais e encontros profissionais também levam visitantes a cidades que nem sempre estão entre os destinos turísticos mais conhecidos.
A Fundação Catarinense de Esporte destaca que eventos do calendário esportivo estadual movimentam a economia e o turismo de diferentes municípios. Atletas, equipes, familiares, árbitros e profissionais de apoio utilizam hospedagem, alimentação, transporte e outros serviços durante os períodos de competição.
Esse público costuma permanecer mais de um dia no destino, especialmente quando os torneios envolvem várias categorias ou etapas. Para os municípios, a realização de campeonatos pode representar uma forma de ocupar equipamentos públicos, divulgar a cidade e atrair visitantes em datas que normalmente teriam menor movimento.
O segmento de negócios e eventos também é apontado pelo Sebrae de Santa Catarina como uma frente relevante para a economia turística. Congressos, feiras e encontros corporativos demandam estrutura, fornecedores e serviços especializados, além de contribuírem para a circulação de renda.
Tradição cultural vira estratégia de desenvolvimento
Em muitas cidades catarinenses, as festas municipais nasceram de celebrações religiosas, colheitas, atividades rurais ou tradições de comunidades formadas por imigrantes. Ao longo do tempo, parte delas ganhou dimensão turística e passou a integrar o calendário regional.
A transformação de uma tradição em evento de maior alcance exige cuidado para preservar sua identidade. A gastronomia, a música, os trajes, os produtos agrícolas e os costumes locais podem ser apresentados ao público sem perder o vínculo com a comunidade que os mantém.
A Assembleia Legislativa de Santa Catarina tem destacado a relação entre manifestações culturais, turismo e geração de renda. Entre as iniciativas reconhecidas no estado estão festas ligadas à cultura açoriana, à atividade pesqueira, à religiosidade e à produção rural. O reconhecimento institucional pode contribuir para dar visibilidade a essas manifestações e fortalecer sua organização.
Ao mesmo tempo, a expansão dos eventos aumenta a necessidade de planejamento. A administração pública precisa considerar estrutura, mobilidade, segurança, limpeza urbana, atendimento de saúde, fiscalização, acessibilidade e impactos sobre os moradores. Sem esses cuidados, o aumento temporário do fluxo pode gerar custos e transtornos que reduzem os benefícios econômicos esperados.
Planejamento define o resultado econômico
O movimento de pessoas não significa automaticamente aumento de lucro para todos os negócios. O resultado depende de fatores como perfil do público, duração do evento, capacidade de hospedagem, preços praticados, divulgação, condições climáticas e integração entre organizadores e empresas locais.
Também é importante medir os efeitos da programação. Indicadores como número de visitantes, ocupação hoteleira, vendas, contratação de trabalhadores, participação de fornecedores locais e arrecadação podem ajudar a avaliar se o investimento atingiu os objetivos propostos.
Outro ponto é a transparência sobre os custos. Os valores destinados à estrutura, divulgação, atrações, segurança e logística precisam ser acompanhados dos resultados alcançados. A comparação entre despesas e benefícios econômicos permite aprimorar edições futuras e orientar decisões sobre o calendário municipal.
A participação dos pequenos negócios desde a fase de planejamento é uma medida que pode ampliar o impacto local. Reuniões com comerciantes, produtores, entidades empresariais e representantes do turismo ajudam a ajustar horários, localização, serviços e estratégias de divulgação.
Calendário integrado amplia a divulgação
Ao organizar e divulgar suas agendas, os municípios podem evitar a sobreposição de datas e estimular roteiros regionais. Um visitante interessado em gastronomia, cultura, esporte ou natureza pode combinar eventos em cidades próximas, aumentando o tempo de permanência e o consumo em mais de um destino.
O calendário estadual contribui para essa integração ao reunir informações de diferentes municípios. A divulgação antecipada também facilita a programação de viagens, reservas de hospedagem e contratação de serviços.
Em Santa Catarina, a diversidade regional favorece esse modelo. O litoral concentra atividades ligadas ao mar e à temporada de verão; o Vale do Itajaí reúne festas tradicionais e eventos culturais; o Oeste e o Meio-Oeste destacam a produção agropecuária e as exposições; enquanto a Serra explora a gastronomia, o frio, a paisagem e as tradições rurais.
Com planejamento, participação comunitária e avaliação dos resultados, os eventos podem deixar de ser ações isoladas e passar a integrar políticas permanentes de turismo e desenvolvimento econômico. A principal aposta dos municípios é transformar o fluxo temporário de visitantes em oportunidades duradouras para empresas, trabalhadores e produtores locais.