A imagem das rendeiras sentadas diante de uma almofada, movimentando pequenos bilros de madeira e cruzando fios com rapidez, faz parte da memória cultural do litoral de Santa Catarina. A renda de bilro, especialmente associada a comunidades da Ilha de Santa Catarina, em Florianópolis, é resultado de um saber transmitido principalmente entre mulheres e incorporado ao modo de vida de grupos de origem açoriana.
Mais do que um produto artesanal, a renda representa uma forma de organização do trabalho, uma fonte complementar de renda e um elo entre diferentes gerações. A atividade também se relaciona à história das comunidades pesqueiras, ao cotidiano doméstico e à transformação econômica provocada pelo crescimento urbano e turístico da capital catarinense. (ojs.sites.ufsc.br)
Uma tradição ligada à imigração açoriana
A renda de bilro chegou à Ilha de Santa Catarina associada à presença de imigrantes dos Açores, que se estabeleceram na região a partir do século XVIII. A técnica, porém, tem uma trajetória anterior à chegada ao Brasil. Pesquisas apontam que práticas semelhantes se desenvolveram na Europa e foram incorporadas ao repertório cultural português antes de alcançar o arquipélago dos Açores e, posteriormente, o litoral catarinense.
Por isso, a origem da renda de bilro não deve ser entendida como uma criação isolada de uma única comunidade. O que se consolidou em Santa Catarina foi uma forma local de praticar, ensinar e comercializar o artesanato, adaptada às condições sociais e econômicas das comunidades da ilha e de outras áreas do litoral. (floripaearendadebilro.paginas.ufsc.br)
Nas freguesias e povoados de influência açoriana, a confecção da renda passou a integrar o cotidiano das famílias. Enquanto os homens se dedicavam frequentemente à pesca e a outras atividades ligadas à subsistência, as mulheres produziam peças que podiam ser utilizadas em casa, trocadas ou vendidas. A atividade ajudava a reforçar o orçamento familiar em comunidades afastadas dos grandes centros comerciais.
Como é feita a renda de bilro
A produção começa com o desenho do motivo, conhecido como pique, que serve de orientação para o trabalho. O papel perfurado é colocado sobre uma almofada, onde alfinetes marcam os pontos que guiam o entrelaçamento dos fios. Presos aos bilros, os fios são cruzados e torcidos em movimentos sucessivos até formar desenhos, barras, flores, folhas e outros padrões.
Os bilros são pequenas peças de madeira usadas para conduzir os fios. A quantidade empregada varia conforme o desenho e a complexidade da renda. A rendeira precisa coordenar os movimentos das mãos, acompanhar a posição dos alfinetes e memorizar sequências que muitas vezes foram aprendidas pela observação de outras mulheres.
Esse domínio não se resume à repetição mecânica. Cada artesã desenvolve ritmo próprio, reconhece a tensão adequada dos fios e identifica os momentos de corrigir ou continuar a trama. O conhecimento é, em grande parte, prático e transmitido pelo convívio, com meninas e jovens aprendendo ao lado de mães, avós, tias e vizinhas.
A relação com as comunidades pesqueiras
Em Florianópolis, a renda de bilro se desenvolveu em comunidades tradicionalmente ligadas à pesca, como Lagoa da Conceição, Ponta do Sambaqui, Pântano do Sul, Rio Vermelho e Ponta das Canas. A proximidade entre o trabalho dos pescadores e o das rendeiras criou formas de sociabilidade que marcaram a vida local.
Uma expressão registrada em estudos sobre a tradição resume essa relação: “onde há rede, há renda”. A frase faz referência tanto às redes utilizadas na pesca quanto ao trabalho das mulheres com os fios. Enquanto os homens participavam da produção ou do conserto de redes, as mulheres se reuniam para confeccionar rendas, conversar e cantar.
Esses encontros também contribuíram para a preservação de cantos tradicionais, conhecidos como ratoeiras. As canções, transmitidas entre as participantes, guardam referências ao cotidiano, às relações afetivas, ao trabalho e à memória das comunidades. Assim, a renda de bilro não se limitou ao objeto produzido: ela esteve acompanhada de práticas coletivas, repertórios musicais e formas de convivência.
Trabalho feminino e complemento da renda familiar
Durante muito tempo, a renda foi descrita como uma atividade doméstica ou como parte do folclore local. Estudos históricos e antropológicos, porém, mostram que o trabalho das rendeiras teve peso econômico para muitas famílias. A venda das peças podia complementar os rendimentos obtidos com a pesca, a agricultura, o comércio e outras ocupações.
Em determinados períodos, a produção deixou de ser apenas uma fonte secundária e passou a responder por parte importante da manutenção dos domicílios. As mulheres controlavam os instrumentos de trabalho e, em muitos casos, também participavam da comercialização. Essa autonomia ajudou a manter a técnica dentro das famílias e favoreceu a transmissão do conhecimento entre gerações.
A valorização do artesanato, no entanto, conviveu com dificuldades. O tempo necessário para produzir uma peça nem sempre era compensado pelo valor recebido. A dependência de intermediários, a concorrência de produtos industrializados e a falta de reconhecimento do trabalho manual reduziram o retorno financeiro para muitas artesãs.
Avenida das Rendeiras e o impacto do turismo
O crescimento do turismo em Florianópolis transformou a relação entre a renda de bilro e o mercado. Na Lagoa da Conceição, a Avenida das Rendeiras tornou-se um dos principais espaços associados à exposição e à venda de peças. A presença de visitantes ampliou a visibilidade do artesanato e criou novas oportunidades de comercialização.
Ao mesmo tempo, a expansão turística abriu caminhos profissionais mais rentáveis para as novas gerações. Muitas jovens passaram a priorizar os estudos ou a buscar empregos ligados ao comércio, aos serviços e à atividade turística. Com isso, a renda deixou de ocupar o mesmo espaço na rotina de parte das famílias, e o grupo de artesãs passou a ser formado principalmente por mulheres mais velhas e por aposentadas que mantêm a prática como trabalho, lazer ou forma de preservar a memória comunitária.
Pesquisas realizadas em Florianópolis identificaram iniciativas de capacitação, organização de grupos e diversificação de produtos como estratégias para aproximar as rendeiras dos consumidores. Também foram desenvolvidas ações voltadas à valorização da origem das peças e à redução da dependência de intermediários. (floripaearendadebilro.paginas.ufsc.br)
Os desafios para manter a tradição
O principal desafio enfrentado pelas rendeiras é a transmissão do saber-fazer. A técnica exige tempo, atenção e acompanhamento de uma artesã experiente. Em um contexto marcado por mudanças no mercado de trabalho e pela redução do interesse dos jovens por atividades de baixo retorno financeiro, a continuidade do ofício depende de iniciativas que combinem preservação cultural e sustentabilidade econômica.
Outro obstáculo é a associação da renda exclusivamente ao passado. Quando o artesanato é tratado apenas como atração turística ou peça decorativa, corre-se o risco de ocultar a trajetória das mulheres que produziram e comercializaram as peças ao longo de décadas. A renda também pode ser aplicada a roupas, acessórios, objetos de decoração, enxovais e outros produtos, desde que a adaptação preserve a técnica e reconheça o trabalho envolvido.
Projetos de oficinas, registros de memória, exposições e ações educativas podem aproximar crianças e adolescentes das rendeiras. A transmissão, contudo, não depende apenas de ensinar os movimentos dos bilros. É necessário apresentar a história das comunidades, o significado dos desenhos, o papel econômico desempenhado pelas artesãs e a relação entre a renda, a pesca e a cultura açoriana.
Patrimônio vivo do litoral catarinense
A tradição das rendeiras de Santa Catarina permanece ligada à capacidade de reinventar uma prática antiga sem romper com seus fundamentos. A renda de bilro pode ocupar novos espaços, alcançar consumidores por diferentes canais e dialogar com o design contemporâneo, mas continua dependendo do domínio manual e da memória acumulada pelas artesãs.
Na Ilha de Santa Catarina, a permanência da atividade revela como o patrimônio cultural é construído no cotidiano. Ele não está apenas em prédios históricos, festas ou documentos, mas também nos gestos repetidos diante da almofada, nos desenhos passados de uma geração a outra e nas conversas que acompanham o trabalho.
Preservar as rendeiras significa reconhecer a renda de bilro como parte da história social do litoral catarinense. Significa também garantir que as artesãs sejam vistas não apenas como personagens de uma tradição, mas como trabalhadoras que mantêm vivo um conhecimento complexo, associado à identidade, à autonomia econômica e à memória de suas comunidades.