As tradições de Santa Catarina estão mudando de forma sem desaparecer. Em diferentes regiões do estado, novas gerações passaram a ocupar espaços antes associados principalmente aos mais velhos, como festas comunitárias, grupos folclóricos, cozinhas familiares, celebrações religiosas, atividades rurais e manifestações ligadas à imigração.
A transformação não significa simplesmente abandonar o passado. Em muitos casos, jovens catarinenses estão reinterpretando práticas herdadas para torná-las mais acessíveis, visíveis e compatíveis com o cotidiano atual. A tradição aparece em novos formatos: vídeos para redes sociais, eventos com programação cultural ampliada, receitas adaptadas, oficinas em escolas, empreendimentos gastronômicos e projetos de economia criativa.
Esse movimento ocorre em um estado marcado pela diversidade cultural. As referências açorianas no litoral, as heranças alemãs, italianas, polonesas e austríacas em diferentes municípios, os costumes caboclos e serranos, a cultura pesqueira e as práticas ligadas à agricultura familiar formam um conjunto de identidades que não cabe em uma única representação de Santa Catarina.
Tradição deixa de ser apenas repetição
O patrimônio cultural imaterial é formado por práticas, conhecimentos, celebrações, expressões e modos de fazer transmitidos entre gerações. A própria política catarinense de patrimônio prevê que esses bens sejam documentados, preservados e reavaliados ao longo do tempo, reconhecendo que a cultura tem trajetória e pode se transformar.
Na prática, isso significa que manter uma tradição não exige reproduzir todos os seus elementos de maneira idêntica. Uma festa pode conservar seus símbolos religiosos ou comunitários e, ao mesmo tempo, incorporar novas linguagens de comunicação. Uma receita pode preservar técnicas e ingredientes fundamentais, mas ganhar apresentação diferente ou ser adaptada a novos hábitos alimentares.
É nesse espaço entre continuidade e mudança que as novas gerações atuam. A participação dos jovens não se limita à presença como público. Eles também organizam eventos, produzem imagens, administram redes sociais, criam identidades visuais, registram histórias familiares, trabalham com turismo e transformam referências locais em produtos culturais.
As festas comunitárias ganham novas linguagens
As festas continuam sendo uma das principais portas de entrada para o contato dos jovens com a cultura regional. Em municípios do Vale do Itajaí, do Norte, do Oeste, do Sul e da Serra, celebrações religiosas, festas de imigração, encontros rurais e eventos gastronômicos reúnem música, culinária, dança, artesanato e memória comunitária.
O que mudou foi a forma de participar e divulgar. A preparação da festa passou a envolver divulgação digital, cobertura em tempo real, produção de vídeos, venda antecipada de ingressos e criação de conteúdos voltados a públicos que nem sempre frequentavam esses eventos no passado. A tradição, nesse processo, deixa de circular apenas entre moradores e passa a alcançar visitantes e descendentes que vivem longe de suas cidades de origem.
Em Lages, a Festa Nacional do Pinhão é um exemplo de como elementos da cultura serrana são apresentados ao público por meio da música, da gastronomia e do uso de trajes típicos. A participação de crianças e jovens nas celebrações é tratada como parte do processo de transmissão cultural, não apenas como uma representação folclórica isolada.
Esse tipo de participação também cria novas funções. Jovens podem atuar na produção, na comunicação, na fotografia, na sonorização, na organização de oficinas e na recepção dos visitantes. A festa deixa de ser apenas um momento anual de celebração e passa a movimentar uma rede de atividades culturais e econômicas.
Gastronomia aproxima memória e inovação
A cozinha é outra área em que as novas gerações vêm atualizando as tradições catarinenses. Pratos ligados à pesca artesanal, à produção colonial, às famílias de origem italiana e alemã e aos costumes do interior continuam presentes, mas aparecem em restaurantes, feiras, festivais, escolas profissionalizantes e negócios comandados por jovens.
Em vez de tratar a comida tradicional como algo restrito ao ambiente doméstico, novos empreendedores passaram a apresentá-la como experiência cultural. O preparo, a origem dos ingredientes e as histórias das famílias tornam-se parte do produto. A receita, nesse contexto, não é apenas um prato: também comunica território, memória e pertencimento.
Materiais de órgãos públicos e instituições de pesquisa destacam que a gastronomia catarinense reúne influências diversas. No litoral, frutos do mar, farinha de mandioca, pirões e preparos associados à cultura açoriana permanecem importantes. Em outras regiões, polentas, massas, embutidos, pães, queijos e receitas de origem europeia foram incorporados à vida local e ganharam características próprias.
O desafio para os jovens é equilibrar criatividade e referência. Uma adaptação pode aproximar novos consumidores, mas também corre o risco de apagar técnicas, ingredientes ou histórias importantes. Por isso, iniciativas de formação e registro são relevantes. O restaurante-escola Origens/SC, instalado na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, foi criado com a proposta de unir qualificação profissional e valorização da gastronomia catarinense, incluindo a formação de jovens.
Em Treze de Maio, no Sul do estado, uma iniciativa apoiada pela Epagri usou um concurso culinário para destacar receitas familiares e a herança gastronômica dos primeiros habitantes do município. A proposta mostra como a cozinha pode funcionar como instrumento de educação patrimonial: os participantes não apenas cozinham, mas também recuperam lembranças, modos de preparo e histórias transmitidas dentro das famílias.
Escolas ajudam a reconstruir o vínculo com a cultura local
A distância entre os jovens e as tradições locais é uma preocupação em vários municípios. Mudanças no mercado de trabalho, migração, urbanização e acesso a referências culturais globais podem reduzir o contato cotidiano com dialetos, danças, festas e ofícios tradicionais.
Por isso, projetos educativos têm buscado apresentar a cultura local de maneira prática. Em Treze Tílias, uma iniciativa voltada aos estudantes procurou aproximar os alunos da história, das tradições e dos atrativos do município por meio de atividades participativas. A estratégia parte de uma constatação simples: a transmissão cultural tende a ser mais efetiva quando o jovem deixa de ser apenas ouvinte e passa a pesquisar, experimentar e produzir.
As escolas também podem contribuir para evitar uma visão estereotipada da identidade catarinense. O estado não é formado por uma única herança cultural, e os projetos educativos têm a oportunidade de mostrar conflitos, misturas, transformações e contribuições de diferentes grupos. Essa abordagem amplia o entendimento sobre a história local e reduz a ideia de que tradição é sinônimo de uma imagem fixa, geralmente associada a trajes, festas ou culinária.
Redes sociais ampliam o alcance, mas exigem cuidado
As plataformas digitais deram às novas gerações uma ferramenta para registrar manifestações que antes circulavam apenas dentro das comunidades. Vídeos de danças, receitas, relatos de moradores, explicações sobre festas e imagens de paisagens rurais podem alcançar públicos de outras cidades e até pessoas que deixaram Santa Catarina.
Esse processo ajuda a criar interesse por costumes que nem sempre estavam presentes no cotidiano urbano. Também pode estimular o turismo cultural, fortalecer pequenos negócios e aproximar descendentes de suas cidades de origem. Ao mesmo tempo, a exposição digital exige cuidado com a simplificação da história e com a transformação da cultura em produto desconectado de seus praticantes.
Uma publicação curta pode divulgar uma festa, mas não substitui a compreensão de sua origem, de seus significados e das pessoas responsáveis por mantê-la. O registro audiovisual ganha valor quando é feito com participação da comunidade e com informações corretas sobre a manifestação apresentada.
Tradições indígenas, caboclas, pesqueiras e rurais também entram no debate
A renovação cultural em Santa Catarina não se limita às heranças europeias frequentemente associadas às festas de algumas cidades. O estado também reúne tradições indígenas, caboclas, pesqueiras e rurais que fazem parte da formação social e histórica de diferentes regiões.
Entre essas referências está a pesca colaborativa entre pescadores e botos, praticada especialmente em Laguna e Passo de Torres. A atividade foi reconhecida em proposta legislativa como patrimônio cultural imaterial, em um processo que mostra como práticas tradicionais podem ganhar novas formas de proteção e visibilidade institucional.
Para as novas gerações, conhecer essas manifestações significa ampliar o repertório sobre o próprio estado. A cultura catarinense não se resume a eventos de grande porte ou a símbolos turísticos. Ela também está nos modos de trabalhar, nas relações com o mar e com o campo, nas festas religiosas, nos saberes artesanais e nas formas de organização das comunidades.
O futuro depende de participação e reconhecimento
A continuidade das tradições catarinenses dependerá menos da repetição automática e mais da capacidade de criar vínculos atuais com práticas do passado. Jovens precisam encontrar espaço para participar, propor mudanças e também questionar representações que não reflitam a diversidade das comunidades.
Esse processo exige documentação, acesso à formação, apoio a grupos culturais, valorização de mestres e incentivo a projetos conduzidos localmente. Também depende de políticas públicas que não tratem a cultura apenas como atração turística, mas como direito, memória e campo de trabalho.
Quando uma receita familiar é registrada, uma dança é ensinada na escola, uma festa é organizada por novos voluntários ou uma prática pesqueira é reconhecida como patrimônio, a tradição ganha uma nova etapa de sua história. Ela não permanece intacta, mas continua identificável.
Em Santa Catarina, as novas gerações estão mostrando que preservar e reinventar não são movimentos opostos. A cultura permanece viva justamente porque consegue dialogar com o presente. O desafio é garantir que essa atualização mantenha a ligação com as comunidades, reconheça a diversidade do estado e não transforme a memória em simples cenário.
Mais do que repetir costumes, os jovens catarinenses estão decidindo quais histórias querem levar adiante, de que maneira pretendem contá-las e como essas referências podem continuar fazendo sentido em uma sociedade em transformação.
Fontes institucionais: Fundação Catarinense de Cultura, Iphan, Prefeitura de Lages, Epagri e Assembleia Legislativa de Santa Catarina.