terça-feira, 29 de setembro de 2026
MANCHETES

Turismo gastronômico em Santa Catarina revela sabores tradicionais e identidades regionais

O turismo gastronômico em Santa Catarina transforma pratos tradicionais, ingredientes regionais e modos de fazer em experiências de viagem. A diversidade culinária do estado aparece em receitas de frutos do mar, polenta, embutidos, cucas, queijos, vinhos, erva-mate e produtos da agricultura familiar.

O turismo gastronômico em Santa Catarina revela um estado formado por diferentes paisagens, povos e modos de vida. No litoral, peixes, ostras, camarões, tainha e farinha de mandioca aparecem em receitas relacionadas à pesca artesanal e à herança açoriana. No interior, polenta, massas, embutidos, cucas, queijos, vinhos, maçãs, pinhão e erva-mate expressam a presença de comunidades de origem italiana, alemã, austríaca, polonesa e ucraniana.

Mais do que provar um prato, o visitante encontra histórias de famílias, técnicas transmitidas entre gerações, festas comunitárias, propriedades rurais, mercados, restaurantes e pequenas agroindústrias. Essa combinação faz da alimentação uma das principais portas de entrada para conhecer a cultura catarinense. Estudos e publicações da Epagri apontam que alimentos como pães, bolos, cucas, biscoitos, geleias, queijos, cachaças, mel, melado, vinhos e embutidos representam características específicas de diferentes regiões do estado. (publicacoes.epagri.sc.gov.br)

Uma cozinha marcada pela diversidade cultural

A gastronomia de Santa Catarina não se resume a uma única tradição. Ela foi construída a partir do encontro entre povos indígenas, colonizadores portugueses, imigrantes europeus e comunidades que adaptaram receitas às condições locais. Ingredientes disponíveis em cada território, como milho, mandioca, peixe, carne suína, trigo, frutas e ervas, ajudaram a formar preparos que permanecem presentes na alimentação cotidiana.

No litoral, a influência açoriana pode ser percebida no uso de pescados, frutos do mar e farinha de mandioca. Pratos como caldos, ensopados, pirões e preparações à base de peixe se relacionam à vida das comunidades costeiras. A tainha, por exemplo, ocupa um espaço importante na memória e na economia de localidades litorâneas. Em Bombinhas, uma rota gastronômica dedicada ao peixe associou restaurantes, pesca artesanal e cultura local em uma experiência voltada aos visitantes. (alesc.sc.gov.br)

A culinária do litoral também está ligada a festas religiosas, celebrações comunitárias e encontros familiares. Na Ilha de Santa Catarina, receitas tradicionais foram preservadas mesmo com a modernização da oferta gastronômica. Publicação sobre a cultura alimentar da capital destaca que a cozinha local resultou de uma evolução marcada por elementos portugueses, indígenas e de outras influências culturais. (saq.sc.gov.br)

Frutos do mar e pesca artesanal no litoral

Em cidades costeiras, o turismo gastronômico costuma começar pela relação entre o alimento e o território. A visita a um restaurante especializado em pescado pode ser complementada por experiências em mercados, comunidades pesqueiras, fazendas marinhas e festas tradicionais. O objetivo não é apenas consumir o produto, mas compreender a origem do ingrediente, a sazonalidade e o trabalho envolvido em sua produção.

A tainha é um dos exemplos mais conhecidos dessa conexão. A pesca artesanal do peixe envolve técnicas, equipamentos, observação do mar e conhecimentos transmitidos entre gerações. Quando chega à mesa, pode ser preparada assada, frita, ensopada ou acompanhada de pirão, conforme os costumes de cada comunidade. O roteiro gastronômico, nesse caso, aproxima o visitante dos ranchos de pesca, das canoas e das histórias que cercam a atividade.

Outro destaque é a produção de ostras e mariscos, especialmente na Grande Florianópolis. Esses produtos são utilizados em restaurantes, eventos e experiências voltadas à culinária local. A presença de ingredientes marinhos em pratos tradicionais e contemporâneos mostra como a gastronomia catarinense preserva referências antigas sem deixar de incorporar novas formas de preparo.

Vale do Itajaí preserva sabores de origem alemã

No Vale do Itajaí, a herança alemã aparece em receitas, técnicas de panificação, bebidas e pratos associados a festas típicas. A cuca, feita com massa fermentada e cobertura que pode levar farofa, frutas ou outros ingredientes, tornou-se um dos símbolos dessa influência. O marreco recheado com repolho roxo também é citado entre os pratos tradicionais da região, especialmente em eventos gastronômicos.

Blumenau, Pomerode, Brusque e outros municípios do Vale do Itajaí apresentam uma oferta que combina restaurantes, confeitarias, cervejarias, festas e produtos coloniais. A culinária é frequentemente apresentada junto com a arquitetura, a música, os trajes e os costumes das comunidades de origem germânica. Dessa forma, o visitante não encontra apenas uma refeição, mas um conjunto de manifestações culturais relacionadas.

As festas gastronômicas desempenham papel relevante nesse processo. Elas reúnem preparações típicas, produtores, cozinheiros, grupos culturais e público de diferentes regiões. Além de movimentar o turismo, esses eventos ajudam a manter receitas conhecidas pelas famílias e ampliam a visibilidade de ingredientes produzidos localmente.

Polenta, massas e produtos coloniais no Sul

Nas áreas de colonização italiana do Sul catarinense, a polenta, as massas, os molhos, os embutidos e os queijos aparecem como elementos centrais da mesa. Nova Veneza é reconhecida pelo governo estadual como referência da gastronomia italiana em Santa Catarina. A cidade mantém eventos, restaurantes e manifestações culturais que associam a culinária à memória dos imigrantes e à identidade local. (setur.sc.gov.br)

Um exemplo dessa permanência é a minestra, receita associada à cozinha dos imigrantes italianos e às estratégias de aproveitamento de ingredientes. Em Nova Veneza, o prato é apresentado como parte da história de famílias que chegaram ao Sul do estado e adaptaram seus hábitos alimentares à nova realidade. A receita atravessou gerações e passou a ser tratada como patrimônio cultural da comunidade. (alesc.sc.gov.br)

Em municípios como Treze de Maio, ações de valorização da culinária italiana também relacionam receitas familiares, agricultura e memória. Uma iniciativa realizada no município reuniu preparações transmitidas entre gerações e buscou destacar a gastronomia como expressão da cultura local. O projeto também valorizou produtos da agricultura familiar e os relatos afetivos ligados aos pratos. (blog.epagri.sc.gov.br)

Serra, planalto e os sabores do frio

Na Serra Catarinense e no planalto, o clima e a produção rural influenciam a alimentação. O pinhão, semente da araucária, é um dos ingredientes mais associados à região e pode ser consumido cozido, assado ou utilizado em farofas, sopas, risotos e outras receitas. O produto também aparece em festas e eventos que valorizam a cultura serrana.

A maçã, especialmente em municípios produtores, é utilizada em tortas, geleias, doces, purês e sobremesas. Vinhos, sucos, queijos, mel e embutidos completam a oferta de produtos que podem ser encontrados em propriedades rurais, lojas especializadas e empreendimentos de turismo rural. A experiência permite observar etapas da produção e conhecer a relação entre o alimento e o ambiente em que é cultivado.

O turismo gastronômico nessa área costuma estar associado a hospedagens rurais, cafés coloniais, roteiros de vinícolas, visitas a produtores e passeios por estradas cênicas. A comida aparece como parte de uma experiência mais ampla, que inclui paisagem, hospitalidade e contato com práticas agrícolas.

Erva-mate e tradições do Planalto Norte

No Planalto Norte Catarinense, a erva-mate está ligada à economia, à paisagem e aos costumes de várias comunidades. A produção pode envolver métodos artesanais e industriais, enquanto o consumo do chimarrão permanece associado à convivência e às memórias familiares. Roteiros relacionados à erva-mate apresentam o cultivo, o processamento, o preparo da bebida e os usos gastronômicos do produto.

Uma experiência divulgada pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina percorreu a chamada Rota da Erva-Mate e destacou a relação entre produção artesanal, fogão a lenha, indústria e gastronomia. A proposta mostra como um ingrediente pode funcionar como eixo de interpretação do território, conectando história, trabalho e hábitos cotidianos. (alesc.sc.gov.br)

A região também preserva receitas ligadas às comunidades polonesas e ucranianas. Em Itaiópolis, por exemplo, preparações como pirogue, broa, aluske e korovai são apresentadas como parte da tradição dos imigrantes e da cultura local. Esses alimentos aparecem em festas, encontros familiares e estabelecimentos que mantêm modos de preparo transmitidos ao longo do tempo. (turismo.itaiopolis.sc.gov.br)

Indicações geográficas valorizam origem e qualidade

Outro aspecto do turismo gastronômico em Santa Catarina é a valorização de produtos com reconhecimento de origem. As Indicações Geográficas ajudam a associar determinados alimentos e bebidas ao território onde são produzidos, levando em conta características, reputação, métodos de produção ou tradição.

Esse tipo de reconhecimento pode fortalecer a relação entre produtores, consumidores e destinos turísticos. Para o visitante, o produto deixa de ser apenas uma mercadoria e passa a representar uma área específica, suas condições naturais e os conhecimentos envolvidos na produção. A Secretaria de Estado do Turismo destaca a existência de produtos catarinenses com selo de Indicação Geográfica e relaciona esses itens à cultura regional e às heranças da imigração. (setur.sc.gov.br)

Na prática, a visita a uma propriedade, vinícola, queijaria, cervejaria ou agroindústria pode ampliar a compreensão sobre o alimento. Degustações, explicações sobre os processos e contato com os produtores contribuem para uma experiência mais completa e também podem gerar renda para comunidades locais.

Gastronomia como patrimônio e atividade turística

A valorização da culinária catarinense ganhou reconhecimento institucional. Em 2026, uma lei estadual reconheceu a relevância social, cultural e econômica dos profissionais de cozinha e estabeleceu entre seus objetivos a valorização da cultura alimentar, dos saberes tradicionais e da gastronomia como vetor de desenvolvimento turístico, social e econômico. (leis.alesc.sc.gov.br)

A criação de espaços de formação também integra esse movimento. Em Florianópolis, o restaurante-escola Origens/SC foi implantado em parceria entre a Assembleia Legislativa e o Senac-SC com a proposta de unir qualificação profissional, inclusão social e valorização de sabores de diferentes regiões do estado. (alesc.sc.gov.br)

Essas iniciativas indicam que a gastronomia pode atuar em várias frentes: preservação de receitas, formação profissional, fortalecimento da agricultura familiar, geração de renda e diversificação da oferta turística. Para que esse processo seja sustentável, é importante que os benefícios alcancem produtores, trabalhadores, comunidades tradicionais e pequenos empreendimentos.

Como vivenciar os sabores catarinenses

Quem deseja conhecer a gastronomia de Santa Catarina pode organizar a viagem a partir de uma região ou de um ingrediente. No litoral, o roteiro pode incluir peixes, frutos do mar, ostras e pratos ligados à pesca artesanal. No Vale do Itajaí, a programação pode combinar cafés coloniais, cervejas, cucas e festas tradicionais. No Sul, a experiência pode passar por restaurantes de culinária italiana, polenta, massas e produtos coloniais. Na serra e no planalto, vinhos, maçãs, pinhão, queijos, embutidos e erva-mate ajudam a apresentar a diversidade do estado.

Também é recomendável verificar previamente os períodos de funcionamento de festas, propriedades e roteiros, já que algumas experiências dependem da safra, da temporada de pesca ou de calendários municipais. Ao visitar produtores, o turista deve respeitar regras de acesso, horários e orientações sanitárias.

O turismo gastronômico em Santa Catarina se consolida, assim, como uma forma de viajar pela memória e pelo território. Cada prato reúne ingredientes, técnicas e histórias. Ao valorizar essas referências, o visitante conhece uma dimensão do estado que vai além das paisagens: a cultura construída em torno da mesa.