O turismo de inverno na Serra Catarinense movimentou a economia regional durante a temporada de 2025, com impacto direto em hotéis, pousadas, restaurantes, vinícolas, lojas e serviços ligados a passeios e experiências de natureza. O frio intenso, a ocorrência de geadas e a possibilidade de neve continuam entre os principais fatores que atraem visitantes, mas a região também amplia sua oferta com gastronomia, enoturismo, aventura e turismo rural.
Dados da pesquisa Temporada de Inverno na Serra Catarinense 2025, realizada pela Fecomércio-SC, indicam que o gasto médio total por grupo chegou a R$ 3.550. O valor representa alta real de 26% em relação ao ano anterior, já descontada a inflação medida pelo IPCA.
O levantamento ouviu turistas e visitantes que circularam por municípios da região, além de empresários do comércio e dos serviços. O estudo apontou que 95% dos visitantes consumiram em estabelecimentos de alimentação e 83% fizeram compras no comércio local. Os números ajudam a explicar por que o inverno se tornou um dos períodos mais importantes do calendário econômico da Serra.
Frio ainda é o principal motivo da viagem
O turismo de inverno foi citado como principal motivação por 48% dos visitantes entrevistados. Em seguida apareceram o turismo de lazer, com 31,9%, e o ecoturismo, mencionado por 13,4% dos participantes.
A busca pelas baixas temperaturas concentra parte importante do movimento em cidades conhecidas pelo clima rigoroso, como São Joaquim, Urubici, Urupema e Bom Jardim da Serra. Em determinados períodos, a combinação de ar frio, umidade e altitude favorece a formação de geada e, ocasionalmente, a ocorrência de neve.
A neve, no entanto, é um fenômeno eventual e não pode ser garantida em uma viagem. Mesmo assim, a expectativa de encontrar paisagens congeladas ou temperaturas negativas influencia o planejamento de muitos visitantes, especialmente os que vivem em cidades próximas e fazem deslocamentos de curta duração.
A pesquisa identificou o aumento de dois pontos percentuais na presença de excursionistas em comparação com 2024. São visitantes que não pernoitam na região e costumam fazer viagens de ida e volta no mesmo dia. Entre eles estão os chamados “caçadores de neve”, grupos formados principalmente por familiares e amigos que viajam em busca de condições favoráveis para observar o fenômeno.
Segundo o estudo, esses grupos gastaram, em média, R$ 840 com restaurantes, cafés e compras no comércio. Embora permaneçam menos tempo, ajudam a movimentar os estabelecimentos localizados em áreas centrais, mirantes e acessos a atrações turísticas.
Urubici concentra hospedagens e atrativos naturais
Urubici foi a cidade mais procurada para hospedagem entre os visitantes que participaram da pesquisa, com 53,6% das escolhas. São Joaquim e Lages apareceram na sequência, ambas com 17,6%.
O município de Urubici reúne alguns dos atrativos naturais mais conhecidos da Serra Catarinense. Entre eles estão o Morro da Igreja, a Serra do Corvo Branco, a Cascata do Avencal, o Morro do Campestre e a Cascata Véu de Noiva.
Na lista dos dez pontos turísticos mais citados em 2025, o Morro da Igreja ocupou a primeira posição, com 8,3% das menções. A Serra do Corvo Branco apareceu com 7,2%, seguida pela Serra do Rio do Rastro, com 6,6%, e pela Cascata do Avencal, com 6%.
A concentração de atrativos naturais favorece a permanência de visitantes por mais de um dia e amplia a procura por guias, agências, passeios de aventura, restaurantes e hospedagens alternativas. A região oferece trilhas, mirantes, cânions, cachoeiras e atividades que dependem das condições climáticas e das regras de acesso de cada local.
O levantamento mostrou que 40,9% dos visitantes hospedados em Urubici optaram por imóveis de temporada. A participação de hotéis e estabelecimentos similares foi de 53,8%. A combinação entre hotelaria tradicional, chalés e casas alugadas diversifica a oferta e atende perfis distintos de viajantes.
São Joaquim reforça o enoturismo e a gastronomia
São Joaquim mantém a imagem de destino associado ao frio, às geadas e à produção de maçãs, mas também vem fortalecendo a atividade turística ligada aos vinhos de altitude. Vinícolas e vinhedos passaram a integrar de forma mais frequente os roteiros de visitantes interessados em degustações, visitas guiadas e experiências gastronômicas.
De acordo com a pesquisa da Fecomércio-SC, 11,9% dos visitantes citaram vinícolas e vinhedos entre as atrações procuradas. O resultado indica a relevância do enoturismo para a diversificação da economia regional, especialmente fora do consumo concentrado em paisagens e fenômenos climáticos.
A Praça João Ribeiro, em São Joaquim, também esteve entre os pontos de lazer mais lembrados. A cidade registrou preferência maior por hotéis: 63,9% dos turistas hospedados no município escolheram esse tipo de acomodação, enquanto 21,3% optaram por imóveis de temporada.
Além dos vinhos, a gastronomia serrana é impulsionada por produtos como pinhão, queijos artesanais, embutidos, doces, cafés e alimentos coloniais. Esses itens aparecem tanto em restaurantes e cafeterias quanto em lojas de produtos típicos, criando oportunidades para pequenos produtores e empreendedores locais.
Bom Jardim da Serra combina paisagem e clima de montanha
Bom Jardim da Serra integra o circuito de destinos procurados durante o inverno por causa da altitude, das paisagens de campos e cânions e da proximidade com a Serra do Rio do Rastro. A rodovia, conhecida pelos mirantes e pelas curvas entre paredões, está entre os cartões-postais mais associados à região.
O município também investe em ambientações e programações temáticas para valorizar a estação. O chamado Jardim de Inverno foi criado em 2016 por iniciativa da Associação Bonjardinense de Turismo e passou a fazer parte da identidade turística local.
Além das atrações naturais, a cidade oferece hospedagem, gastronomia e experiências relacionadas ao turismo rural. A proposta é fazer com que o visitante permaneça mais tempo no destino e consuma serviços locais, em vez de apenas atravessar o município em direção a outros pontos da serra.
A valorização de cenários urbanos, produtos regionais e eventos sazonais mostra uma estratégia adotada por diferentes cidades catarinenses: transformar o frio em uma experiência turística completa. O clima é o elemento de atração, mas a permanência depende da combinação entre estrutura, atendimento, alimentação e variedade de atividades.
Gasto maior beneficia diferentes setores
A hospedagem foi a principal despesa dos grupos de turistas, com média de R$ 1.547. Alimentação e bebidas responderam por R$ 1.195, enquanto lazer e diversão somaram R$ 607. As compras no comércio local alcançaram R$ 440 e o transporte representou R$ 362.
O crescimento dos gastos foi mais expressivo em lazer e alimentação. As despesas com lazer aumentaram 37% em relação a 2024, enquanto a alimentação avançou 27%. Já o gasto com hospedagem cresceu 1%, resultado que pode estar relacionado à ampliação da oferta de imóveis para locação por temporada.
O impacto também apareceu nos negócios. Quinze por cento das empresas consultadas fizeram contratações extras para atender à demanda do inverno. Cada estabelecimento que contratou adicionou, em média, 1,9 funcionário à equipe.
Na comparação com os meses regulares de 2025, o faturamento total das empresas pesquisadas foi 14,3% maior durante a temporada. Bares e restaurantes tiveram alta de 19,4% nessa comparação, enquanto hotéis e pousadas registraram aumento de 19,3%.
Quando o resultado é comparado diretamente ao inverno de 2024, o cenário é mais heterogêneo. O faturamento total ficou praticamente estável, com variação positiva de 0,1%. Hotéis e pousadas registraram queda de 9%, enquanto lojas de produtos típicos, vinhos, presentes e souvenirs tiveram alta de 7,6%.
Perfil dos visitantes muda e amplia o alcance do destino
A Serra Catarinense continua recebendo principalmente turistas brasileiros, mas a participação de visitantes de outros estados cresceu de 37% em 2024 para 39,4% em 2025. Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo foram os principais mercados emissores fora de Santa Catarina.
A maior parte dos visitantes, 86,1%, utilizou veículo próprio. Entre os turistas que pernoitaram, a distância média percorrida foi de 490 quilômetros. Já os excursionistas viajaram, em média, 205 quilômetros, perfil compatível com deslocamentos regionais e viagens de curta duração.
O avião foi utilizado por 7,2% dos visitantes, mas esse grupo apresentou gasto médio de R$ 5.995 por viagem e permanência média de quatro dias. O dado sugere que a conectividade aérea pode ampliar o alcance da Serra Catarinense para turistas que vivem mais distante.
Famílias representaram 48% dos grupos de viagem, e casais corresponderam a 37,1%. A permanência média na região foi de 3,4 dias. O perfil indica que a Serra vem sendo procurada tanto para escapadas de fim de semana quanto para viagens planejadas com roteiros de natureza, gastronomia e hospedagem.
Desafios para manter o crescimento
Apesar do desempenho positivo, a temporada também expôs desafios para o setor. A taxa de ocupação dos leitos caiu para 58,3% em 2025, ante 70,9% no ano anterior. Ao mesmo tempo, o tíquete médio da hospedagem subiu para R$ 781.
O resultado mostra que o aumento do consumo não ocorreu necessariamente por meio de uma ocupação maior dos hotéis. A expansão dos imóveis de temporada e a concorrência entre diferentes modalidades de hospedagem alteraram a distribuição da demanda.
Outro ponto é a dependência de fatores climáticos. A previsão de frio intenso ou neve pode provocar picos de movimento, enquanto períodos de temperaturas mais amenas tendem a reduzir a procura imediata. Para diminuir essa oscilação, municípios e empresas precisam promover atrativos que funcionem durante todo o ano.
A consolidação do enoturismo, do turismo de aventura, dos roteiros rurais e da gastronomia regional pode ajudar a ampliar a temporada. A oferta de experiências diversificadas também reduz a concentração de visitantes em poucos pontos e favorece a distribuição dos benefícios econômicos entre diferentes cidades.
Com paisagens de altitude, produção de vinhos, culinária típica e atividades ao ar livre, a Serra Catarinense transformou o inverno em um produto turístico de alcance nacional. Os dados de 2025 mostram uma região capaz de atrair mais visitantes de fora do estado e gerar gastos relevantes, mas também indicam que a continuidade desse crescimento depende de infraestrutura, qualificação dos serviços, organização dos acessos e planejamento para os períodos de maior demanda.