O pinhão ocupa um lugar central na gastronomia serrana de Santa Catarina. Mais do que uma semente consumida nos meses frios, ele representa uma combinação de território, memória, trabalho rural e identidade cultural. Na região, o alimento aparece cozido, assado, sapecado na grimpa, transformado em paçoca, incorporado a carnes e usado também em receitas doces.
A relação entre o pinhão e a Serra Catarinense está ligada à presença da araucária, árvore característica do planalto do Sul do Brasil. A semente acompanha hábitos alimentares transmitidos entre gerações e ajuda a explicar por que a culinária serrana é marcada por preparos substanciosos, feitos para o clima frio e associados à convivência em torno do fogo.
Uma semente ligada ao território
O pinhão é a semente da araucária, conhecida cientificamente como Araucaria angustifolia. Em Santa Catarina, a árvore faz parte da paisagem e da formação histórica de municípios do planalto, incluindo áreas próximas de Lages, São Joaquim, Urubici, Bom Jardim da Serra e outros municípios da região serrana.
A colheita também segue um calendário próprio. A legislação estadual permite a retirada do pinhão a partir de 1º de abril, medida relacionada à proteção da semente e à necessidade de garantir que ela complete seu ciclo de maturação. A regra tornou-se parte do calendário cultural e econômico da região, marcando o início de um período em que feiras, eventos e cozinhas passam a destacar o produto. (agricultura.sc.gov.br)
O ciclo da colheita influencia a rotina de produtores, comerciantes, restaurantes e famílias que mantêm o costume de preparar o alimento em casa. A sazonalidade, nesse caso, não reduz a importância do pinhão. Ao contrário, contribui para reforçar seu valor simbólico e faz com que a chegada da safra seja percebida como um acontecimento regional.
Do fogo à mesa
Entre as formas mais tradicionais de preparo está a sapecada, também chamada de sapeco. O método utiliza as grimpas, nome dado aos ramos secos da araucária, para assar os pinhões diretamente sobre o fogo. O resultado é um alimento defumado, aquecido e associado a uma prática comunitária que reúne pessoas em torno da fogueira.
Na Serra Catarinense, a sapecada é apresentada como uma tradição que atravessa gerações. O preparo não se limita à técnica culinária: envolve o manejo do fogo, o uso de elementos disponíveis na paisagem e o compartilhamento do alimento. Eventos realizados em municípios serranos costumam recuperar esse ritual como parte da programação cultural ligada à colheita. (lages.sc.gov.br)
O pinhão também pode ser cozido em água e sal, assado em chapa ou preparado em fogões a lenha. Esses modos de consumo ajudam a preservar uma culinária de caráter doméstico, na qual o sabor está relacionado tanto ao ingrediente quanto ao ambiente e ao tempo de preparo.
Paçoca e entrevero expressam a identidade serrana
A paçoca de pinhão é uma das receitas mais conhecidas da região. O preparo tradicional parte do pinhão cozido e triturado, combinado com ingredientes salgados e temperos. A receita pode variar de acordo com a família, o município e os produtos disponíveis, mas mantém como elemento principal a semente da araucária.
Por sua presença em festas, restaurantes e encontros familiares, a paçoca passou a ser tratada como uma expressão da identidade gastronômica local. Em Santa Catarina, a preparação é reconhecida como patrimônio cultural imaterial, reforçando a relação entre receita, memória e pertencimento. (cultura.lages.sc.gov.br)
Outro prato associado à Serra Catarinense é o entrevero de pinhão. A receita costuma reunir a semente com diferentes tipos de carne, legumes e temperos. A combinação reflete uma cozinha de aproveitamento e de convivência, relacionada às refeições coletivas e às tradições rurais e tropeiras presentes na formação cultural da região.
O entrevero também mostra como o pinhão deixou de ser consumido apenas como acompanhamento ou alimento de subsistência. Ele passou a ocupar o centro de preparações elaboradas, capazes de representar a região em festivais, restaurantes e eventos gastronômicos.
Tradição que se renova na cozinha
A valorização do pinhão não significa a preservação de uma única receita. Nos últimos anos, cozinheiros e produtores passaram a explorar novas combinações, utilizando a semente em massas, risotos, recheios, sobremesas e produtos artesanais. O movimento amplia as possibilidades de consumo sem romper necessariamente com a tradição.
Concursos gastronômicos realizados em Lages exemplificam esse processo. As disputas reúnem pratos salgados e doces que usam o pinhão como ingrediente principal, estimulando a criatividade e aproximando técnicas contemporâneas dos sabores reconhecidos pela população local. Em uma edição do concurso, foram inscritos 34 pratos, entre doces e salgados, avaliados por critérios como apresentação, criatividade, aparência e sabor. (lages.sc.gov.br)
Essa renovação ajuda a inserir o pinhão em diferentes faixas de consumo. A semente pode aparecer em receitas simples, preparadas em casa, ou em pratos de maior elaboração, desenvolvidos para menus de restaurantes e experiências voltadas ao turismo gastronômico.
O processo também fortalece a ideia de que a cozinha serrana não é estática. Ela preserva métodos antigos, mas incorpora novos ingredientes, equipamentos e formas de apresentação. O pinhão funciona como um elo entre essas duas dimensões: mantém a referência cultural e, ao mesmo tempo, permite experimentações.
Festas ajudam a difundir o alimento
A Festa Nacional do Pinhão, realizada em Lages, tornou-se uma das principais plataformas de divulgação da semente e da cultura serrana. O evento reúne gastronomia, música, manifestações tradicionalistas, atividades comerciais e apresentações culturais, colocando o pinhão no centro da imagem turística do município e da região.
A origem da festa está relacionada a iniciativas realizadas em Lages na década de 1970, quando o pinhão servido em barracas de produtos típicos passou a integrar eventos locais. Com o tempo, a celebração ganhou novas dimensões e se transformou em referência cultural e gastronômica do Sul do Brasil. (lages.sc.gov.br)
Além da festa nacional, municípios serranos organizam eventos de abertura da colheita, festivais e feiras voltadas a produtos regionais. Essas iniciativas apresentam o pinhão ao público, mas também dão visibilidade a agricultores, artesãos, restaurantes, pequenas agroindústrias e empreendedores que trabalham com a cadeia produtiva.
Impacto na renda rural
O valor do pinhão não é apenas cultural. A coleta e a comercialização da semente integram a economia de muitas famílias rurais da Serra Catarinense. Dados divulgados por órgãos estaduais e entidades públicas indicam que milhares de famílias têm o pinhão como parte da composição de renda, especialmente durante o período de colheita.
Para 2026, a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina estimou uma produção de aproximadamente 3,7 mil toneladas em 18 municípios da Serra Catarinense. A projeção ficou abaixo do volume registrado em 2025, quando a colheita estimada chegou a 5,4 mil toneladas e movimentou cerca de R$ 32 milhões. (agricultura.sc.gov.br)
Os números variam conforme as condições climáticas, a produtividade das áreas de araucária e o comportamento do mercado. Por isso, a atividade combina importância econômica e vulnerabilidade. Uma safra menor pode reduzir a oferta e afetar produtores, comerciantes e consumidores, além de elevar a pressão sobre uma cadeia que depende de períodos específicos do ano.
A presença do pinhão em festas e restaurantes contribui para ampliar o mercado, mas a valorização econômica precisa permanecer associada ao manejo responsável da araucária e ao respeito às regras de colheita. A sustentabilidade da atividade depende da conservação das árvores, da proteção dos ambientes naturais e da remuneração adequada de quem participa da coleta e da comercialização.
Memória, paisagem e pertencimento
Na gastronomia serrana, o pinhão sintetiza uma paisagem. Seu sabor remete às araucárias, ao frio, aos fogões a lenha, às festas comunitárias e às refeições compartilhadas. Essa associação explica por que a semente é frequentemente apresentada como símbolo de Santa Catarina e, de maneira mais específica, da Serra Catarinense.
O alimento também conecta diferentes períodos da história regional. Práticas relacionadas aos povos originários, aos habitantes do planalto, aos tropeiros e às famílias rurais foram incorporadas, transformadas e transmitidas ao longo do tempo. A culinária atual é resultado desse processo, não de uma única origem ou de uma receita fixa.
Ao chegar à mesa, o pinhão carrega, portanto, mais do que características de sabor e textura. Ele representa modos de preparar, colher, conservar e compartilhar. Cada receita preservada ou reinventada mantém parte dessa trajetória e atualiza a presença da araucária na vida cotidiana.
Um símbolo que permanece em transformação
O pinhão se tornou símbolo da gastronomia serrana de Santa Catarina porque reúne elementos que raramente aparecem separados: identidade regional, tradição culinária, atividade econômica e potencial turístico. Ele está presente tanto na comida simples servida em casa quanto nos pratos criados para eventos e restaurantes.
Essa permanência não depende apenas da repetição de costumes. Ela também resulta da capacidade de adaptação do ingrediente. Ao ser usado em preparações salgadas, doces e contemporâneas, o pinhão amplia seu alcance sem perder a ligação com a paisagem e com a história da Serra Catarinense.
Enquanto a araucária continuar fazendo parte do território e as comunidades mantiverem vivos os conhecimentos relacionados à colheita e ao preparo, o pinhão seguirá ocupando um espaço privilegiado na cozinha regional. Mais do que um produto de inverno, ele permanece como uma forma de contar a história, a cultura e os sabores da serra.