terça-feira, 29 de setembro de 2026
MANCHETES

Pequenos municípios ganham protagonismo no turismo de Santa Catarina

Pequenos municípios de Santa Catarina fortalecem o turismo de experiência com roteiros rurais, atrativos naturais, gastronomia, cultura e ações integradas entre cidades e empreendedores locais.

O turismo em Santa Catarina começa a se consolidar para além dos grandes destinos do litoral. Pequenos municípios das regiões serrana, oeste, sul, Vale do Itajaí e Planalto Norte passaram a ocupar espaço maior na promoção turística do estado, impulsionados por roteiros de natureza, turismo rural, gastronomia, cultura, aventura e experiências ligadas à identidade local.

O movimento não significa a perda de relevância de cidades já conhecidas, como Florianópolis, Balneário Camboriú, Bombinhas, Joinville e Blumenau. A mudança está na ampliação da oferta. Municípios com menor população e estrutura mais enxuta buscam transformar propriedades rurais, paisagens, festas, produtos coloniais, tradições religiosas e patrimônios históricos em atrações capazes de receber visitantes durante diferentes épocas do ano.

Em vez de depender exclusivamente do turismo de verão, essas cidades tentam criar motivos para que o visitante permaneça mais tempo, retorne em outras temporadas e percorra mais de um destino em uma mesma viagem.

Interiorização do fluxo turístico

A interiorização é uma das principais características da nova fase do turismo catarinense. O estado reúne litoral, serras, vales, áreas rurais, cânions, rios, cachoeiras, vinícolas, pequenas propriedades e comunidades com diferentes heranças culturais. Essa diversidade permite a criação de produtos turísticos voltados a públicos distintos.

Na Serra Catarinense, municípios como Urubici, São Joaquim, Bom Jardim da Serra, Urupema, Rio Rufino e Bom Retiro combinam clima frio, paisagens de altitude, gastronomia regional, vinhos, hospedagens rurais e atividades ao ar livre. No extremo sul, Praia Grande e cidades vizinhas exploram a proximidade com os cânions e o turismo de aventura. No Oeste e no Meio-Oeste, a cultura da imigração, a produção agropecuária e as paisagens rurais formam a base de diferentes roteiros.

O governo estadual incluiu cinco destinos catarinenses entre os municípios mais acolhedores do país em 2025: Urubici, Pomerode, Praia Grande, São Joaquim e Imbituba, por meio da Praia do Rosa. A lista reúne cidades de portes diferentes, mas evidencia como municípios fora dos grandes centros turísticos passaram a ser associados à hospitalidade, à natureza e ao turismo de experiência. (setur.sc.gov.br)

Turismo rural transforma propriedades em destinos

O turismo rural é uma das atividades que mais aproxima o visitante da economia local. Em pequenas propriedades, a visita pode incluir alimentação, hospedagem, trilhas, contato com animais, observação da produção agrícola, venda de produtos artesanais e participação em experiências relacionadas ao cotidiano do campo.

Esse modelo permite que famílias rurais encontrem uma fonte complementar de renda sem abandonar a produção agropecuária. O visitante, por sua vez, busca experiências menos padronizadas, com contato direto com os moradores, alimentos produzidos na região e ambientes afastados dos grandes centros.

O Sebrae destaca que os serviços turísticos podem ampliar a renda de produtores e pequenos empreendedores, especialmente quando estão associados a produtos artesanais, gastronomia, agricultura familiar e atividades de lazer. A entidade também aponta o turismo rural como uma alternativa para valorizar propriedades e criar novas oportunidades econômicas no campo. (sebrae-sc.com.br)

No Alto Vale do Itajaí, iniciativas apoiadas por entidades locais e pela Epagri mostram como propriedades familiares passaram a receber visitantes interessados em natureza, alimentação e tranquilidade. A atividade ainda é formada, em grande parte, por pequenos negócios, o que faz com que o dinheiro circule diretamente entre hospedagens, restaurantes, produtores, artesãos e prestadores de serviços.

A Serra Catarinense também mantém uma tradição ligada ao turismo rural. Estudos sobre a região identificam a presença de hotéis-fazenda, pousadas, propriedades rurais e atividades de ecoturismo em municípios como Rio Rufino, Bom Retiro e Urupema. A valorização das paisagens e das tradições locais aparece como uma das estratégias para fortalecer a economia regional. (univates.br)

Roteiros regionais ampliam a permanência do visitante

Um dos desafios dos pequenos municípios é fazer com que o turista não apenas passe pela cidade, mas permaneça nela. Para enfrentar esse problema, prefeituras, associações empresariais, consórcios e entidades de apoio vêm estruturando roteiros que conectam atrações de várias cidades.

A lógica é simples: um município pode oferecer uma trilha, outro uma vinícola, um terceiro uma experiência gastronômica e outro uma festa tradicional ou um patrimônio histórico. Juntos, os destinos ampliam a quantidade de atividades disponíveis e reduzem a dependência de um único atrativo.

Em 2024, o Sebrae/SC apresentou roteiros de visitação e iniciativas de integração regional, com a participação de municípios, empreendedores, agências, monitores e guias. A proposta foi aproximar a oferta dos pequenos destinos do mercado turístico e transformar atrações isoladas em produtos mais organizados. (sc.agenciasebrae.com.br)

A mesma estratégia aparece no Planalto Norte, onde projetos de rotas e roteiros foram elaborados para organizar a oferta turística e tornar os municípios mais competitivos. O objetivo é criar destinos com maior capacidade de atendimento, divulgação e comercialização, em vez de depender somente da promoção individual feita por cada prefeitura.

Na Serra, o Consórcio Intermunicipal Serra Catarinense mantém planos regionais e municipais de turismo para cidades como Lages, São Joaquim, Urubici, Urupema, Rio Rufino, Bom Jardim da Serra e Bocaina do Sul. O planejamento conjunto busca relacionar desenvolvimento econômico, conservação ambiental e valorização das características de cada município. (cisama.sc.gov.br)

Natureza, aventura e cicloturismo

A natureza é outro fator que favorece a projeção dos municípios menores. Trilhas, rios, cachoeiras, cânions, montanhas e áreas de Mata Atlântica compõem uma oferta que pode ser explorada em diferentes estações do ano, desde que haja planejamento, segurança, sinalização e estrutura de acesso.

O cicloturismo ganhou espaço nesse processo. Em 2025, a Secretaria de Estado do Turismo divulgou roteiros que conectam paisagens rurais, cidades históricas, vales e áreas de serra. Entre as opções apresentadas está o Caminho das Araucárias, entre São Joaquim e Urubici, uma rota associada à paisagem serrana e ao turismo de natureza. (setur.sc.gov.br)

O crescimento de atividades ao ar livre também beneficia guias, condutores, pousadas, restaurantes, lojas de equipamentos e produtores locais. Porém, a expansão exige controle do impacto ambiental e preparação para receber visitantes em áreas que nem sempre foram planejadas para grandes volumes de circulação.

O desafio é evitar que o aumento do fluxo provoque degradação de trilhas, descarte irregular de resíduos, ocupação desordenada e pressão sobre os recursos naturais. Em municípios pequenos, a capacidade de fiscalização e atendimento costuma ser mais limitada, o que torna a gestão compartilhada uma ferramenta importante.

Identidade cultural como ativo turístico

Além da natureza, a identidade cultural é usada para diferenciar os destinos. Festas religiosas, arquitetura, culinária, produção de vinhos, azeites, queijos, embutidos, artesanato e manifestações comunitárias ajudam a formar uma narrativa própria para cada região.

O turismo religioso é um exemplo de atividade capaz de levar visitantes ao interior durante todo o ano. Nova Trento, onde está localizado o Santuário Santa Paulina, tornou-se uma referência nacional do segmento. A criação de rotas que conectam igrejas, capelas, santuários, trilhas e paisagens naturais amplia a possibilidade de integração entre municípios.

Em 2026, leis estaduais também passaram a reconhecer iniciativas relacionadas à cultura, ao turismo religioso, ao turismo rural e à gastronomia, incluindo a Rota das Oliveiras. A medida reforça a tentativa de transformar atividades produtivas e tradições regionais em experiências turísticas organizadas. (alesc.sc.gov.br)

O resultado esperado é uma oferta menos concentrada em praias e grandes eventos. Ao apresentar seus modos de vida, seus produtos e sua história, os pequenos municípios podem atrair visitantes interessados em experiências específicas, com maior contato com a comunidade e menor dependência da sazonalidade.

Pequenos negócios estão no centro da estratégia

A força dos pequenos municípios está diretamente ligada à participação de micro e pequenas empresas. Pousadas familiares, cafés coloniais, restaurantes, produtores rurais, guias, artesãos, transportadores e organizadores de passeios formam a base da cadeia turística local.

Segundo levantamento divulgado pelo Sebrae/SC em 2026, 91,7% dos estabelecimentos de turismo em Santa Catarina são micro e pequenas empresas. A entidade informou ainda que atua em 120 municípios, apoia 119 rotas e roteiros e mantém projetos em 15 regiões turísticas do estado. (sc.agenciasebrae.com.br)

Esses números ajudam a explicar por que o avanço do turismo nos municípios menores depende menos da construção de grandes empreendimentos e mais da organização dos serviços já existentes. Melhorias em atendimento, divulgação digital, reservas, precificação, acessibilidade, sinalização e integração entre empreendedores podem produzir efeitos relevantes na experiência do visitante.

Também é necessário profissionalizar a promoção. Fotos, informações atualizadas, horários de funcionamento, condições das estradas, formas de pagamento e regras de visitação são elementos básicos para reduzir incertezas e facilitar a decisão de viagem.

Estrutura ainda é um obstáculo

Apesar do potencial, muitos municípios ainda enfrentam limitações para transformar atrativos em produtos turísticos consolidados. Entre os problemas mais comuns estão a falta de leitos, a baixa oferta de alimentação fora dos fins de semana, a ausência de guias, a sinalização insuficiente e a dificuldade de acesso a áreas rurais.

Planos municipais de turismo elaborados em Santa Catarina registram desafios como a concentração do movimento nos fins de semana, a pouca diversidade de atividades e a necessidade de criar condições para que o turista permaneça mais tempo. Esses diagnósticos mostram que a existência de um atrativo natural ou cultural não garante, por si só, o desenvolvimento turístico.

Também é necessário estabelecer regras para preservar os locais visitados. O crescimento sem planejamento pode reduzir justamente a qualidade que atrai o público: silêncio, paisagem preservada, contato com a comunidade e sensação de exclusividade.

Por isso, o protagonismo dos pequenos municípios dependerá da capacidade de combinar promoção e planejamento. A ampliação da visibilidade precisa vir acompanhada de investimentos em mobilidade, saneamento, conectividade, segurança, formação profissional e proteção ambiental.

Uma nova geografia do turismo catarinense

O avanço dos pequenos municípios não elimina a importância dos destinos tradicionais, mas modifica a geografia do turismo em Santa Catarina. O visitante passa a encontrar mais opções fora dos grandes centros e pode montar viagens baseadas em temas, como gastronomia, aventura, religiosidade, ruralidade, cicloturismo ou observação da natureza.

Esse processo tende a beneficiar cidades que trabalham de forma integrada e conseguem transformar recursos locais em experiências organizadas. A conexão entre municípios, empresas e comunidades é o que permite ampliar a permanência do turista, distribuir a renda e reduzir a concentração do fluxo em poucos destinos.

Santa Catarina já possui uma das ofertas turísticas mais diversificadas do país. O desafio agora é fazer com que essa diversidade alcance também os municípios menores, sem descaracterizar suas paisagens e modos de vida. Se houver planejamento, qualificação e participação comunitária, o interior poderá deixar de ser apenas caminho para os grandes destinos e se tornar, cada vez mais, parte central da experiência de viajar pelo estado.