O turismo no interior de Santa Catarina passa por uma fase de diversificação. Além dos destinos tradicionais de serra, das festas típicas e das áreas de natureza, municípios de diferentes regiões do Estado estão criando ou estruturando novas atrações para ampliar a permanência dos visitantes e movimentar a economia durante todo o ano.
A estratégia inclui roteiros de cicloturismo, caminhos religiosos, parques urbanos, espaços de convivência, experiências gastronômicas e atividades ligadas à produção rural. Em vez de depender apenas de um ponto turístico isolado, as cidades buscam organizar conjuntos de atrações capazes de formar roteiros de curta duração ou integrar municípios vizinhos.
O movimento também responde à procura por viagens com menor concentração de pessoas, contato com a natureza e experiências associadas à cultura local. No interior catarinense, essa oferta combina paisagens serranas, áreas rurais, patrimônio histórico, tradições de imigração e produtos regionais.
Novos roteiros tentam integrar municípios
Uma das principais tendências é a criação de roteiros regionais. A proposta é fazer com que o visitante não permaneça em apenas uma cidade, mas circule por diferentes municípios, consuma em restaurantes, utilize serviços de hospedagem e conheça produtores, museus, trilhas e espaços culturais.
No Vale Europeu, o Consórcio Intermunicipal do Médio Vale do Itajaí trabalha na implementação de um novo circuito de cicloturismo. O trajeto foi planejado de forma integrada entre os municípios e prevê sinalização, definição de pontos estratégicos e conexão entre natureza, cultura e preservação da Mata Atlântica. O projeto foi apresentado como uma nova atração turística regional, com previsão inicial de lançamento para abril de 2026.
A iniciativa se soma a circuitos já conhecidos no Estado, como o Circuito das Araucárias, que passa por municípios do Norte catarinense, entre eles São Bento do Sul, Corupá, Campo Alegre e Rio Negrinho. Esses roteiros utilizam estradas rurais, áreas de mata, cachoeiras e paisagens de montanha para atrair ciclistas com diferentes níveis de experiência.
Segundo a Secretaria de Estado do Turismo, Santa Catarina também reúne opções de cicloturismo na Serra, no Vale Europeu e na região de Lages. A modalidade é associada ao turismo de natureza e permite distribuir o fluxo de visitantes por áreas rurais que nem sempre fazem parte dos roteiros convencionais. (cimvi.sc.gov.br)
Oeste amplia oferta com turismo urbano e religioso
No Oeste catarinense, Chapecó tem criado novas alternativas para complementar o turismo de negócios e os eventos que já movimentam a cidade. Em dezembro de 2025, foi inaugurado o Boulevard Rodolfo Maurício Hirsch, uma área revitalizada de 378 metros no Centro. O espaço passou a reunir arquitetura, mobiliário urbano, áreas de convivência, gastronomia e apresentações culturais.
A revitalização transforma uma área central em ponto de encontro para moradores e visitantes. Esse tipo de equipamento não depende de uma temporada específica e pode ser utilizado em diferentes horários, favorecendo o comércio e a circulação de pessoas no centro da cidade.
Outro projeto anunciado em Chapecó é o Caminho da Gruta – Passos de Santa Bernardette, um roteiro de turismo religioso que deverá ligar a Catedral Santo Antônio à Gruta de Sede Figueira. A proposta prevê um percurso de 29 quilômetros e oito pontos de parada. O roteiro ainda estava em fase de estruturação, em parceria com o Sebrae e instituições religiosas, quando foi apresentado em abril de 2026.
A ideia é transformar uma atração natural e religiosa já existente em uma experiência organizada, com etapas definidas e conexão entre patrimônio, caminhada e espiritualidade. O modelo segue uma tendência de municípios que estruturam caminhos temáticos para estimular visitas de um dia ou viagens de fim de semana.
O projeto faz parte do programa Desbrave Chapecó, que também reúne empreendimentos e roteiros voltados ao turismo rural, à gastronomia e à natureza. A prefeitura informou que a iniciativa vinha sendo ampliada com a participação de novos empreendimentos locais. (chapeco.sc.gov.br)
Serra aposta em experiências além do frio
Na Serra Catarinense, o frio continua sendo um dos principais atrativos, mas os municípios tentam ampliar a oferta para reduzir a dependência do inverno. Vinhos de altitude, gastronomia, turismo rural, trilhas, cânions, cachoeiras e hospedagens em áreas de campo passaram a compor uma agenda mais ampla.
Urubici, São Joaquim e Bom Jardim da Serra são divulgadas pelo Estado como cidades associadas ao clima de montanha, às paisagens naturais e à produção de vinhos. A região também é procurada por visitantes interessados em trilhas, mirantes e experiências em propriedades rurais.
Em 2026, o Governo de Santa Catarina voltou a promover a Estação Inverno, com abertura em Bom Jardim da Serra. A campanha estadual foi apresentada como uma ação para fortalecer o posicionamento da serra como destino turístico e divulgar roteiros ligados à gastronomia, à cultura e às paisagens da região.
O desafio, porém, é fazer com que a visita não se concentre apenas nos dias de temperaturas mais baixas. A oferta de vinícolas, pousadas, restaurantes, eventos e atividades ao ar livre ajuda a construir alternativas para o outono, a primavera e o verão, quando o perfil do visitante pode ser diferente.
A Secretaria de Estado do Turismo destaca que a Serra reúne vinícolas com visitas guiadas e degustações, além de cânions, cachoeiras e trilhas. A combinação permite vender a região não apenas como destino de frio, mas como área de natureza e gastronomia durante diferentes períodos do ano. (setur.sc.gov.br)
Cultura e identidade regional viram produtos turísticos
Outra frente de expansão é o aproveitamento da identidade cultural dos municípios. Arquitetura, culinária, festas, religiosidade e tradições trazidas por imigrantes passam a ser organizadas como experiências para visitantes.
No Vale Europeu e no Norte catarinense, roteiros relacionados à cultura germânica combinam construções históricas, museus, cervejarias, gastronomia e caminhos rurais. No Sul do Estado, cidades de colonização italiana utilizam festas, restaurantes e produtos típicos para reforçar a presença da cultura local na atividade turística.
O mesmo ocorre em municípios do Meio-Oeste, onde a história da colonização, a produção agropecuária e as paisagens rurais podem formar roteiros integrados. Em vez de apresentar apenas um monumento ou evento, as cidades procuram oferecer uma narrativa sobre o território e suas formas de ocupação.
A criação da Rota Turística Imperial Caminho dos Príncipes também reforça esse modelo de integração. O roteiro reúne municípios do Norte e do Nordeste catarinense e pretende conectar experiências históricas, culturais, religiosas, gastronômicas, náuticas e de natureza. A proposta inclui cidades serranas e áreas do interior, ampliando a circulação de visitantes fora dos destinos mais conhecidos.
Na avaliação de órgãos públicos e entidades regionais, a integração favorece municípios menores, que muitas vezes não têm estrutura para competir individualmente na divulgação turística. A atuação conjunta pode facilitar a promoção, a sinalização e a criação de pacotes com mais de uma parada. (melhoresdestinos.com.br)
Espaços públicos também entram no roteiro
Nem toda nova atração depende de grandes empreendimentos. Praças, parques, boulevards, áreas de lazer e espaços culturais revitalizados também passaram a ser tratados como equipamentos turísticos, especialmente em cidades médias do interior.
Em Chapecó, o EcoParque reúne lagos, pista de caminhada, decks, parque infantil, espaço cultural, café, loja de artesanato e áreas de ginástica. O parque também conta com um chafariz iluminado e musical, apresentado pela prefeitura como uma das atrações do espaço.
Equipamentos desse tipo ajudam a ampliar o tempo de permanência do visitante e oferecem opções para famílias, idosos e pessoas que não pretendem fazer trilhas ou atividades de aventura. Também funcionam como pontos de convivência para a população local, o que aumenta o uso durante todo o ano.
Para os municípios, a vantagem é associar turismo e qualidade urbana. Uma área central revitalizada ou um parque bem estruturado pode atender moradores durante a semana e receber visitantes em fins de semana, feriados e períodos de eventos.
Essa estratégia também reduz a dependência de atrações naturais que podem ter acesso limitado por condições climáticas, necessidade de preservação ou falta de estrutura para receber grandes grupos.
Desafio é crescer sem perder o controle
A expansão do turismo cria oportunidades, mas também exige planejamento. O aumento do fluxo pode pressionar estradas, estacionamentos, saneamento, coleta de resíduos, sinalização e serviços de atendimento. Em áreas naturais, a falta de controle pode provocar danos ambientais e comprometer justamente o recurso que atrai os visitantes.
Outro ponto é garantir que a renda permaneça nos municípios. Para isso, a criação de uma atração precisa ser acompanhada pelo fortalecimento de restaurantes, hospedagens, guias, produtores rurais, artesãos e empresas de transporte. Sem essa rede, o visitante pode passar rapidamente pelo local sem gerar impacto significativo na economia.
A qualificação profissional também se torna necessária. Informações sobre horários, acessibilidade, segurança, formas de pagamento e condições das estradas precisam estar disponíveis antes e durante a viagem. A experiência do visitante depende tanto do atrativo quanto da organização do destino.
O interior de Santa Catarina possui uma vantagem competitiva relacionada à diversidade. Em um mesmo Estado, o turista pode encontrar serras, vales, áreas rurais, rios, cachoeiras, patrimônio histórico, gastronomia e manifestações religiosas. O desafio é transformar essa variedade em roteiros claros, acessíveis e sustentáveis.
Interiorização pode reduzir a sazonalidade
Ao investir em novas atrações, as cidades do interior tentam participar de um mercado que ainda é fortemente associado ao litoral e à temporada de verão. A criação de produtos turísticos para diferentes públicos pode distribuir melhor o movimento ao longo do calendário.
Famílias podem ser atraídas por parques e espaços de convivência. Ciclistas procuram rotas sinalizadas e paisagens rurais. Visitantes interessados em gastronomia buscam vinícolas, restaurantes e produtores. Peregrinos e turistas religiosos procuram caminhos estruturados. Já os viajantes em busca de natureza se interessam por trilhas, cachoeiras e mirantes.
Essa segmentação permite que municípios menores encontrem nichos próprios e estabeleçam parcerias regionais. O resultado esperado é um turismo menos concentrado, com maior permanência e geração de renda em diferentes épocas do ano.
As novas atrações não substituem os pontos turísticos tradicionais de Santa Catarina. Elas ampliam o mapa de possibilidades e ajudam a revelar cidades que, até pouco tempo, eram vistas apenas como passagem. Para consolidar esse movimento, será necessário manter investimentos, divulgar os roteiros e assegurar que o crescimento acompanhe a preservação ambiental e a participação das comunidades locais.