A história dos tropeiros em Santa Catarina está ligada à circulação de animais, mercadorias, notícias e pessoas por caminhos que atravessavam áreas de mata, campos e serras. Durante os períodos colonial e imperial, esses viajantes ajudaram a conectar o litoral catarinense ao planalto e às regiões do Sul e do Sudeste do Brasil.
O tropeirismo não foi apenas uma atividade de transporte. A passagem das tropas contribuiu para a criação de pousos, ranchos, casas comerciais e núcleos de povoamento. Também deixou marcas na paisagem e no modo de vida de diferentes regiões do estado, especialmente no Planalto Serrano, no Meio-Oeste e no extremo sul.
Essa herança pode ser percebida em antigos caminhos, taipas de pedra, nomes de localidades, festas, cavalgadas, técnicas de criação de cavalos e tradições associadas à vida rural. Ao mesmo tempo, a expansão das rotas tropeiras ocorreu em um território que já era ocupado por povos indígenas e esteve relacionada a conflitos, disputas por terras e processos de ocupação que marcaram a formação de Santa Catarina.
Quem eram os tropeiros
Os tropeiros eram responsáveis por conduzir tropas de muares, cavalos e gado por longas distâncias. As mulas tinham papel estratégico no transporte terrestre porque suportavam terrenos acidentados, variações climáticas e jornadas extensas. Em uma época de estradas precárias e poucas alternativas de circulação, esses animais levavam produtos a regiões afastadas dos portos e dos centros comerciais.
As tropas podiam transportar animais destinados à venda, além de couro, carne, erva-mate, pinhão, sal, ferramentas, tecidos e outros produtos. O fluxo variava de acordo com a região e com a época, mas a lógica era semelhante: buscar mercadorias em um ponto, conduzi-las por caminhos terrestres e abastecer povoados situados ao longo do trajeto.
Os tropeiros também exerciam uma função de comunicação. Em viagens que duravam dias ou semanas, levavam informações entre comunidades distantes, transmitiam notícias sobre preços, colheitas, conflitos e acontecimentos políticos. Por isso, os caminhos das tropas funcionavam como redes econômicas e sociais, além de vias de transporte.
Os caminhos que atravessavam Santa Catarina
Santa Catarina ocupava uma posição importante entre as áreas de criação do Sul e os mercados consumidores do Sudeste. O planalto catarinense, com seus campos naturais, tornou-se área de passagem e criação de animais. O litoral, por sua vez, concentrava portos e pontos de ligação com outras áreas da colônia e, mais tarde, do Império.
Um dos trajetos associados a esse processo foi o Caminho dos Conventos, que ligava áreas do litoral sul catarinense aos campos de cima da serra. Estudos históricos apontam que a rota contribuiu para conectar o litoral ao planalto e estimular o surgimento de pontos de parada, comércio e ocupação ao longo do percurso.
Outro eixo importante ligava a região de Desterro, atual Florianópolis, ao planalto de Lages. O chamado Caminho das Tropas atravessava áreas serranas e fazia parte de uma rede maior de circulação que alcançava o Paraná, o Rio Grande do Sul e o interior paulista. Os trajetos não eram necessariamente uma estrada única e contínua. Havia ramais, atalhos e mudanças de rota conforme as condições do terreno, os rios, o clima e a segurança da viagem.
A abertura desses caminhos não significou a criação de rotas em territórios vazios. Muitas passagens se apoiaram em conhecimentos geográficos anteriores e atravessaram áreas ocupadas por povos indígenas, entre eles grupos Kaingang e Guarani. A expansão das frentes de criação, comércio e colonização alterou essas paisagens e esteve acompanhada de confrontos e deslocamentos.
Lages e a formação da cultura tropeira
Lages tornou-se um dos principais pontos de referência do tropeirismo em Santa Catarina. Localizada no planalto, a região reunia campos favoráveis à criação de gado e ocupava uma posição estratégica entre diferentes caminhos do Sul do Brasil.
A circulação de tropas fortaleceu a economia pastoril e ajudou a integrar o planalto a mercados externos. A vida local passou a combinar criação de animais, agricultura, comércio e serviços destinados aos viajantes. Pousos, ranchos e pontos de abastecimento atendiam tanto aos homens quanto aos animais, criando relações econômicas que iam além da simples passagem.
O tropeirismo também influenciou a organização social da região. A rotina exigia conhecimento dos campos, domínio dos animais, resistência física e capacidade de enfrentar mudanças bruscas de temperatura. Essas experiências ajudaram a consolidar uma identidade serrana associada à mobilidade, ao trabalho com o gado e à vida em áreas de grandes distâncias.
Vestígios materiais dos antigos caminhos ainda são estudados na região. Entre eles estão trechos de estradas, estruturas de passagem, taipas de pedra e áreas que podem ter funcionado como pousos. A arqueologia da paisagem tem contribuído para identificar como essas rotas foram utilizadas e como modificaram o espaço ao longo do tempo.
O tropeirismo no Meio-Oeste e no Contestado
Os caminhos de tropas também atravessaram o Meio-Oeste catarinense e áreas relacionadas à região do Contestado. Nesses locais, as rotas foram associadas ao transporte de gado, à exploração da erva-mate, à agricultura e ao deslocamento de moradores entre diferentes núcleos.
As trilhas ajudaram a aproximar comunidades, mas também fizeram parte de um processo mais amplo de ocupação territorial. A chegada de novos interesses econômicos, a construção de estradas, a instalação de empresas e a disputa por terras contribuíram para tensões sociais que marcaram o início do século XX.
É importante evitar uma leitura que apresente os tropeiros apenas como “desbravadores”. A palavra pode ocultar a presença anterior de populações indígenas e de comunidades caboclas que conheciam e utilizavam o território. A história dos caminhos precisa ser compreendida como resultado do encontro, da disputa e da transformação de diferentes formas de ocupação.
Na região do Contestado, o tropeirismo esteve ligado à circulação de pessoas e produtos em um espaço marcado por conflitos sociais e políticos. Os caminhos serviram tanto ao comércio quanto à comunicação entre comunidades, propriedades e áreas de extração. A herança tropeira, nesse contexto, se mistura às memórias caboclas, à produção de erva-mate e às experiências de famílias que viviam em áreas rurais.
As marcas no extremo sul catarinense
No extremo sul de Santa Catarina, os caminhos das tropas conectavam o litoral, os vales e as áreas altas da serra. A Trilha da Serra da Pedra, na região de Jacinto Machado, é um dos exemplos estudados por pesquisadores interessados na relação entre paisagem, patrimônio e tropeirismo.
Pesquisas realizadas sobre a área identificaram vestígios associados à circulação de tropas, como antigos caminhos, locais de parada, estruturas de apoio e pontos de referência utilizados por viajantes. A movimentação contribuiu para a formação de comunidades e para a criação de atividades comerciais relacionadas ao abastecimento de quem percorria a serra.
Em muitos desses trajetos, a paisagem é parte do próprio documento histórico. A largura de uma trilha, a disposição de pedras, a existência de um rancho ou a localização de uma antiga venda podem indicar como os viajantes se deslocavam e quais eram as necessidades das tropas.
O estudo desses vestígios também revela que o patrimônio tropeiro não se resume a construções preservadas. Ele inclui caminhos parcialmente apagados, relatos de moradores, nomes de lugares e práticas transmitidas entre gerações. A memória local é, muitas vezes, a principal fonte para localizar antigas rotas e compreender sua importância.
Ranchos, pousos e nomes de lugares
Os tropeiros dependiam de pontos de descanso para alimentar os animais, preparar refeições e proteger a carga. Alguns locais de pouso deram origem a pequenas comunidades. Outros ficaram registrados em nomes de localidades, rios, serras e propriedades rurais.
Rancho Queimado, na Grande Florianópolis, é frequentemente associado à memória de um rancho utilizado por tropas e posteriormente destruído pelo fogo. A história do nome integra as narrativas locais sobre a circulação de tropeiros e mostra como acontecimentos ligados às viagens podem permanecer na toponímia.
Nem toda explicação popular sobre a origem de um nome pode ser comprovada de forma definitiva. Ainda assim, essas narrativas fazem parte do patrimônio imaterial porque expressam a maneira como as comunidades interpretam e transmitem seu passado.
Os antigos pousos também favoreceram o surgimento de comércio, hospedagem e serviços. Ao redor deles, famílias passaram a oferecer alimentos, ferramentas, abrigo e cuidados aos animais. Com o tempo, alguns pontos se transformaram em núcleos permanentes, enquanto outros desapareceram com a abertura de novas estradas e a expansão do transporte motorizado.
Influências na cultura catarinense
A cultura tropeira deixou marcas visíveis na relação dos catarinenses com os cavalos e com o gado. Na Serra, o cavalo campeiro é associado às atividades de campo e à adaptação às condições do planalto. A criação e o manejo de animais continuam presentes em práticas rurais, cavalgadas e eventos tradicionais.
A alimentação também preserva referências à vida nas estradas e nos campos. Preparos feitos com ingredientes de fácil conservação e receitas ligadas ao trabalho rural aparecem em diferentes áreas de Santa Catarina. É preciso, porém, considerar que essas tradições resultam da combinação de influências indígenas, africanas, portuguesas, espanholas, caboclas e de grupos de imigrantes que chegaram ao estado em diferentes períodos.
Na música, nas danças, nas histórias contadas em família e no vocabulário regional, aparecem referências à vida dos viajantes, aos animais e às paisagens percorridas. A figura do tropeiro também é retomada em cavalgadas, encontros tradicionalistas, projetos culturais e ações de educação patrimonial.
Essas manifestações não reproduzem exatamente o cotidiano dos antigos tropeiros. Elas são releituras contemporâneas de uma experiência histórica. O valor cultural está justamente na capacidade de atualizar memórias e relacioná-las às identidades locais.
O fim das grandes tropas
O tropeirismo perdeu importância gradualmente com a melhoria das estradas, a expansão das ferrovias e o uso de caminhões. A mudança não ocorreu de forma simultânea em todo o estado. Em áreas rurais e serranas, o transporte com animais continuou por mais tempo, mas deixou de ocupar o mesmo papel na integração econômica regional.
Com a modernização dos meios de transporte, muitos caminhos foram incorporados a estradas, abandonados ou transformados em trilhas. Ranchos desapareceram, taipas foram desmontadas e parte dos vestígios ficou coberta pela vegetação ou incorporada a propriedades particulares.
A substituição das tropas não apagou sua influência. Pelo contrário, a memória do tropeirismo passou a ser usada para explicar a origem de comunidades, valorizar paisagens e reforçar identidades regionais. Em cidades serranas e do interior, o tema aparece em monumentos, museus, festas, roteiros culturais e pesquisas acadêmicas.
Preservar a memória dos tropeiros
A preservação do patrimônio tropeiro depende da identificação dos caminhos, da proteção dos vestígios e do registro das memórias das comunidades. Também exige cuidado para não transformar a história em uma narrativa simplificada, que ignore os povos indígenas, os caboclos e os conflitos associados à ocupação territorial.
Projetos de educação patrimonial podem aproximar estudantes, moradores e pesquisadores. Mapear trilhas, reunir fotografias antigas, registrar depoimentos e documentar estruturas remanescentes são medidas que ajudam a evitar a perda de informações.
A história dos tropeiros em Santa Catarina, portanto, não está restrita ao passado. Ela permanece presente na paisagem, na cultura rural e nas formas como diferentes regiões explicam sua formação. Os caminhos que um dia serviram ao transporte de animais e mercadorias continuam funcionando como referências para compreender a integração do estado e a diversidade de sua identidade cultural.
Fontes consultadas: pesquisa da Unesc sobre o Caminho dos Conventos e a Trilha da Serra da Pedra; estudo da Universidade do Contestado sobre os caminhos do tropeirismo no Contestado; pesquisa arqueológica sobre os caminhos das tropas nos Campos de Lages; e diagnóstico documental do patrimônio cultural imaterial de Santa Catarina.