As feiras de produtores em Santa Catarina têm se consolidado como espaços de comercialização, convivência e aproximação entre o campo e a cidade. Nesses eventos, agricultores familiares vendem hortaliças, frutas, produtos coloniais, alimentos artesanais, mudas, conservas, panificados, embutidos e outros itens diretamente ao consumidor.
Mais do que pontos de venda, as feiras ajudam a encurtar a cadeia de comercialização. A relação direta permite que o produtor apresente a origem dos alimentos, receba informações dos compradores e encontre novas oportunidades para ampliar ou diversificar a produção.
Para o consumidor, a experiência oferece acesso a alimentos que, em muitos casos, foram colhidos ou preparados pouco antes da feira. Também possibilita conhecer quem está por trás da produção e entender melhor as características de cada produto, como época de colheita, formas de preparo e métodos de conservação.
Venda direta aproxima campo e cidade
A venda direta é uma das principais funções das feiras da agricultura familiar. Segundo a Epagri, a redução do número de intermediários pode permitir que uma parcela maior da renda permaneça com o agricultor. Ao mesmo tempo, a proximidade favorece a construção de uma relação de confiança com os consumidores.
Esse modelo também ajuda o produtor a identificar mudanças na demanda. A procura por determinados alimentos, formatos de embalagem ou produtos com características específicas pode orientar decisões sobre plantio, processamento e organização da produção.
Em Santa Catarina, a atuação de órgãos de extensão rural, prefeituras, cooperativas e associações tem contribuído para a criação e o fortalecimento de feiras livres. O trabalho envolve desde a organização dos espaços até orientações sobre comercialização, agregação de valor, regularização e apresentação dos produtos.
Produtos frescos e alimentos coloniais
A oferta varia conforme a região, a época do ano e o perfil dos produtores participantes. Em uma mesma feira, o consumidor pode encontrar verduras, frutas, raízes, mel, geleias, pães, bolos, cucas, queijos, embutidos, bebidas, conservas e outros alimentos preparados em agroindústrias familiares.
A diversidade é uma das características da produção familiar catarinense. Pequenas propriedades podem combinar lavouras, criação de animais, processamento de alimentos e atividades de turismo ou comercialização direta. A feira funciona, assim, como uma vitrine para produtos que nem sempre chegam às grandes redes varejistas.
Em eventos maiores, a presença dos agricultores também pode incluir artesanato, gastronomia, oficinas, apresentações culturais e atividades de orientação. Essa combinação amplia o público e transforma a comercialização em uma experiência de contato com os costumes e os sabores de diferentes regiões do estado.
Experiências em municípios catarinenses
Em Içara, no Sul de Santa Catarina, a Feira da Agricultura Familiar completou dez anos em setembro de 2026. De acordo com a prefeitura, os produtores comercializam alimentos produzidos no município e na região, com destaque para frutas, verduras e outros itens que chegam às bancas pouco tempo depois da colheita ou do preparo.
A experiência de Içara mostra como uma feira pode se tornar parte da rotina da população. Além da compra de alimentos, o espaço passou a funcionar como ponto de encontro entre moradores, trabalhadores e agricultores, fortalecendo a relação entre o consumo cotidiano e a produção local.
Em Chapecó, a primeira edição da Feira Sabor Colonial, realizada de 6 a 8 de junho de 2025, reuniu mais de 30 mil visitantes e registrou mais de R$ 300 mil em vendas, segundo informações divulgadas pela prefeitura. O evento reuniu 26 cooperativas da agricultura familiar e incluiu comercialização, gastronomia, apresentações culturais e atividades de integração.
Na Grande Florianópolis, a edição de 2025 do evento Epagri de Porteira Aberta reuniu 35 empreendimentos rurais de 14 municípios. A programação teve como proposta aproximar o público urbano dos agricultores familiares e oferecer alimentos e artesanatos diretamente de quem produz, conforme a empresa de extensão rural.
Em outras regiões, as feiras também funcionam como oportunidade para divulgar produtos processados e ampliar contatos comerciais. Na AgroPonte, no Sul do estado, a Epagri informou a participação de 45 organizações de produtores em uma feira voltada à agricultura familiar. O evento contou ainda com uma rodada de negócios entre agricultores e representantes de supermercados, atacadistas e outros compradores.
Cooperativismo e agregação de valor
A participação coletiva pode facilitar a presença dos agricultores em eventos maiores. Cooperativas e associações ajudam a reunir a produção, organizar a logística, padronizar a apresentação dos produtos e ampliar a capacidade de negociação.
Esse processo é importante principalmente para as agroindústrias familiares. Ao transformar parte da produção em geleias, panificados, queijos, embutidos, conservas ou outros alimentos, as famílias podem agregar valor à matéria-prima e reduzir a dependência da venda de produtos in natura.
A comercialização em feiras também permite testar novos produtos diretamente com o público. A resposta dos consumidores pode indicar quais itens têm maior aceitação, quais preços são praticados e que tipo de embalagem ou porção é mais adequado para o mercado local.
O apoio técnico é outro fator relevante. A Epagri informa que atua na formação de cadeias curtas de comercialização por meio do fortalecimento de feiras, da realização de rodadas de negócios e do incentivo à participação dos agricultores em políticas públicas de compra de alimentos.
Impacto na economia das pequenas propriedades
Quando o agricultor vende diretamente ao consumidor, a renda obtida pode retornar mais rapidamente à propriedade. O dinheiro movimenta a compra de insumos, o pagamento de serviços, a manutenção de equipamentos e o consumo nos próprios municípios.
As feiras também ajudam a dar visibilidade a famílias que trabalham em menor escala e que enfrentam dificuldades para acessar canais tradicionais de comercialização. A presença em um espaço organizado pode abrir portas para novos clientes, restaurantes, mercados, empórios e programas de compras institucionais.
Em Lages, por exemplo, a Feira de Produtos Artesanais e Agroindústrias Familiares Catarinenses reuniu expositores de diferentes municípios durante a Semana da Agricultura Familiar da Serra Catarinense, em agosto de 2026. Segundo a prefeitura, a programação foi organizada pela Epagri em parceria com a Secretaria Municipal de Agricultura, Pecuária e Pesca.
A iniciativa evidencia que as feiras podem cumprir funções distintas: atender ao consumidor final, divulgar a produção regional, estimular parcerias e conectar agricultores a compradores profissionais.
Produção local e alimentação
A compra em feiras pode favorecer o consumo de alimentos da estação e de produtos cultivados ou processados em regiões próximas. Para o consumidor, saber a origem do alimento facilita a escolha e permite acompanhar a sazonalidade da produção.
Esse contato também contribui para valorizar variedades, receitas e métodos de preparo associados à cultura local. Em Santa Catarina, produtos coloniais e alimentos artesanais carregam referências de diferentes comunidades rurais e da formação histórica das regiões do estado.
Em junho de 2026, uma feira estadual da reforma agrária realizada em Joinville reuniu cooperativas e famílias assentadas para apresentar produtos como mel, conservas, geleias, alho, abóbora e cachaça. O evento, divulgado pelo Incra, teve como uma de suas propostas aproximar a produção dos assentamentos dos consumidores urbanos.
Desafios para manter as feiras
Apesar do potencial, a organização de feiras exige planejamento. É necessário garantir espaço adequado, regularidade, divulgação, estrutura para exposição, transporte e condições de armazenamento dos alimentos. Para os produtores, também há o desafio de conciliar o trabalho na propriedade com a preparação, o deslocamento e o atendimento ao público.
A regularização dos produtos processados é outro ponto que pode exigir orientação técnica e investimento. Regras sanitárias, rotulagem, embalagem e controle de qualidade são fundamentais para ampliar a segurança dos alimentos e permitir que as agroindústrias familiares alcancem novos mercados.
A continuidade do público é igualmente importante. Feiras dependem de consumidores que retornem, conheçam os horários, valorizem a produção local e compreendam que a oferta pode variar conforme a safra. A relação construída ao longo do tempo ajuda a dar previsibilidade ao trabalho dos agricultores.
Um calendário para valorizar a produção
Santa Catarina também possui uma legislação que prevê um Calendário de Produção da Agricultura Familiar. A Lei estadual nº 18.159, de 12 de julho de 2021, estabelece que o calendário deve incentivar o consumo de produtos da agricultura familiar catarinense e agregar valor à atividade.
Entre as informações previstas estão o tipo de cultura, o município produtor, a época de plantio e colheita, a quantidade estimada e o preço médio sugerido para a venda direta ao consumidor. A medida reforça a importância de divulgar a origem e a sazonalidade dos alimentos.
Na prática, iniciativas desse tipo podem ajudar consumidores a planejar compras e produtores a organizar a oferta. Também favorecem a visibilidade de municípios e regiões que têm na agricultura familiar uma parte importante de sua economia.
Relação que vai além da compra
Ao reunir agricultores e consumidores, as feiras criam um canal de comunicação que dificilmente existe em uma compra convencional. O comprador pode perguntar sobre o cultivo, conhecer a história da família, experimentar produtos e acompanhar a evolução do trabalho ao longo das safras.
Para o produtor, esse contato representa mais do que uma oportunidade de venda. É uma forma de apresentar a própria atividade, receber retorno sobre os alimentos e construir uma base de clientes. Para o consumidor, significa participar de uma cadeia mais próxima e compreender melhor os caminhos percorridos pelos alimentos até chegar à mesa.
Em diferentes regiões de Santa Catarina, as feiras mostram que a agricultura familiar pode estar presente tanto no abastecimento cotidiano quanto em grandes eventos de divulgação e negócios. Com apoio técnico, organização coletiva e participação dos consumidores, esses espaços fortalecem a produção local e aproximam realidades que, muitas vezes, permanecem distantes.