A relação entre Videira e a produção de uva começou a ser construída junto com a ocupação do Vale do Rio do Peixe, no Meio-Oeste de Santa Catarina. O cultivo da videira, a elaboração artesanal de vinho e os costumes trazidos por famílias de origem italiana ajudaram a formar a identidade do município e deram origem a uma tradição que atravessa gerações.
O nome da cidade é associado à presença de videiras e à importância que a cultura da uva alcançou ao longo do século 20. Embora a produção tenha passado por mudanças, com novas técnicas, variedades e formas de comercialização, os parreirais, as cantinas familiares e as festas ligadas à colheita continuam presentes na memória e na vida econômica da região.
A colonização do Vale do Rio do Peixe
A história de Videira está ligada à expansão da ferrovia São Paulo–Rio Grande e ao processo de colonização do Vale do Rio do Peixe. De acordo com documentos históricos reunidos pelo município, a ocupação da área começou a ganhar impulso a partir de 1918, quando a localidade ainda era conhecida como Rio das Pedras.
A ferrovia facilitou a chegada de famílias e empresas de colonização, especialmente de descendentes de imigrantes alemães e italianos que já viviam no Rio Grande do Sul. Esses grupos levaram para o território catarinense práticas agrícolas, hábitos alimentares e formas de organização comunitária desenvolvidas nas antigas colônias do Sul do Brasil.
Os descendentes de italianos se estabeleceram principalmente em áreas mais elevadas do médio e do alto Vale do Rio do Peixe. Nesse ambiente, o cultivo da videira encontrou condições para se expandir. A produção inicialmente tinha caráter doméstico: as famílias plantavam uvas para o consumo, preparavam sucos e elaboravam vinho para abastecer a própria comunidade.
Com o passar do tempo, o conhecimento deixou de ficar restrito ao ambiente familiar e passou a influenciar a economia regional. O cultivo da uva ganhou espaço entre pequenas propriedades e se relacionou com outras atividades agrícolas, como a criação de animais, o cultivo de milho e a produção de alimentos para consumo local.
O papel da imigração italiana na vitivinicultura
A influência italiana em Videira não se resume à origem de parte dos colonizadores. Ela também aparece nas técnicas de plantio, na construção de parreirais, no uso de cantinas e na tradição de transformar a colheita em vinho, suco e outros derivados.
Em muitas famílias, o trabalho no parreiral era organizado de forma coletiva. A poda, o tratamento das plantas, a colheita e o esmagamento das uvas envolviam diferentes gerações. Crianças e jovens aprendiam com pais e avós, enquanto os mais velhos preservavam métodos de manejo e receitas transmitidas oralmente.
Esse processo contribuiu para consolidar uma cultura rural baseada no trabalho familiar. A produção de vinho não era apenas uma atividade econômica, mas também parte da rotina doméstica e das celebrações comunitárias. A bebida era servida em encontros familiares, festas religiosas e eventos ligados ao calendário agrícola.
Estudos sobre a história das festas da uva e da vindima em Videira mostram que a vitivinicultura se incorporou ao imaginário do município. A uva passou a representar tanto uma fonte de renda quanto um elemento de identidade para a população local.
Da produção artesanal ao desenvolvimento regional
O avanço da vitivinicultura em Videira ocorreu de maneira gradual. No início, a produção era voltada principalmente ao consumo das famílias e das comunidades próximas. Depois, o aumento da demanda estimulou a criação de estabelecimentos dedicados ao processamento da fruta e à fabricação de bebidas.
O desenvolvimento do setor também foi favorecido pela proximidade com outros municípios produtores, como Tangará, Pinheiro Preto e Iomerê. Juntos, esses municípios formam uma das áreas tradicionalmente ligadas à produção de uvas e vinhos em Santa Catarina.
Levantamentos da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, a Epagri, apontam que o Estado possui uma produção diversificada, formada principalmente por uvas americanas e híbridas, além de variedades destinadas à elaboração de vinhos finos. A empresa também destaca o papel dos descendentes de imigrantes italianos na expansão da cultura da videira em território catarinense.
Na região de Videira, a produção passou a combinar a experiência dos agricultores com a assistência técnica e a pesquisa agropecuária. O resultado foi a adoção de novos sistemas de condução das plantas, seleção de mudas, controle de doenças e aprimoramento dos processos de vinificação.
A Epagri registra que as condições de clima, solo e relevo influenciam diretamente o desempenho dos vinhedos. A escolha da variedade adequada e o manejo correto são fundamentais para reduzir perdas e melhorar a qualidade da fruta.
Uva, vinho e identidade cultural
Em Videira, a importância da uva ultrapassa os limites do campo. A fruta está presente no nome do município, em instituições culturais, em roteiros de visitação e em eventos que procuram preservar a memória dos colonizadores.
Um dos espaços dedicados a essa história é o Museu do Vinho Mário de Pellegrin. Instalado em uma construção histórica restaurada pelo poder público, o museu reúne objetos utilizados no plantio, na colheita e na produção artesanal de vinho. A exposição ajuda a explicar como a vitivinicultura foi incorporada à vida das famílias do município.
Segundo informações da Prefeitura de Videira, o imóvel que abriga o museu foi adquirido pelo município em 1983 e é reconhecido como patrimônio arquitetônico estadual. O espaço apresenta a vitivinicultura como tema central e preserva equipamentos e utensílios relacionados à produção rural.
A existência do museu mostra que a atividade não é lembrada apenas por seus resultados econômicos. Ela também é tratada como patrimônio cultural, associado à formação da cidade e à trajetória das famílias que participaram da colonização do Vale do Rio do Peixe.
As festas da uva e da vindima
As festas da uva e da vindima ajudaram a transformar a colheita em um momento de celebração pública. Esses eventos reuniam agricultores, comerciantes, autoridades e moradores em torno de exposições, concursos, apresentações culturais e degustações.
As festividades também funcionavam como espaços de troca de conhecimento. Produtores podiam apresentar variedades, comparar técnicas e divulgar seus produtos. Para os descendentes de italianos, as festas representavam uma forma de afirmar costumes herdados dos antepassados e transmiti-los às novas gerações.
Uma pesquisa publicada na revista Fronteiras: Revista Catarinense de História analisou a trajetória das festas da uva e da vindima em Videira. O estudo relaciona a história das celebrações ao desenvolvimento da vitivinicultura e mostra que a presença da uva na cultura local se manifesta em diferentes períodos, ainda que os eventos tenham enfrentado mudanças e períodos de menor força.
As festas também refletem transformações sociais. Quando a agricultura familiar deixou de ser a única base econômica das comunidades, os eventos precisaram se adaptar a novos formatos. Mesmo assim, a colheita continuou sendo um símbolo de pertencimento para muitas famílias.
Pesquisa e modernização dos vinhedos
A tradição não impediu a modernização da produção. Ao longo das últimas décadas, agricultores e vinícolas passaram a investir em mudas de melhor qualidade, novas variedades, sistemas de proteção contra intempéries e técnicas mais precisas de colheita.
O trabalho de instituições de pesquisa, como a Epagri, contribuiu para adaptar recomendações às condições do clima catarinense. A orientação técnica abrange desde a escolha do local de plantio até o controle de pragas, doenças e períodos de maturação.
Entre os desafios estão a ocorrência de doenças fúngicas, as variações climáticas, os custos de produção e a necessidade de garantir a sucessão rural. A permanência dos jovens no campo é uma questão importante para atividades baseadas em conhecimento acumulado e trabalho familiar.
A diversificação também passou a ser uma estratégia para produtores. Além da venda da fruta, algumas propriedades investem na produção de vinho, suco, geleias e outros derivados. A transformação da uva dentro da própria região pode ampliar o valor agregado e reduzir a dependência da comercialização da fruta in natura.
O futuro da tradição italiana em Videira
A tradição italiana em Videira não é estática. Ela se mantém por meio da combinação entre memória familiar, conhecimento técnico e adaptação às exigências do mercado. O parreiral cultivado pelos avós pode utilizar hoje métodos diferentes, mas continua ligado à mesma lógica de trabalho transmitida entre gerações.
O desafio é preservar a identidade sem transformar a cultura em uma lembrança isolada do passado. Para isso, a produção precisa continuar economicamente viável, e os eventos culturais devem dialogar com moradores, visitantes, estudantes e novos produtores.
O enoturismo aparece como uma possibilidade de aproximar o público das propriedades, das cantinas e dos processos de produção. Visitas guiadas, degustações e atividades educativas podem contribuir para explicar a origem dos produtos e valorizar o trabalho realizado no campo, desde o plantio até o engarrafamento.
Em Videira, a uva permanece como um elo entre território, agricultura e cultura. A história construída por descendentes de imigrantes italianos ajudou a definir a identidade do município e deixou marcas que ainda podem ser observadas nos vinhedos, nas festas, no museu e nas práticas de produção.
Mais do que uma atividade agrícola, a vitivinicultura representa uma herança coletiva. Ela resume parte da trajetória de Santa Catarina, onde diferentes grupos de imigrantes transformaram paisagens, criaram comunidades e incorporaram novos costumes à vida regional. Em Videira, essa história continua sendo contada a cada safra.
Fontes: documentos históricos do município, estudo acadêmico sobre as festas da uva e da vindima, Assembleia Legislativa de Santa Catarina e publicações técnicas da Epagri.








