O patrimônio histórico de Santa Catarina funciona como uma espécie de arquivo a céu aberto sobre a formação do Estado. Em cidades litorâneas, áreas rurais e antigas regiões de imigração, construções, paisagens, sítios arqueológicos e manifestações culturais preservam marcas de diferentes períodos e grupos que participaram da ocupação do território.
Esse conjunto inclui centros urbanos protegidos, igrejas, casas, estações ferroviárias, fortificações, engenhos, acervos, sambaquis e tradições transmitidas entre gerações. Mais do que elementos isolados, os bens ajudam a compreender como Santa Catarina foi ocupada, defendida, conectada por rotas comerciais e transformada pela chegada de novos moradores a partir do século XIX.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconhece, no Estado, bens de natureza material e imaterial. A proteção também envolve órgãos estaduais e municipais, além da participação das comunidades responsáveis pela preservação da memória local. (gov.br)
Vestígios anteriores à colonização
A história de Santa Catarina não começa com a chegada dos portugueses. Antes da formação das vilas coloniais, diferentes povos ocupavam o território e deixaram vestígios que hoje integram o patrimônio arqueológico catarinense.
Entre esses vestígios estão os sambaquis, elevações formadas principalmente por conchas, ossos, restos de fogueiras e artefatos. Essas estruturas registram a presença de comunidades que viveram no litoral há milhares de anos, com atividades ligadas à pesca, à coleta e à navegação.
O Estado abriga alguns dos maiores sítios arqueológicos do tipo sambaqui no mundo. Em Jaguaruna, o sítio de Garopaba do Sul reúne sambaquis, vestígios líticos e cerâmicos. A área também possui ruínas de uma armação baleeira datada de 1772, mostrando como diferentes camadas históricas podem coexistir em um mesmo território. (gov.br)
Em Laguna, levantamentos citados pelo poder público municipal registram dezenas de sítios arqueológicos relacionados a povos sambaquieiros e guaranis. Esses locais ampliam a compreensão sobre a ocupação do litoral e mostram que a história catarinense é anterior às estruturas coloniais ainda visíveis nas cidades. (laguna.sc.gov.br)
Fortificações e a disputa pelo território
A posição geográfica de Santa Catarina, entre o litoral atlântico e as áreas de fronteira com os domínios espanhóis, fez da região um ponto estratégico para a Coroa portuguesa. A partir do século XVIII, fortificações foram construídas para proteger a Ilha de Santa Catarina e consolidar a presença portuguesa no Sul do continente.
O sistema de fortificações inclui a Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, a Fortaleza de São José da Ponta Grossa, o Forte de Santo Antônio de Ratones, o Forte de Santana, a Fortaleza Nossa Senhora da Conceição de Araçatuba e o Forte Santa Bárbara. As estruturas revelam a dimensão militar da ocupação e a importância das baías e dos canais para a circulação de embarcações.
Além da função defensiva, as fortificações ajudam a explicar a formação de Florianópolis e de outras localidades do litoral. A construção desses equipamentos esteve relacionada à necessidade de controlar rotas marítimas, proteger povoados e afirmar limites territoriais em uma região marcada pela disputa entre portugueses e espanhóis. (gov.br)
Laguna e São Francisco do Sul
Os centros históricos de Laguna e São Francisco do Sul estão entre as principais referências do patrimônio urbano catarinense. Os dois conjuntos foram tombados pelo Iphan na década de 1980 e preservam imóveis, traçados de ruas, espaços públicos e edificações ligados à formação das cidades.
Em Laguna, o centro histórico se desenvolveu a partir do antigo porto e reúne cerca de 600 imóveis protegidos. A cidade foi uma das primeiras povoações portuguesas do litoral catarinense e teve papel importante na expansão territorial do Sul. Seu patrimônio também está associado à passagem de diferentes grupos e a episódios políticos e militares do século XIX.
Laguna foi palco da Revolução Farroupilha em 1839, quando os revolucionários proclamaram a República Catarinense, também conhecida como República Juliana. A cidade é ainda ligada à trajetória de Anita Garibaldi, personagem que participou dos conflitos revolucionários no Sul do Brasil e na Itália. (gov.br)
São Francisco do Sul, por sua vez, possui um núcleo original com centenas de imóveis e um conjunto arquitetônico associado à ocupação litorânea. A cidade está localizada na Baía da Babitonga, área que recebeu navegadores de diferentes nacionalidades e que já era habitada por povos indígenas antes da colonização.
Casarios coloniais, igrejas, monumentos e vestígios arqueológicos fazem parte da paisagem protegida. A preservação do conjunto permite observar como a cidade se organizou ao redor de funções cívicas, religiosas, comerciais e portuárias. (gov.br)
A presença açoriana na Grande Florianópolis
Outra parte importante da formação catarinense está relacionada à presença de imigrantes dos Açores, estabelecidos em pontos estratégicos do litoral a partir do século XVIII. As freguesias criadas nesse período contribuíram para consolidar a ocupação portuguesa e deixaram marcas na arquitetura, na organização das comunidades, na pesca, na agricultura e nas festas religiosas.
Em 2023, o Iphan aprovou o tombamento das Freguesias Luso-Brasileiras na Grande Florianópolis como patrimônio cultural brasileiro. O reconhecimento abrange conjuntos históricos do Ribeirão da Ilha, Santo Antônio de Lisboa e Lagoa da Conceição, em Florianópolis, além do núcleo da Enseada do Brito, em Palhoça.
Esses lugares preservam igrejas, casas, caminhos, paisagens costeiras e relações entre o ambiente natural e as atividades tradicionais. O patrimônio, nesse caso, não está apenas nos edifícios, mas também na forma como as comunidades se estabeleceram e mantiveram práticas culturais ao longo do tempo. (gov.br)
Imigração e diversidade cultural
A partir do século XIX, a chegada de imigrantes europeus modificou a ocupação de várias regiões de Santa Catarina. Alemães, italianos, poloneses, ucranianos, austríacos e outros grupos se instalaram em diferentes áreas, formando colônias, comunidades rurais e núcleos urbanos.
Essa presença aparece em casas, ranchos, igrejas, escolas, jardins, pomares, técnicas agrícolas e formas de organização das propriedades. A arquitetura enxaimel, marcada pelo uso aparente de madeira e tijolos, tornou-se uma das expressões mais reconhecidas da herança germânica em determinadas regiões do Estado.
O patrimônio ligado à imigração também inclui elementos menos visíveis, como dialetos, receitas, festas, conhecimentos agrícolas e modos de trabalho. Em Itaiópolis, o núcleo de Alto Paraguaçu integra os roteiros nacionais de imigração e foi reconhecido como paisagem cultural brasileira, conceito que considera a interação entre sociedade e ambiente.
A preservação desses bens permite compreender que a formação catarinense não ocorreu de maneira uniforme. O litoral, o planalto, o Vale do Itajaí, o Norte e o Oeste desenvolveram características próprias, resultado das relações entre povos indígenas, colonizadores, imigrantes, atividades econômicas e condições ambientais. (gov.br)
Ferrovias, portos e crescimento urbano
O patrimônio histórico também registra as transformações econômicas que acompanharam a urbanização do Estado. Estações ferroviárias, portos, armazéns, antigas áreas industriais e edifícios públicos mostram como Santa Catarina ampliou suas conexões internas e externas.
A Estação Ferroviária de Joinville é um exemplo de patrimônio cultural ferroviário e de arquitetura teuto-brasileira. O tombamento considera elementos construtivos, ornamentos e soluções técnicas que ajudam a identificar a relação entre a cidade, a imigração e a expansão das ferrovias.
Esses espaços não representam apenas antigas formas de transporte. Eles revelam a circulação de pessoas, mercadorias e informações, além da criação de novas centralidades urbanas. Em muitos municípios, a estação ferroviária foi um dos pontos a partir dos quais bairros, comércios e serviços se desenvolveram. (gov.br)
Preservar para compreender o presente
A proteção do patrimônio histórico não se limita à manutenção de fachadas antigas. O tombamento pode abranger edificações, conjuntos urbanos, paisagens, sítios arqueológicos, acervos e outros bens considerados relevantes para a memória coletiva. A Constituição Federal reconhece tanto o patrimônio material quanto o imaterial e prevê diferentes instrumentos de preservação.
Em Santa Catarina, a atuação é compartilhada entre União, Estado, municípios e sociedade. A Fundação Catarinense de Cultura participa dos processos de tombamento estadual, enquanto o Iphan é responsável pela proteção federal. A legislação catarinense define como patrimônio histórico, artístico e cultural os bens móveis e imóveis cuja conservação seja reconhecida como de interesse público.
A preservação também impõe desafios. Centros históricos precisam conciliar conservação, moradia, comércio, mobilidade e uso cotidiano. Sítios arqueológicos dependem de pesquisa, fiscalização e educação patrimonial. Em áreas rurais, a continuidade das práticas culturais muitas vezes está ligada à permanência das famílias e à valorização dos modos de vida locais.
Por isso, o patrimônio histórico de Santa Catarina não deve ser visto apenas como cenário turístico. Ele é uma fonte de conhecimento sobre conflitos, deslocamentos, formas de trabalho, crenças, técnicas construtivas e relações com o território. Ao conservar esses registros, o Estado mantém referências para interpretar o passado e tomar decisões sobre o futuro.
De cidades portuárias a comunidades rurais, as marcas preservadas em Santa Catarina mostram que a formação estadual foi resultado de processos diversos e sucessivos. O patrimônio reúne memórias indígenas, coloniais, militares, açorianas, imigrantes e urbanas, compondo uma narrativa que continua sendo construída pelas comunidades e pelas instituições responsáveis por sua proteção.
Leia também: informações sobre bens tombados e ações de preservação podem ser consultadas no Iphan em Santa Catarina e na legislação da Fundação Catarinense de Cultura.