sábado, 31 de outubro de 2026
CIDADES

Caçador: história e desenvolvimento econômico no Oeste de Santa Catarina

A história de Caçador está ligada à ocupação do Alto Vale do Rio do Peixe, à Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande e à exploração da madeira. Ao longo do século 20, o município diversificou sua economia com agricultura, indústria, comércio, serviços e educação.

Caçador, no Meio-Oeste de Santa Catarina, desenvolveu-se a partir da combinação entre ocupação territorial, circulação de pessoas e mercadorias e aproveitamento dos recursos naturais. A trajetória do município está diretamente ligada ao Alto Vale do Rio do Peixe, à construção da Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande e à transformação da madeira em uma cadeia industrial que permanece relevante.

Antes da formação do núcleo urbano, a região era ocupada por povos indígenas e por populações caboclas que viviam da agricultura de subsistência, da caça, da extração de erva-mate e do aproveitamento do pinhão. A passagem de tropeiros também contribuiu para integrar o território a rotas que ligavam áreas do Rio Grande do Sul, do Paraná e de Santa Catarina.

Ocupação inicial e formação do território

Os primeiros moradores não indígenas chegaram ao Alto Vale do Rio do Peixe ao longo do século 19. Eram, em grande parte, caboclos descendentes da miscigenação entre portugueses, espanhóis e povos originários, além de pequenos agricultores que buscavam áreas para viver e produzir.

A localização de Caçador favorecia a travessia do Rio do Peixe. Embora a principal rota de tropas entre o Sul e o Sudeste passasse por outras áreas do planalto, o trecho entre Campos Novos, Caçador e Palmas funcionava como caminho secundário para circulação de animais, produtos e viajantes.

A partir da segunda metade do século 19, a ocupação também foi influenciada pela regularização de terras e pela formação de pequenas e médias propriedades. Em 1881, Francisco Corrêa de Mello instalou a Fazenda Faxinal do Bom Sucesso, em uma área que corresponde atualmente a parte do município. A propriedade se tornou uma referência na formação do povoado.

O nome Caçador é associado à história de Corrêa de Mello. Segundo a memória histórica preservada pelo município, ele teria fornecido carne e peles de animais aos trabalhadores envolvidos na construção da ferrovia. A área passou a ser conhecida como Rio do Caçador, denominação posteriormente adotada pela estação ferroviária.

A ferrovia e a chegada de novos moradores

A construção da Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande foi decisiva para mudar o ritmo de desenvolvimento da região. Os trilhos chegaram ao território catarinense no início do século 20 e alcançaram a área da Fazenda Faxinal do Bom Sucesso, onde foi construída uma ponte sobre o rio.

A Estação Rio Caçador foi inaugurada em 5 de maio de 1910. A ferrovia reduziu o isolamento da região, facilitou o transporte de madeira e produtos agrícolas e estimulou a chegada de imigrantes. Famílias descendentes de italianos e alemães, vindas principalmente do Rio Grande do Sul, instalaram-se nas proximidades dos trilhos. Depois, também chegaram poloneses, ucranianos, espanhóis, portugueses e sírio-libaneses.

Esse processo ocorreu em um período marcado por conflitos de terra, disputas políticas e tensões sociais. A Guerra do Contestado, entre 1912 e 1916, interrompeu parte do processo de colonização e afetou o desenvolvimento de diversos núcleos do planalto catarinense. A ferrovia, as concessões de terras e a expansão da exploração madeireira estiveram entre os fatores que contribuíram para o cenário de conflito.

Com o fim da guerra e a retomada da ocupação, a vila de Rio Caçador voltou a receber moradores e investimentos. Em 1918, foi instalada uma agência postal e surgiu uma das primeiras serrarias. A partir da década de 1920, outras madeireiras foram abertas perto da linha férrea, aproveitando a abundância de araucárias, imbuias e outras espécies nativas.

Colonização, comércio e emancipação

Em 1923, Rio Caçador foi elevado à condição de distrito de Campos Novos. No ano seguinte, a construção de uma ponte coberta de madeira sobre o Rio do Peixe aproximou os núcleos de Rio Caçador e Santelmo, que estavam ligados a administrações diferentes. A ponte ampliou a circulação entre as duas margens e fortaleceu a formação de uma comunidade integrada.

A economia local combinava serrarias, comércio, agricultura e transporte ferroviário. Os agricultores cultivavam trigo e uva, enquanto os estabelecimentos comerciais se concentravam nas áreas próximas aos trilhos e às vias de ligação com o Paraná. A expansão da atividade econômica ajudou a consolidar uma estrutura urbana própria.

Em 22 de fevereiro de 1934, o município de Caçador foi criado por decreto estadual. O novo território reuniu áreas que pertenciam a Porto União, Curitibanos, Campos Novos e Cruzeiro. A instalação administrativa ocorreu em 25 de março daquele ano, com a posse do primeiro prefeito, Leônidas Coelho de Souza.

A emancipação trouxe novas instituições públicas e privadas. Prefeitura, comarca, cartório, delegacia, bancos, escolas, hospitais e associações comerciais passaram a formar a estrutura básica do município. A criação da Associação Comercial e Industrial de Caçador, em 1941, refletiu o crescimento do comércio e das atividades produtivas.

O ciclo da madeira e a expansão econômica

Durante as décadas de 1940 e 1950, a madeira se tornou o principal motor da economia de Caçador. O município ganhou projeção como produtor de pinho e passou a ser conhecido como um importante centro madeireiro do Sul do Brasil. A atividade gerava empregos, movimentava o comércio e estimulava a construção de estradas, armazéns e serviços.

Na década de 1950, havia cerca de 200 serrarias em funcionamento, segundo registros históricos do município. A produção agrícola também alcançou resultados expressivos, especialmente nos cultivos de trigo e uva, beneficiados pelo transporte ferroviário. Parte da madeira utilizada na construção de Brasília, entre 1957 e 1960, teria saído da região de Caçador.

O crescimento da indústria madeireira, porém, dependia da exploração de florestas nativas. Na década de 1960, empresários e autoridades começaram a perceber o esgotamento das reservas de araucária. A redução da matéria-prima provocou uma crise no setor e obrigou o município a buscar alternativas econômicas.

A resposta veio por meio da diversificação industrial e do reflorestamento. Empresas passaram a investir em pinus, espécie que posteriormente se tornaria a base de uma cadeia produtiva formada por serrarias, fábricas de papel, papelão, móveis, portas, painéis e outros produtos. Ao mesmo tempo, surgiram negócios nos setores de couro, metalmecânica e máquinas.

Agricultura, indústria e infraestrutura

Nas décadas de 1970 e 1980, Caçador ampliou sua base econômica. A indústria de calçados ganhou força e chegou a empregar milhares de pessoas direta e indiretamente. O município também passou a contar com instituições de ensino superior, entre elas a estrutura que daria origem à atual Universidade Alto Vale do Rio do Peixe.

A agricultura incorporou novas culturas e tecnologias. A produção de tomate cresceu a partir da experiência de agricultores japoneses que chegaram à região e introduziram técnicas para o cultivo de tomate, pêssego, ameixa e flores. Nos anos 1980, o tomate passou a ocupar posição importante na economia rural e chegou a ser apontado como um dos principais produtos agrícolas do Sul do Brasil.

A construção e pavimentação de rodovias também alteraram a dinâmica econômica. As ligações com a BR-116, a BR-153 e Videira facilitaram o transporte por caminhões e reduziram a dependência da ferrovia. O setor de transportes se expandiu, acompanhado pelo comércio e pela prestação de serviços.

O transporte ferroviário, que havia sido fundamental na origem e na consolidação da cidade, perdeu espaço ao longo do tempo. A paralisação definitiva do transporte ferroviário comercial, na década de 1990, encerrou uma etapa importante da história econômica local, embora os trilhos e a memória da estação continuem associados à identidade de Caçador.

Industrialização e diversificação no século 21

A partir dos anos 1990, as empresas madeireiras passaram a ampliar as exportações e a agregar valor à produção. Em vez de concentrar a atividade na venda de madeira serrada, o município avançou para produtos industrializados, como portas, molduras, painéis, móveis, embalagens, papel e celulose.

Esse processo aproximou Caçador de uma cadeia produtiva de base florestal integrada, que inclui o cultivo de pinus, o processamento industrial, a fabricação de máquinas e equipamentos e a exportação. A transformação também aumentou a exigência por qualificação profissional, tecnologia e controle ambiental.

Dados divulgados pela Federação das Indústrias de Santa Catarina indicam que Caçador está entre os principais polos industriais do Oeste catarinense. O setor de madeira e móveis permanece relevante, mas divide espaço com alimentos, construção, máquinas e equipamentos, couro e calçados, produtos químicos, plásticos, papel e celulose.

Em 2022, segundo levantamento citado pela FIESC com base em dados do IBGE e do Observatório FIESC, Caçador registrou PIB industrial de aproximadamente R$ 1,4 bilhão. O município também aparece entre as maiores economias do Oeste, ao lado de Chapecó, Concórdia, Videira e Joaçaba.

O IBGE aponta PIB per capita de R$ 72.913,19 para Caçador em 2023. O indicador ajuda a dimensionar a produção econômica local, mas não representa sozinho a distribuição de renda nem as condições de vida da população.

Desafios para o desenvolvimento

A força da indústria de base florestal oferece vantagens competitivas, mas também impõe desafios. A economia precisa manter o fornecimento de madeira cultivada, ampliar a produtividade, atender normas ambientais e reduzir a dependência de ciclos de preços, câmbio e demanda externa.

Outro desafio é transformar o crescimento econômico em oportunidades distribuídas entre diferentes setores e grupos sociais. Para isso, educação profissional, inovação, infraestrutura, apoio às pequenas empresas e qualificação dos serviços públicos são fatores importantes.

A história de Caçador mostra uma economia que passou por diferentes fases. A extração da erva-mate, a agricultura familiar, a ferrovia, a exploração da madeira nativa, o reflorestamento e a industrialização formaram etapas de um mesmo processo de ocupação e transformação do território.

Atualmente, o município mantém na indústria florestal uma de suas principais marcas, mas sua economia é mais ampla do que no passado. Comércio, serviços, educação, transporte, agricultura e setores industriais diversos participam da geração de renda. Essa combinação ajuda a explicar a posição de Caçador como um dos centros econômicos do Oeste de Santa Catarina.