Joaçaba ocupa uma posição singular no Meio-Oeste de Santa Catarina. Com pouco mais de 30 mil habitantes no Censo 2022, o município exerce influência regional por meio de atividades culturais, serviços, educação, saúde, comércio e eventos. Entre essas frentes, o Carnaval se tornou a principal vitrine pública da cidade e passou a ocupar um lugar estratégico na promoção do turismo e da economia criativa.
A força da festa ajudou a consolidar uma identidade própria para Joaçaba. Em dezembro de 2024, a Lei estadual nº 19.126 reconheceu oficialmente o município como Capital Catarinense do Carnaval. O título formalizou uma característica que já vinha sendo construída por décadas, com a participação de escolas de samba, artistas, trabalhadores da cultura, entidades comunitárias, empresas e órgãos públicos. (leis.alesc.sc.gov.br)
Uma cidade com papel regional
Joaçaba está inserida em uma área do estado marcada pela presença de municípios de pequeno e médio porte, pela produção agroindustrial e pela circulação de pessoas em busca de serviços especializados. A cidade também é sede da Região Metropolitana do Contestado, conforme a legislação estadual, o que reforça sua posição institucional no Meio-Oeste catarinense. (leis.alesc.sc.gov.br)
Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ajudam a dimensionar o município. O Censo 2022 registrou 30.146 moradores, enquanto a estimativa populacional indicada pelo IBGE para 2026 chega a 32.103 habitantes. O PIB per capita informado pelo instituto para 2023 foi de R$ 91.372,46. Esses números não explicam sozinhos a dinâmica regional, mas mostram uma cidade com atividade econômica e capacidade de atração superiores às de um centro exclusivamente local. (ibge.gov.br)
Essa centralidade aparece em diferentes áreas. Joaçaba reúne instituições de ensino, rede de saúde, comércio diversificado, serviços profissionais e estrutura para receber eventos. Ao lado de Herval d’Oeste e de outros municípios próximos, forma um eixo urbano que concentra atividades e amplia a circulação regional.
O Carnaval como patrimônio cultural
O Carnaval de Joaçaba e Herval d’Oeste é resultado de uma construção coletiva. A festa reúne escolas de samba, blocos, músicos, intérpretes, coreógrafos, costureiras, aderecistas, cenógrafos, produtores, técnicos e voluntários. A preparação não se limita aos dias de desfile: envolve meses de criação, ensaios, arrecadação, montagem e mobilização comunitária.
Na avenida, o espetáculo combina samba-enredo, fantasias, carros alegóricos, comissão de frente, bateria e coreografias. Nos bastidores, o processo envolve conhecimento técnico, organização e transmissão de saberes entre gerações. A produção das escolas funciona, portanto, como uma cadeia cultural que articula trabalho artístico, formação profissional e participação social.
O reconhecimento legal como Capital Catarinense do Carnaval dá visibilidade a essa trajetória, mas também amplia as responsabilidades relacionadas à preservação e à organização da festa. O título não substitui políticas culturais permanentes, financiamento transparente, planejamento e valorização dos profissionais envolvidos. Ele pode, no entanto, fortalecer a capacidade de Joaçaba de apresentar o Carnaval como uma manifestação cultural de alcance estadual. (alesc.sc.gov.br)
Da avenida para a economia local
O impacto do Carnaval ultrapassa o entretenimento. Durante o período da festa, hotéis, restaurantes, bares, supermercados, lojas, empresas de transporte e prestadores de serviços passam a atender um fluxo maior de visitantes. As escolas de samba também contratam ou mobilizam profissionais ligados à música, ao figurino, à cenografia, à comunicação e à produção de eventos.
Uma pesquisa da Fecomércio-SC sobre o Carnaval de 2023 ouviu 382 turistas e 224 empresários ou gestores. O levantamento apontou gasto médio total de R$ 1.088 por visitante, considerando itens como hospedagem, alimentação, deslocamento, comércio e lazer. A pesquisa também registrou que 71,2% dos turistas entrevistados participaram de eventos relacionados ao Carnaval. (fecomercio-sc.com.br)
Os dados mostram a relevância econômica da festa, mas também indicam que o desempenho do evento precisa ser acompanhado com planejamento. A mesma pesquisa registrou mudanças no perfil do público e variações na participação em atrações carnavalescas. Esse tipo de informação é importante para orientar decisões sobre programação, comunicação, mobilidade, hospedagem, segurança e integração com os municípios vizinhos.
O Carnaval, portanto, pode ser entendido como uma plataforma de negócios e de promoção territorial. Quando o visitante permanece mais tempo, conhece outros atrativos e consome produtos e serviços locais, o impacto tende a se distribuir melhor pela região. Para isso, a festa precisa estar conectada a roteiros, gastronomia, comércio, cultura e experiências oferecidas ao longo do ano.
Turismo além do período carnavalesco
Uma das principais estratégias em discussão é transformar a estrutura e os conhecimentos do Carnaval em produtos turísticos permanentes. Em 2024, o Sebrae e a Prefeitura de Joaçaba anunciaram o projeto “Carnaval o Ano Inteiro”, com proposta de visita guiada a barracões, contato com fantasias e alegorias, participação em experiências ligadas às escolas de samba e integração com pequenos empreendedores. (sc.agenciasebrae.com.br)
A iniciativa representa uma mudança de perspectiva. Em vez de concentrar toda a atividade em poucos dias, a cidade passa a explorar o Carnaval como experiência cultural durante diferentes períodos do calendário. Ensaios, oficinas, visitas aos espaços de produção, apresentações musicais e atividades educativas podem aproximar moradores e visitantes do processo que normalmente fica oculto atrás do desfile.
Essa expansão também pode contribuir para reduzir a sazonalidade do turismo. A cidade já apresenta outros elementos de interesse, como o Monumento Frei Bruno, o Santuário de Santa Teresinha, a Casa da Cultura Rogério Sganzerla, eventos esportivos, atividades gastronômicas e atrativos localizados em municípios próximos. A proposta de integração regional permite construir roteiros que combinem patrimônio, fé, natureza, gastronomia e cultura popular.
O desafio é evitar que a promoção turística se limite à divulgação de atrações isoladas. O desenvolvimento de um destino depende de transporte, sinalização, acessibilidade, qualificação dos serviços, informações confiáveis, calendário integrado e participação dos empreendedores. Também exige que o visitante encontre opções de consumo e permanência compatíveis com diferentes perfis de público.
Casa da Cultura e formação artística
A cultura de Joaçaba não se resume ao Carnaval. A Casa da Cultura Rogério Sganzerla, que homenageia o cineasta nascido no município, funciona como um dos espaços de referência para atividades artísticas e formativas. O local já recebeu exposições, oficinas e projetos ligados à música, às artes visuais e à produção cultural.
A oferta de oficinas ajuda a ampliar o acesso à cultura e pode revelar novos talentos. Em editais municipais, aparecem atividades como ensino de acordeon e outras formações artísticas. Mais do que preencher a agenda cultural, essas ações contribuem para a transmissão de conhecimentos e para a criação de oportunidades de participação comunitária. (joacaba.sc.gov.br)
A presença de um cineasta como Rogério Sganzerla também amplia a leitura sobre a identidade local. O município pode se apresentar não apenas como sede de uma grande festa popular, mas como território de produção artística, memória e experimentação. Cinema, música, teatro, artes visuais, gastronomia e Carnaval formam um conjunto capaz de fortalecer a economia criativa.
Desenvolvimento regional e economia criativa
O conceito de desenvolvimento regional envolve mais do que crescimento econômico. Inclui a capacidade de uma cidade gerar oportunidades, oferecer serviços, preservar sua história, estimular a participação social e criar redes de cooperação com municípios vizinhos. Nesse contexto, a cultura pode atuar como um eixo de integração.
Em Joaçaba, o Carnaval aproxima diferentes setores. As escolas dependem de profissionais especializados, fornecedores, espaços de ensaio, empresas de comunicação e apoio institucional. O comércio se beneficia do fluxo de pessoas. A rede hoteleira e a gastronomia recebem visitantes. O poder público precisa coordenar infraestrutura, trânsito, segurança, limpeza e atendimento. A imprensa e as plataformas digitais ampliam a divulgação. Essa rede revela como um evento cultural pode movimentar competências variadas.
O fortalecimento dessa cadeia exige profissionalização. Gestão financeira, planejamento de longo prazo, prestação de contas, capacitação de empreendedores, organização de dados e estratégias de comunicação são fatores que podem ampliar os resultados. Também é necessário preservar o caráter comunitário da festa, evitando que a busca por maior escala afaste as escolas de suas bases sociais.
Outro ponto importante é a distribuição dos benefícios. O desenvolvimento regional tende a ser mais consistente quando alcança pequenos negócios, trabalhadores autônomos, artistas locais e empreendedores de diferentes bairros e municípios. A integração com a gastronomia, o artesanato, os roteiros turísticos e os serviços regionais pode fazer com que o Carnaval produza efeitos mais amplos do que o movimento concentrado na avenida.
Os desafios para o futuro
O reconhecimento oficial e o crescimento da visibilidade trazem desafios para Joaçaba. A cidade precisa conciliar a preservação da tradição com a renovação artística, ampliar o público sem perder qualidade, aperfeiçoar a infraestrutura e garantir planejamento para cada edição. Também deve lidar com questões como mobilidade, hospedagem, segurança, acessibilidade, sustentabilidade e impacto sobre a rotina dos moradores.
A pesquisa de comportamento dos turistas é uma ferramenta útil nesse processo. Ao identificar origem, faixa etária, hábitos de consumo, meios de transporte e avaliação da experiência, o município pode ajustar sua estratégia. O planejamento baseado em evidências permite definir prioridades e medir resultados com mais precisão, em vez de depender apenas da percepção sobre o tamanho da festa.
Outro desafio é manter a cultura ativa durante todo o ano. Oficinas, exposições, apresentações, visitas aos barracões e ações educativas ajudam a criar vínculo permanente com a comunidade. A continuidade também favorece a formação de público, a circulação de artistas e a criação de novas oportunidades profissionais.
Uma identidade construída em rede
Joaçaba encontrou no Carnaval uma linguagem capaz de expressar sua identidade e projetar o Meio-Oeste catarinense. A festa reúne memória, trabalho, criatividade e participação popular, ao mesmo tempo em que movimenta setores importantes da economia regional.
O futuro dessa trajetória dependerá da capacidade de articular cultura, turismo, educação, comércio e políticas públicas. O Carnaval pode continuar sendo o principal símbolo da cidade, mas seu potencial é maior quando se conecta a outras manifestações, espaços culturais e municípios da região.
Mais do que receber visitantes durante alguns dias, Joaçaba busca consolidar uma imagem de cidade cultural, acolhedora e regionalmente relevante. A avenida é o ponto de maior visibilidade dessa história. O desenvolvimento, porém, acontece também nos barracões, nas oficinas, nos pequenos negócios, nos equipamentos culturais e nas parcerias que mantêm a cidade em movimento ao longo de todo o ano.








