A Fortaleza de Santo Antônio de Ratones é um dos principais testemunhos da presença militar portuguesa no litoral de Santa Catarina. Construída a partir de 1740 na Ilha de Ratones Grande, na Baía Norte de Florianópolis, a fortificação fazia parte de um sistema criado para proteger a Ilha de Santa Catarina contra invasões estrangeiras e consolidar o domínio português no extremo sul do Brasil.
O monumento integra o patrimônio histórico nacional e é protegido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1938. Ao lado da Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim e da Fortaleza de São José da Ponta Grossa, formava o chamado triângulo defensivo da Baía Norte, concebido para controlar os acessos marítimos à região. (gov.br)
Uma fortificação estratégica no litoral catarinense
A construção da Fortaleza de Santo Antônio de Ratones ocorreu durante a implantação da capitania de Santa Catarina, em um período de disputa entre Portugal e Espanha pelo controle de territórios e rotas marítimas no Sul da América. A posição da ilha permitia vigiar a entrada da Baía Norte e complementar a defesa instalada em pontos estratégicos do litoral.
O projeto foi idealizado pelo brigadeiro José da Silva Paes, engenheiro militar responsável por parte da organização defensiva portuguesa na região. A fortificação também se relacionava à proteção da Colônia do Sacramento, área de interesse estratégico para Portugal nas disputas territoriais com a Espanha. (gov.br)
O sistema defensivo não era formado por uma única construção isolada. As fortificações de Ratones, Anhatomirim e Ponta Grossa funcionavam de maneira articulada, com posições capazes de ampliar o controle sobre a passagem de embarcações e dificultar a aproximação de forças inimigas. A escolha da Ilha de Ratones Grande estava ligada à sua localização na Baía Norte e à possibilidade de estabelecer fogo cruzado com outras estruturas militares.
Arquitetura e elementos preservados
A Fortaleza de Santo Antônio de Ratones reúne elementos característicos da arquitetura militar portuguesa do século XVIII. O conjunto inclui edificações destinadas à defesa, ao alojamento da guarnição e ao funcionamento administrativo da unidade, além de estruturas associadas ao abastecimento e à circulação interna.
Entre os componentes que podem ser observados estão a portada de acesso, o fosso seco, os quartéis, a Casa do Comandante, a fonte de água e o aqueduto que conecta áreas do conjunto. Esses elementos ajudam a compreender como a fortaleza era organizada e como os recursos disponíveis na ilha eram aproveitados para garantir a operação do posto militar. (fortalezas.ufsc.br)
A implantação da fortificação também revela a relação entre arquitetura e paisagem. A escolha do terreno, a visibilidade sobre a baía e a distribuição dos edifícios atendiam a necessidades militares, mas produziram um conjunto que hoje é reconhecido tanto por seu valor histórico quanto por sua integração ao ambiente natural da ilha.
Da função militar ao abandono
Com as transformações políticas e militares ocorridas no Brasil ao longo do século XIX, a fortaleza perdeu gradualmente a função original. O espaço passou a ser utilizado para outras finalidades. Na segunda metade daquele século, a ilha abrigou um lazareto destinado ao isolamento de pessoas durante episódios de doenças epidêmicas.
A Marinha também utilizou a estrutura como depósito de carvão em meados do século XIX e no início do século XX. Essas mudanças mostram como antigos equipamentos militares foram adaptados a novas necessidades, mesmo quando já não desempenhavam o papel estratégico para o qual haviam sido construídos. (fortalezas.ufsc.br)
Depois desse período, a fortaleza entrou em processo de abandono e deterioração. A falta de uso regular, a ação do tempo e a dificuldade de manutenção em uma ilha contribuíram para o avanço das ruínas. Como ocorreu com outras fortificações da Ilha de Santa Catarina, a preservação passou a depender de iniciativas específicas de proteção, limpeza e consolidação.
O tombamento e a redescoberta do patrimônio
O tombamento pelo Iphan, em 1938, marcou uma etapa decisiva para o reconhecimento da Fortaleza de Santo Antônio de Ratones como patrimônio histórico brasileiro. A medida inseriu o monumento no conjunto de bens protegidos pelo Estado e estabeleceu parâmetros para intervenções, conservação e uso do espaço.
A proteção não se limita às paredes e aos edifícios da fortificação. A Ilha de Ratones Grande também integra o bem patrimonial, o que reforça a importância da paisagem, do entorno e das relações entre o monumento e o território em que foi construído. O Sistema de Fortificações da Ilha de Santa Catarina é formado ainda por outras estruturas militares erguidas no século XVIII para consolidar o domínio português no Sul do continente. (gov.br)
Na década de 1960, foram realizados mutirões de limpeza no local. Novas ações ocorreram entre 1983 e 1984, em um processo de recuperação que contribuiu para interromper o avanço da degradação e ampliar o interesse público pelas fortificações catarinenses. A redescoberta desses monumentos também se relaciona à atuação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que passou a participar da guarda, da pesquisa e da abertura das fortificações à visitação. (fortalezas.ufsc.br)
Restauro e requalificação do conjunto
Mais recentemente, a Fortaleza de Santo Antônio de Ratones recebeu obras de restauro e requalificação. A intervenção foi entregue pelo Iphan em março de 2023, após investimentos que, segundo o instituto, fizeram parte de um conjunto de ações de quase R$ 9 milhões destinado à fortaleza e a outro bem histórico de Santa Catarina.
O objetivo do trabalho foi recuperar estruturas, preservar características históricas e melhorar as condições de uso do monumento. Em bens desse tipo, o restauro precisa conciliar a conservação da matéria original com a segurança dos visitantes e a criação de condições adequadas para atividades educativas, culturais e de pesquisa. (gov.br)
A restauração também reforçou a função da fortaleza como espaço de educação patrimonial. Ao visitar o local, o público pode observar não apenas uma construção antiga, mas as técnicas de engenharia, os modos de vida da guarnição e as estratégias utilizadas para controlar a circulação marítima em um período de conflitos coloniais.
Pesquisa, visitação e preservação
A UFSC mantém ações relacionadas à visitação e à divulgação histórica da Fortaleza de Santo Antônio de Ratones. A universidade também participa da produção de informações sobre a arquitetura, a trajetória do monumento e as condições de preservação da Ilha de Ratones Grande.
Em 2023, a Secretaria do Patrimônio da União autorizou a cessão de uso da Ilha de Ratones Grande à UFSC pelo prazo de 20 anos, prorrogável por períodos sucessivos mediante interesse mútuo. A finalidade inclui a conservação da ilha, a preservação do patrimônio histórico, a promoção da cultura, da educação, da pesquisa, do turismo e da integração com a sociedade. (bibliotecadigital-web.iphan.gov.br)
O acesso ao monumento depende de deslocamento por embarcação e de organização prévia da visita. Por estar em uma ilha e em uma área protegida, a experiência é diferente da visita a um equipamento histórico localizado em área urbana. A conservação exige atenção ao fluxo de pessoas, às condições climáticas e ao impacto sobre as estruturas e o ambiente.
Parte de uma candidatura internacional
A Fortaleza de Santo Antônio de Ratones integra a lista indicativa do Conjunto de Fortificações do Brasil, que reúne bens avaliados para eventual candidatura ao título de Patrimônio Mundial da Unesco. A presença na lista indicativa não equivale ao reconhecimento como Patrimônio Mundial: trata-se de uma etapa anterior de seleção e preparação de uma possível candidatura.
O Iphan instituiu, em 2018, um comitê técnico para estabelecer diretrizes e desenvolver o dossiê relacionado às fortalezas de Santo Antônio de Ratones e Santa Cruz de Anhatomirim. A iniciativa evidencia a relevância atribuída ao conjunto e a necessidade de documentar seus valores históricos, arquitetônicos, paisagísticos e culturais. (gov.br)
Importância para a memória de Santa Catarina
A Fortaleza de Santo Antônio de Ratones ajuda a explicar a formação histórica de Florianópolis e a disputa pelo controle do litoral sul do Brasil. Sua localização, sua arquitetura e as diferentes funções desempenhadas ao longo do tempo registram mudanças na política colonial, na defesa militar, na saúde pública e na administração do território.
O monumento também demonstra que o patrimônio histórico não se resume à preservação de edifícios. A ilha, a baía, os caminhos de acesso, as estruturas de abastecimento e a paisagem ao redor compõem uma unidade de significado. Preservar a fortaleza, portanto, envolve manter a integridade do conjunto e garantir que as novas gerações possam compreender sua trajetória.
Entre ruínas, edificações restauradas e vestígios de diferentes períodos, Ratones permanece como um dos símbolos da história militar de Santa Catarina. Sua proteção depende da atuação conjunta do poder público, das instituições de pesquisa e da sociedade, responsável por reconhecer no monumento não apenas um ponto turístico, mas um documento material da ocupação portuguesa e da formação do território brasileiro.