sábado, 31 de outubro de 2026
CIDADES

Canoinhas: como a erva-mate moldou as tradições do interior de Santa Catarina

Canoinhas construiu parte de sua identidade em torno da erva-mate. A atividade, que sustentou a economia local no início do século 20, ainda está presente no turismo, na produção rural, nas festas e nos hábitos do interior catarinense.

Canoinhas, no Planalto Norte de Santa Catarina, tem sua história profundamente ligada à erva-mate. Antes de se tornar um produto industrializado e encontrado em diferentes formatos, a planta fazia parte da paisagem das matas, do trabalho das famílias rurais e das rotas comerciais que movimentaram a região.

A atividade ervateira ajudou a formar a economia local, atraiu trabalhadores e comerciantes, estimulou o transporte por rios e estradas e deixou marcas na arquitetura, nas festas e na memória dos moradores. Ainda hoje, o mate aparece como símbolo de identidade regional, seja na cuia compartilhada, nos antigos equipamentos de beneficiamento ou nas propriedades que mantêm ervais sob a sombra da mata.

Em 2022, a erva-mate do Planalto Norte Catarinense recebeu do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) o registro de Denominação de Origem. A área reconhecida inclui Canoinhas e outros municípios da região, valorizando características relacionadas ao território, ao sistema de produção e à tradição acumulada ao longo do tempo. (gov.br)

Uma economia construída em torno do mate

A presença da erva-mate em Canoinhas antecede a industrialização moderna. Durante décadas, a planta era encontrada em abundância nas formações florestais do Planalto Norte e explorada por meio do extrativismo. A colheita envolvia famílias, trabalhadores rurais, tropeiros, transportadores e comerciantes.

O crescimento da atividade ocorreu em um período de disputas territoriais entre Santa Catarina e Paraná e de transformação da ocupação regional. A erva-mate se tornou uma das principais riquezas do território, ao lado da madeira, e contribuiu para o desenvolvimento dos núcleos urbanos e das comunidades rurais.

Estudos sobre a história social de Canoinhas mostram que a erva-mate foi mais do que uma mercadoria. Ela participou da formação da memória coletiva da população e influenciou a maneira como o município passou a se apresentar. O ciclo ervateiro ajudou a construir uma identidade associada ao trabalho no campo, à circulação de produtos e às relações comerciais que conectavam o interior catarinense a outras regiões do Sul do Brasil. (repositorio.unisc.br)

No início do século 20, o município viveu uma fase de expansão ligada ao comércio da planta. A produção era transportada por tropas de mulas, carroças, barcos e, posteriormente, por ferrovias e caminhões. O rio Canoinhas também teve importância nas rotas de circulação, especialmente antes da consolidação da infraestrutura rodoviária.

O período de maior força econômica não permaneceu indefinidamente. Mudanças nos mercados, a concorrência, as dificuldades de transporte e a exploração de outros recursos alteraram o peso da atividade na economia local. A erva-mate deixou de ser a única base da riqueza regional, mas não desapareceu. A produção se modernizou e passou a conviver com setores como a agricultura, a indústria madeireira, o comércio e os serviços.

Do erval nativo às ervateiras

Uma das características mais marcantes da produção do Planalto Norte Catarinense é a presença de ervais associados à mata. Em vez de serem cultivadas apenas em áreas abertas e uniformes, muitas plantas crescem em sistemas agroflorestais conhecidos regionalmente como áreas de caíva ou em remanescentes da Floresta Ombrófila Mista.

Esse modelo combina a presença da erva-mate com árvores nativas e outras atividades rurais. A sombra da vegetação influencia o desenvolvimento da planta e ajuda a conservar parte da paisagem tradicional do planalto. Pesquisas da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, a Epagri, acompanham práticas de manejo, produção de mudas, melhoramento genético e formas de fortalecer a atividade sem romper a relação histórica com a floresta.

Segundo a Epagri, o Planalto Norte concentra a maior fatia da produção catarinense de erva-mate. Em 2023, Santa Catarina produziu cerca de 130 mil toneladas, com movimentação estimada em R$ 176 milhões. Os números são estaduais, mas ajudam a dimensionar a importância da cadeia produtiva para municípios como Canoinhas. (epagri.sc.gov.br)

A pesquisa agropecuária também é desenvolvida em Canoinhas, onde a Epagri mantém uma estação experimental dedicada, entre outros temas, ao estudo da erva-mate. O objetivo é melhorar a produtividade, a qualidade e a sustentabilidade dos ervais, mantendo a adaptação das plantas às condições do Planalto Norte.

O sabor regional e a Denominação de Origem

O reconhecimento da Denominação de Origem para a erva-mate do Planalto Norte Catarinense representa uma etapa importante na valorização do produto. Esse tipo de registro identifica mercadorias cujas características estão associadas ao local de produção, considerando fatores naturais e humanos.

No caso regional, o processo levou em conta a história da atividade, o ambiente de cultivo e o conhecimento acumulado pelos produtores. A área protegida abrange integralmente Canoinhas e outros municípios, além de incluir parcialmente localidades vizinhas. O registro não transforma toda erva-mate produzida em Canoinhas automaticamente em produto certificado, mas estabelece regras e delimitações para o uso da indicação geográfica.

A Epagri aponta que o cultivo sob a sombra da mata e as condições climáticas do Planalto Norte contribuem para um perfil próprio da erva-mate regional. A entidade também destaca a produção voltada para mercados consumidores do Brasil e do exterior, especialmente países onde o chimarrão faz parte dos hábitos cotidianos. (blog.epagri.sc.gov.br)

Na prática, a indicação geográfica pode ajudar a diferenciar o produto, agregar valor e estimular a permanência das famílias na atividade. Também reforça a importância de proteger os sistemas tradicionais de cultivo, que dependem da conservação da paisagem e do manejo adequado dos ervais.

Chimarrão, hospitalidade e vida comunitária

A erva-mate não está presente apenas no campo ou nas fábricas. Em Canoinhas e no interior catarinense, o chimarrão representa convivência, hospitalidade e continuidade de costumes familiares. A cuia circula em encontros domésticos, visitas, rodas de conversa, reuniões comunitárias e momentos de descanso depois do trabalho.

O hábito também revela a diversidade cultural do Planalto Norte. A região recebeu diferentes grupos de imigrantes e descendentes de europeus, que passaram a conviver com tradições já existentes no território. O resultado foi uma cultura regional marcada pela combinação entre agricultura familiar, religiosidade, culinária, festas comunitárias e costumes ligados ao mate.

O preparo pode variar conforme a família e a origem dos consumidores. Há diferenças na preferência pela granulometria, pelo tempo de descanso da erva, pela temperatura da água e pela intensidade do sabor. Em uma região historicamente ligada ao comércio com o Uruguai e outros mercados do Sul, também se consolidaram preferências distintas das encontradas em áreas onde predomina o consumo de erva mais verde e fina.

Essas diferenças não diminuem a importância do chimarrão como prática comum. Ao contrário, mostram como a bebida foi incorporada por grupos diversos e adaptada às características de cada comunidade.

Festas e espaços de memória

A tradição da erva-mate também aparece em eventos públicos. Canoinhas realiza a Festa Estadual da Erva-Mate, conhecida como Fesmate, criada para celebrar a atividade e aproximar produtores, empresas, moradores e visitantes. O evento é associado à valorização da história local, à divulgação de produtos e ao fortalecimento do turismo e do comércio.

Ao longo das edições, a festa passou a reunir atrações culturais, apresentações musicais, atividades gastronômicas e demonstrações relacionadas ao universo do mate. A programação pode variar de um ano para outro, mas a proposta central permanece ligada à preservação da memória ervateira e à divulgação de Canoinhas como referência regional da produção.

Outro espaço dedicado a essa história é o Museu da Erva-Mate, instalado no Parque de Exposições Ouro Verde. O acervo reúne peças, fotografias e produtos relacionados ao ciclo artesanal e industrial da planta. Entre os objetos apresentados está uma canoa antiga, lembrança das formas de transporte utilizadas em períodos anteriores. (turismo.pmc.sc.gov.br)

O município também preserva monumentos e referências públicas ao mate. Um dos exemplos é o monumento em formato de cuia localizado na Praça Lauro Müller. A estrutura funciona como um marco visual da relação entre a cidade e a atividade que, durante décadas, esteve entre as principais fontes de renda da população.

O interior como parte da experiência

Para compreender a tradição da erva-mate em Canoinhas, é necessário olhar além do centro urbano. É no interior que permanecem propriedades rurais, capelas, estradas vicinais, áreas de mata e antigas formas de trabalho que ajudam a explicar a permanência da cultura ervateira.

O turismo rural e os roteiros ligados ao mate apresentam essa paisagem como parte de uma experiência cultural. Visitas a ervateiras, contato com o processo de industrialização, observação dos ervais e degustação de produtos aproximam o visitante de uma cadeia que normalmente chega ao consumidor apenas em pacotes prontos.

O interior também preserva tradições religiosas e comunitárias. Capelas de madeira, festas de padroeiro, salões comunitários e encontros familiares fazem parte da vida de várias localidades. Em muitos desses espaços, a culinária regional e o chimarrão aparecem como elementos de recepção e convivência.

A gastronomia local reflete a formação plural da região, com influências alemãs, italianas, ucranianas, polonesas, gaúchas e brasileiras. O mate convive com pães, cucas, carnes, preparações de milho, doces caseiros e receitas transmitidas entre gerações. Essa combinação ajuda a explicar por que a erva-mate é percebida não apenas como produto agrícola, mas como parte do modo de vida regional.

Tradição e futuro da cadeia ervateira

A relação entre Canoinhas e a erva-mate não se resume à lembrança de um ciclo econômico do passado. A atividade continua relevante para produtores, trabalhadores, indústrias, transportadores e comerciantes. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios relacionados à sucessão rural, aos custos de produção, à valorização do produtor e à necessidade de conservar as áreas de cultivo.

A modernização do beneficiamento ampliou as possibilidades de mercado. Além da erva para chimarrão, a planta pode ser utilizada em chás, bebidas, extratos e outros produtos. A diversificação, porém, precisa caminhar ao lado do controle de qualidade e da preservação da identidade regional.

O futuro da atividade depende da capacidade de unir conhecimento tradicional, pesquisa, organização dos produtores e proteção ambiental. Em Canoinhas, essa combinação aparece na continuidade dos ervais, no trabalho das ervateiras, nas iniciativas de turismo e nos espaços que registram a história local.

Assim, falar de Canoinhas e da erva-mate é falar de uma paisagem e de uma sociedade moldadas pelo trabalho no interior. O mate está nas antigas rotas comerciais, nas matas manejadas, nas festas, nos museus e nas rodas de conversa. Mais do que um produto, ele funciona como uma chave para compreender a formação cultural e econômica do Planalto Norte Catarinense.